Quem passa pelas ruas do bairro Bela Vista, em Porto Alegre, encontra um portão vermelho que chama atenção entre as casas da região. Nele, uma frase resume a trajetória de quem vive ali: “Todos podem aprender”. A sentença, assinada por Esther Pillar Grossi, funciona quase como um cartão de visitas. Mas, ao conhecer a educadora, percebe-se que o portão é apenas um detalhe diante da personalidade vibrante que ela construiu ao longo de nove décadas.
Quando as portas de sua casa se abrem, encontramos Esther com sua marca registrada: seus cabelos tingidos em tons vibrantes, combinando com o vestido roxo, os chinelos vermelhos e as unhas coloridas. Aos 90 anos, Esther continua sendo uma figura impossível de passar despercebida. Enquanto muitos associam a aparência chamativa à extroversão, a explicação que ela dá é surpreendente.
Esther conta, entre risos, que sempre gostou de cores porque não se considerava bonita. Enquanto sua irmã preferia roupas discretas e quase não usava maquiagem, ela seguiu o caminho oposto. Passou a investir em batons, sombras, estampas e cores vibrantes, transformando aquilo que começou como uma insegurança em uma característica inseparável de sua imagem.
Os cabelos vermelhos nasceram de uma experiência feita décadas atrás, quando uma amiga lhe presenteou com uma tinta importada. Incentivada por amigos, decidiu experimentar. A mudança causou estranhamento entre colegas de trabalho, mas acabou se tornando uma de suas marcas mais conhecidas. Desde então, nunca mais abandonou a cor que, assim como sua trajetória na educação, desafia convenções e chama atenção por onde passa.

A crença de que todos podem aprender nasceu cedo. Na infância, Esther estudava ao lado de um colega que ajudava a família vendendo tempero verde na feira. Foi ele quem aprendeu a ler antes dela.
Intrigada, perguntava como aquilo era possível. O menino respondia com simplicidade: “Tu também vai conseguir”.
A experiência marcou a futura educadora. Desde então, passou a enxergar a aprendizagem como uma possibilidade que não depende da origem social.
“A condição social não determina a inteligência”, afirma.
Sua relação com a educação começou muito antes. Nascida em Santa Maria e criada em uma família de 10 irmãos, da qual era a nona filha, Esther cresceu cercada por livros e pela valorização do estudo. Quando concluiu o ensino médio, mudou-se para Porto Alegre para ingressar no ensino superior, optando pelo curso de Matemática na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Quando jovem, Esther sonhava em cursar Medicina. O plano mudou após ouvir do namorado da época que a profissão era “coisa para homens”. Hoje, ela relembra a história entre risos. “Acho que foi sorte, foi bom”, diz.
Apesar do bom desempenho acadêmico, a experiência universitária também despertou suas primeiras inquietações. A escolha da área aconteceu quase por acaso. A jovem prestou vestibular tanto para Química quanto para Matemática e foi aprovada nos dois cursos. Acabou escolhendo a segunda opção por enxergar nela um ambiente mais estimulante. A decisão, tomada sem imaginar os caminhos que seguiria depois, definiria sua trajetória profissional.
“Eu me dei conta de que tinha aprendido muito pouco”, recorda.
A percepção de que era possível obter boas notas sem necessariamente compreender os conteúdos marcou profundamente a futura educadora. Foi dessa insatisfação com os métodos tradicionais de ensino que nasceu a curiosidade que mais tarde a levaria à pesquisa, à inovação pedagógica e à defesa de que toda pessoa é capaz de aprender.
O interesse pelo ensino cresceu à medida que Esther se envolvia em pesquisas e conversava com colegas de profissão. Muitos deles compartilhavam a mesma sensação que ela carregava desde a graduação: a de que haviam concluído o curso sem compreender plenamente aquilo que estudavam.
“Estamos pensando em voltar para a universidade para retomar os estudos”, recorda que alguns colegas diziam. Ela respondia em tom de brincadeira que talvez isso não resolvesse o problema, já que os métodos de ensino continuavam os mesmos.
Foi nesse contexto de questionamentos que surgiu a oportunidade de estudar na França.
No final da década de 1960, uma oportunidade mudaria os rumos de sua trajetória. O marido recebeu um convite para estudar na França e, para acompanhá-lo, Esther conquistou uma bolsa do governo francês. Foi em Paris que entrou em contato com novas teorias sobre aprendizagem e conheceu o pesquisador francês Gérard Vergnaud, que se tornaria uma das principais referências de sua vida acadêmica.
O plano inicial era aprofundar os estudos em Matemática. No entanto, ao lado de Vergnaud, passou a mergulhar em pesquisas sobre psicologia da aprendizagem e desenvolvimento cognitivo. A experiência ampliou sua visão sobre educação e ajudou a consolidar inquietações que carregava desde os tempos de universidade.
Anos mais tarde, Esther descobriria que parte das reflexões desenvolvidas em sua pesquisa ajudaram a fundamentar estudos que influenciaram práticas adotadas na educação básica.
De volta ao Brasil, trouxe consigo a convicção de que era possível transformar a forma como as pessoas aprendiam. Em setembro de 1970, participou da criação do GEEMPA (Grupo de Estudos sobre Educação, Metodologia de Pesquisa e Ação), inicialmente voltado para melhorar o ensino da matemática nas escolas públicas, especialmente nas periferias.
O contexto político da época também impunha desafios. Durante a ditadura militar, integrantes do grupo conviviam com vigilância constante. Esther recorda que havia pessoas infiltradas acompanhando reuniões e atividades do GEEMPA. Em diferentes momentos, ela foi chamada por autoridades militares e ouviu ameaças de fechamento da entidade.
“O conhecimento é sempre muito subversivo”, comenta.
Atuando com o grupo e em contato com comunidades populares ela percebeu que o principal problema não era a matemática. Afirma: “As classes populares não precisavam de matemática, precisavam aprender a ler.” E relembra que no primeiro contato com as escolas ela encontrou o seguinte cenário: havia quatro turmas de 1º ano e apenas uma de 4º ano, com isso o GEEMPA amplia sua atuação para alfabetização e não apenas os estudos em matemática.
Ela comenta que em diversas idas a São Paulo para conhecer o GM (Grupo de Matemática), grupo que deu origem ao GEEMPA, viu como a pesquisa em sala de aula pode mudar trajetórias. “Meu gosto não era aplicar o que os outros já tinham feito, era inovar”. Ativa na defesa pela educação até hoje, ela defende a escola pública, critica o estado atual da alfabetização e segue sua preocupação com os altos índices de analfabetismo no país.
O grupo formou diversos profissionais com um único objetivo: a alfabetização. Ela recorda que houve uma turma de diferentes professores onde lecionava sobre técnicas de educação e havia apenas uma regra: “Vocês não podem atuar como educadores até a finalização desse curso.” E o resultado foi que diversos profissionais ignoraram essa regra e alfabetizaram 90% dos seus alunos antes da formação, ela comenta rindo e com orgulho.
A influência de Esther ultrapassa as salas de aula e os projetos de alfabetização. Dentro de casa, a educação também sempre esteve presente. Seu neto, Cristiano Grossi, relembra que a infância foi marcada pela participação nas atividades desenvolvidas pela avó. Muitas vezes, os netos serviram como voluntários para testar dinâmicas e exercícios criados por ela.
“Estávamos sempre envolvidos no meio da educação, aprendendo alguma coisa”, recorda.
Segundo ele, a avó também teve papel importante no incentivo para que a família continuasse estudando e buscando novos conhecimentos. “Claro que ela incentivou que a gente continuasse estudando e procurando saber mais. Tem bastante dedo dela nessa questão”, afirma.
O neto brinca que herdou pouco da eloquência da avó. “Como dá para perceber, eu não falo tanto quanto ela”, diz.
A influência de Esther ultrapassa as salas de aula, os projetos de alfabetização e até mesmo o ambiente familiar. Sua trajetória também inspirou mulheres que seguiram caminhos distintos do seu. Entre elas está a ex-deputada federal Manuela d’Ávila, que vê na educadora uma das referências femininas de sua geração.
“Estou aqui porque outras mulheres vieram antes de mim, como Esther Grossi”, afirma.
A amizade entre as duas permanece até hoje. Durante a entrevista, Esther interrompe a conversa por alguns instantes para conferir o horário. Estava atrasada para um evento ao lado de Manuela. A cena ajuda a explicar por que, mesmo aos 90 anos, ela continua presente nos espaços onde educação e transformação social se encontram.
A história de Esther se entrelaça com a de Francesca, uma adolescente haitiana que participava de um grupo de alfabetização coordenado por ela. Aos 15 anos, ela estava sete anos na escola e ainda não conhecia o alfabeto. Anos depois, Esther recebeu uma ligação acompanhada de uma fotografia. Nela, Francesca aparecia usando beca na cerimônia de formatura de medicina. Ela guarda com carinho essa foto e comenta: “Como não serei feliz assim?”.
Para quem passa pelo portão vermelho da casa da educadora, a frase parece apenas um lema. Para Esther, ela é uma convicção construída desde a infância, quando ouviu de um colega de feira uma resposta simples para uma pergunta difícil:
“Tu também vai conseguir.”
Todos podem aprender.
