“Tu sabe que eu tenho medo dessas coisas, né?”, ela falou rindo. O convite era inusitado e o aceite tímido. Católica desde criança, ela jamais havia cogitado entrar numa casa espírita. Convencê-la a sair de nossa vizinhança para conhecer algo pelo qual carregava preconceitos foi difícil. Mas lá estava ela, trajada com sua bolsa e várias ideias precipitadas do que iria acontecer naquela noite. Tudo que conhecia sobre esse universo espírita vinha de boatos atravessados e histórias mal contadas: de que o espiritismo lidava com assombrações e forças demoníacas. A visão dela não é única. Centros espíritas ainda são associados a imagens de rituais obscuros. Mesmo assim, naquela noite, decidiu atravessar a porta pela primeira vez.
Localizado na rua Mônaco, número 30, em Novo Hamburgo, o Centro Espírita Esperança e Fé é um espaço de atendimento. Você pode até pensá-lo como uma Unidade de Saúde, o processo é o mesmo. Ao entrar, os pacientes pegam uma ficha numerada, do um até onde a noite mandar ir. No salão principal, as cadeiras são distribuídas em fileiras enquanto as pessoas esperam ansiosamente pelo seu atendimento. Algumas ficam em silêncio, com o olhar vago e preocupado, talvez refletindo o momento de sua vida; outros cochicham entre si, talvez até se conhecem pela vivência no centro. A temerosa novata no centro faz parte do grupo do silêncio. Ela já pegou sua ficha e, a partir de agora, a chamarei pelo número escrito no papel que segura nas mãos: 16.

Enquanto mais pessoas chegam e acomodam-se, passam de lá para cá aqueles que intermediarão o tratamento de cada um destes numerados pacientes. São chamados médiuns aqueles que têm o dom de manter contato entre o nosso mundo e o mundo espiritual. Eles são capazes de ouvir, sentir e emprestar seus corpos para os espíritos no ambiente. Reginaldo Cardoso, coordenador do Centro Espírita Esperança e Fé, explica que todos somos, de certo modo, médiuns: “Mediunidade é sobre sensibilidade e todos nós, naturalmente, temos sensibilidade humana, mas alguns são mais ostensivos”, explica.
Quando a casa já está com cara de cheia, todos os médiuns retiram-se para uma sala particular. Um curto período, em que os pacientes ficam sozinhos em suas cadeiras, antes dos atendimentos começarem. As atividades iniciam com os passes espirituais. Basicamente é a transmissão de energias, utilizando a imposição das mãos para realizá-las. Os médiuns se conectam com toda paz e sabedoria interior e pedem a assistência de espíritos auxiliares, que irão conduzir as energias positivas a quem está buscando o passe.
Nesse momento, todos fecham os olhos e estendem as mãos sobre o colo. Assim como os outros, a ficha 16 obedece. Aquele seria o único tratamento que ela realizaria naquela noite. Ela nunca prometeu ficar até o final. Quem sabe o que estaria passando na sua cabeça? Talvez o medo inicial estivesse vencendo. Porém, mesmo sem passar pelos demais atendimentos, ela continuou ali até o fim das palestras. Quando é solicitado, todos abrem os olhos e as paredes e luzes brancas do local parecem ainda mais claras. A ficha 1 é chamada e a noite começa.
Ao decorrer da noite, palestrantes revezam-se em discursos atravessados por dores extremamente humanas. Ao longo de mais de duas horas de conversa, pouco falou-se sobre fantasmas, demônios ou qualquer estereótipo normalmente associado aos centros espíritas. Falou-se sobre ansiedade. Sobre gente cansada. Sobre famílias desestruturadas. Sobre pessoas que chegam ali depois de passarem por médicos, exames e diagnósticos sem conseguirem aliviar o próprio sofrimento.
Durante a noite, Reginaldo compara os seres humanos a antenas: “A gente atrai aquilo que vibra. Tudo que tu pensa, sente e vive acaba retornando pra ti de alguma forma, como uma transmissão de rádio.” Para ele, doenças emocionais e físicas caminham juntas. Problemas familiares, ambientes tóxicos de trabalho, luto, culpa e solidão seriam capazes de adoecer o corpo. Mesmo para quem não compartilha da crença espírita, a lógica encontra eco em questões contemporâneas bastante reconhecíveis: burnout, depressão, ansiedade e esgotamento emocional.
Enquanto aguardava os atendimentos, a ficha 16 observava em silêncio. Seus preconceitos jamais foram confirmados. Nada do que já havia ouvido e especulado foi encontrado. Ao invés disso, ela enxergava pessoas de diferentes tipos. Pessoas idosas vindas sozinhas, jovens que vinham em grupo de amigos; mães e pais acompanhando os filhos pequenos, filhos e filhas acompanhando os velhos pais. Pessoas que saíam sorrindo e outros que saíam chorando.
Nesta noite, foram 38 fichas retiradas na entrada. Uma minúscula parcela dos 3,18 milhões de espíritas do Brasil. Trinta e oito pessoas diferentes, com vivências diferentes, dores diferentes e maneiras distintas de encarar a vida e espiritualidade. Em comum, todos relatam compartilhar algum tipo de cansaço — físico, emocional ou simplesmente cotidiano — que os levou até aquele salão branco na Rua Mônaco.

QUATRO TIPOS DE CANSAÇO
RAFAEL E A DÚVIDA
O cansaço de Rafael é de ignorância. Graduado em Tecnologia da Informação, ele fala como alguém acostumado a organizar o mundo pela lógica. Desde pequeno, questionava as místicas religiosas que cresceu ouvindo no catolicismo que frequentava com os pais. A Doutrina Espírita é definida por seus adeptos como uma doutrina de tríplice aspecto, abrangendo a ciência, a filosofia e a religião. O lado científico foi o que conquistou Rafael na sua jornada em busca de um espaço religioso em que as respostas, para ele, fizessem sentido. “Isso me trouxe muita atenção para esse lado. O espiritismo é uma fé racionalizada… não é uma coisa que te dizem que ‘aquilo ali é verde’ mesmo você vendo que é azul”, exemplifica.
Mas não fique achando que Rafael é apenas racional. Uma de suas inquietações é mais humana do que tudo. Nascido em uma família de classe média baixa que, apesar das dificuldades, teve alimentação e estudo garantidos, ele questionava a realidade enfrentada por outras crianças: cercadas pela violência, pelo ódio, pela falta de oportunidades ou vislumbres de coisas melhores: “Como esse Deus tão misericordioso e tão bom permite que eu tenha uma vida boa, e a outra criança que nasceu lá no outro lado do mundo, tenha uma vida ruim, torne-se uma pessoa ruim e vá para o inferno, sendo que ela não teve nenhuma chance de fazer o bem.”
MALIKA E A CULPA
Emocional é uma boa palavra para descrever o cansaço de Malika. A garota é relativamente nova no Centro Espírita, está apenas em sua quarta sessão. Assim como muitos, ela conheceu o espiritismo através de uma recomendação. Desde os 17 anos, lida com crises de pânico. Malika relata que, numa semana péssima em que a depressão estava à flor da pele, o namorado da sua mãe a aconselhou a ir num centro. “O primeiro passo que eu dei aqui foi com o pé direito e, a partir daí, tudo que eu estava sentindo naquele momento mudou.”
Para ela, o acolhimento individual que os atendidos recebem no centro espírita é um diferencial. Ela já havia passado por espaços católicos, evangélicos e umbandistas, mas sentia que as mensagens eram abrangentes demais, quase impessoais. No centro, pela primeira vez, alguém notou as fissuras que Malika ainda precisava costurar: “Quando a gente tem depressão, sempre pensamos que tudo é culpa nossa.” Ela conta que através dos ensinamentos sobre reencarnações, aprendeu uma nova forma de enxergar esse pensamento: “A gente pode consertar erros do passado, mas não podemos ter vergonha disso.”
O caminho de Malika no espiritismo promete fortes descobertas ainda: “Reginaldo me disse que eu tenho uma mediunidade muito forte”, explica, “Eu pego essas energias das pessoas, sobretudo as negativas, e guardo em mim para que os outros não sintam.”
PAULA E A RAZÃO
Nas noites do Centro Espírita, Paula muda de papel nos atendimentos. Durante o dia, atua como médica. À noite, busca uma forma de tratamento que seus períodos de faculdade não ensinaram. Formada para confiar no que pode ser medido, diagnosticado e explicado, ela parece ocupar um território contraditório ao sentar numa cadeira de centro espírita esperando ouvir sobre energias, mediunidade e espiritualidade.
O cansaço de Paula surge do convívio diário com a fragilidade humana. Ela diz que foi a curiosidade que a trouxe até ali, mas talvez exista um certo esgotamento das respostas puramente racionais no meio disso. Existe uma complexidade em uma pessoa que passa os dias tentando curar as pessoas através da ciência e, ainda assim, decide procurar respostas em algo que a própria ciência não alcança por inteiro: “Antes das cirurgias, faço sempre uma oração e os pacientes ficam surpreendidos quando veem isso.”
Ela comenta que existem Associações Médico-Espíritas no Brasil, que integram o conhecimento espírita à ciência médica através da educação, pesquisa e assistência em saúde e espiritualidade. Ainda assim, dentro da área, existem profissionais que desaprovam essa prática: “Eu tenho uma amiga que é médica também, e ela sempre me critica por frequentar o centro.”
JANETE E O PERDÃO
Já Janete estava cansada do ressentimento. Aos 55 anos, ela frequenta o Centro Espírita há quase uma década, num período de autotransformação, aprendendo lentamente a reorganizar-se enquanto pessoa. “Eu não sabia lidar com o ser humano”, admite ao relembrar dos conflitos cotidianos e mágoas acumuladas com que lidava. Foi no espiritismo que ela diz ter aprendido a agir diferente: “As pessoas ainda são complicadas, mas, hoje em dia, eu entendo melhor elas. Sei ouvir, agir, explicar.”
Parte desta mudança passa pelo difícil período em que acompanhou o ex-marido em um longo tratamento de um câncer. Foram nove anos entre idas e vindas de hospitais, cirurgias e as dores prolongadas pela doença. Janete lembra que o marido a desencorajava a frequentar o centro espírita. Porém, ela sempre insistiu não apenas em participar, mas em convencê-lo a conhecer o espiritismo.
No início, ele rejeitava: “Ele não acreditava de jeito nenhum, era contra, contra mesmo.”A insistência gerou resultados. Cerca de seis meses antes de falecer, o marido de Janete pediu que ela lhe apresentasse Reginaldo. A fé, antes motivo de discussão, tornou-se então uma forma de companhia e união nos momentos finais.
Janete não lembra desses momentos como tragédia. Para ela, problemas não existem, o que existem são reajustes. Os anos de desgaste com a mágoa evoluíram até restar apenas a compreensão. Hoje, ela segue aprendendo a evoluir nesta encarnação: “Quando a gente começa a conhecer a casa, a gente fica com muita dúvida. Tem muita coisa que leva tempo para entender.”

O ÚLTIMO RECURSO
A falta de alternativas talvez seja o maior motivo do cansaço. Reginaldo comenta que muitos chegam nos centros espíritas após passarem por médicos, remédios, diagnósticos e tratamentos, mas ainda assim, não conseguem encontrar alívio real para aquilo que sentem: “Normalmente, as pessoas vêm aqui quando é o último recurso.”
Há um silêncio desesperado nisso. O centro espírita parece receber pessoas que já esgotaram outras formas de tentar organizar a própria vida. Pessoas que talvez não estejam mais procurando uma cura definitiva, mas um conforto. Isso explica porque a semelhança com uma Unidade de Saúde, só que compartilhada entre pessoas emocionalmente exaustas.
Quando a ficha 16 é chamada, o pedaço de papel já está jogado sobre a cadeira em que antes havia uma mulher de 60 anos. O salão da rua Mônaco já está mais vazio. As figuras que chegaram na abertura das portas já foram substituídas por outras. Os médiuns continuam fazendo os atendimentos, enquanto as fichas voltam a amontoar-se no balcão da entrada. São 21:30, e ainda há muito a ser ouvido e sentido por trás das portas pálidas dos consultórios.
Um dia depois, debaixo do sol quentinho da manhã, a Ficha 16 limpa a calçada de sua casa. Ao cruzarmos o olhar, o assunto surge de imediato:
“Não ficou até o final?”
Ela responde um não tímido, tal qual o sim de seu aceite.
“E aí, como foi? Ficou com medo?”
“Ah, é diferente do que eu imaginava. Achei que fosse encontrar uma coisa mais pesada”, admite. “Mas não tive medo não”, comenta rindo, envergonhada dos próprios pensamentos preliminares: “Não sei se iria de novo, mas é um lugar bom.”
A conversa continuou, ainda que não por muito tempo. Mas antes de encerrar o expediente da vassoura naquela manhã, ela perguntou: “Tu não acha que todo mundo parecia um pouco cansado ali?”
