Em junho deste ano, primeiro mês depois de o governo zerar a chamada “taxa das blusinhas”, o Brasil recebeu 28 milhões de encomendas internacionais, mais que o dobro do mês anterior. No início de setembro, o Congresso aprovou o fim concreto da cobrança, que era de 20% sobre compras de até US$ 50. Esse dado mostra o peso do preço na hora da compra de roupas, e a moda sustentável entra exatamente aqui.
Produzir e consumir roupa de forma mais responsável costuma custar mais, e nem todo mundo pode pagar essa diferença. Porém, a questão vai além de “consumir menos”: envolve renda, informação e o modo como aprendemos a comprar.
Para a estudante de Moda Alanis Souza, o principal efeito do fast fashion não está só na quantidade produzida, ele também mudou a relação das pessoas com o consumo. As tendências passam rápido, os preços baixos incentivam a compra mais do que o necessário, e a peça acaba sendo usada poucas vezes até surgir outra.
A lógica do fast fashion combina produção em grande escala, preços baixos e renovação constante das coleções, fazendo com que comprar uma peça nova compense mais do que prolongar a vida útil de uma roupa. Um estudo publicado em 2026, que analisou dados sobre o comportamento de consumidores durante 10 anos, identificou um crescimento do grupo classificado como “seguidores do fast fashion”, caracterizado por compras frequentes e práticas não sustentáveis de descarte.
Dados ajudam a dimensionar a situação. A Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit) estima que o Brasil produziu 9 bilhões de peças em 2024, cerca de 40 por habitante. Do outro lado, a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE) calcula que o país descarta mais de 4 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano, incluindo retalhos de fabricação e roupas usadas.
No mundo, o equivalente a um caminhão de lixo de têxteis é descartado a cada segundo, segundo relatório da Fundação Ellen MacArthur, e menos de 1% do que se produz é reciclado em roupa nova.
Alanis entende que a sustentabilidade envolve toda a cadeia da moda. “Precisamos repensar nossa relação com as roupas, comprar com mais consciência, valorizar as peças que já temos e entender o impacto por trás de cada produto.”
O preço pesa durante a escolha
A estudante de Jornalismo e videomaker Kauane Santos confirma que o preço é um fator determinante para ela. Antes de comprar, olha os comentários e avaliações sobre a qualidade das peças, mas nunca prestou atenção em como as roupas são feitas nem em impacto ambiental, e não se aprofunda no assunto. “Eu opto sempre pelo mais barato, devido a minha realidade financeira, então se as sustentáveis forem mais baratas eu vou estar comprando.”
Já o estudante Victor de Bona escolhe por avaliação e qualidade, pesquisa a durabilidade dos itens e costuma pensar por quanto tempo vai usar cada peça. “Eu me sentiria mal de estar dando dinheiro para situações inadequadas de trabalho”, relata. Entretanto, traz a opinião de que roupas sustentáveis não são acessíveis a todas as faixas de renda, pois custam mais caro para justamente garantir condições dignas a quem as produz.
Os dois retratam um cenário comum. Um levantamento do Serasa de 2026 indica que 83% dos brasileiros já deixaram de comprar um produto sustentável por considerarem o preço elevado e 71% sentem culpa por isso. Uma pesquisa entre o Instituto Akatu e a GlobeScan, de 2023, mostrou que 57% da população do país consideram caro demais viver, em geral, de forma mais sustentável.

O argumento do preço também é usado pelas empresas de moda barata. A Shein diz que cerca de 88% de seus consumidores no Brasil são das classes C, D e E, e classificou o fim da “taxa das blusinhas” como uma vitória para esse público.
O brechó como alternativa


Para Patricia Hernandez Vaghette, dona do Adottare Brechó, que começou pela motivação ao resgate de animais, o seu próprio negócio a fez mudar de pensamento. O seu trabalho de conclusão de curso da faculdade de Direito, sobre direito ambiental, acabou virando um estudo sobre lixo, que a fez perceber o quanto descartava.
Já Janaína Jakoby, dona do brechó Jana Jakoby, sempre sonhou com o negócio. Hoje, em sua loja, clientes podem levar peças, que passam por uma avaliação e viram crédito na hora do pagamento de compras novas. As roupas que não passam na avaliação são repassadas para brechós religiosos e distribuídas para famílias em necessidade.
O público, segundo as duas, é variado. O preconceito, porém, persiste. Uma pesquisa do Instituto Akatu de 2022 mostrou que metade dos brasileiros nascidos entre 1980 e 1996 não tinha comprado em brechó, principalmente por preocupações com higiene e qualidade dos materiais. Entrevistas da reportagem com clientes confirmam esse ponto: eles compram pelo preço, mas a limpeza do espaço e das roupas é inegociável.
O mercado de segunda mão continua crescendo todos os dias. O Brasil tem cerca de 118 mil brechós ativos até setembro de 2026, alta de quase 31% em cinco anos, segundo dados do Sebrae, e projeções indicam que a moda circular pode crescer em 20% ao ano até 2030. Entre os motivos da expansão, está o aumento dos preços de lojas tradicionais, que reduziu o poder de compra dos brasileiros.
Caminhos para a moda sustentável
As pesquisam apontam obstáculos que se sobrepõem, com os principais sendo renda, informação pública, estigmas e falta de confiança. Enquanto o fast fashion oferece variedades e preços difíceis de comparar, alternativas como peças de segunda mão e produtos produzidos de forma mais responsável ainda enfrentam barreiras.
Comprar menos, prolongar o uso das peças, utilizar roupas de segunda mão e pesquisar sobre a origem dos produtos são possibilidades ao alcance de quem consegue. Mas a informação, sozinha, não resolve a questão. Para quem precisa escolher pelo menor preço, a sustentabilidade soa como um privilégio que nem todos tem. Repensar esse modelo exige mudanças que envolvem consumidores, empresas e políticas públicas.
