Com guitarras pulsantes, melodias que ficam na memória e influências que navegam entre o pop rock e o indie rock alternativo, a Daparte retornou a Porto Alegre na quinta-feira (29/10), para uma performance no Bar Ocidente. Destacado pela proximidade com a plateia e pela energia que contagiou o local, o show apresentou os três discos da banda, reunindo faixas como Você Gosta Dela, Acidental, Segundas Intenções, Ultravioleta e Belo Horizonte, em um setlist que revisitou diferentes etapas da carreira do grupo mineiro.
Abrindo a noite, a banda porto-alegrense Shaun levou ao palco sua sonoridade marcada pelo rock alternativo e por influências britânicas. No repertório, estiveram músicas como Anjos & Demônios e Voltando do Trabalho, faixas que integram a trajetória do grupo na cena independente gaúcha.
Formada por Juliano Rosa (voz e guitarra), João Ferreira (voz e guitarra), Bernardo Cipriano (voz e teclado), Túlio Lima (voz e baixo) e Daniel Crase (bateria), a Daparte reuniu 140 pessoas na apresentação, que marcou seu retorno à capital gaúcha após uma passagem pela cidade em 2025. Em entrevista antes do show, os músicos falaram sobre as referências que atravessam suas composições, as transformações do repertório ao longo dos anos e a relação construída com o público a cada apresentação.

A circulação da Daparte também conta com o incentivo da Lei Rouanet, mecanismo federal de fomento à cultura. O projeto da turnê foi elaborado pelos próprios integrantes há cerca de dois ou três anos e, após passar pelo processo de aprovação, recebeu o apoio de empresas que destinaram parte do imposto de renda devido para financiar a iniciativa. O mecanismo possibilitou a captação de recursos para viabilizar a realização dos shows em diferentes cidades.
A primeira passagem da Daparte por Porto Alegre, em 2025, deixou boas recordações para os integrantes e superou as expectativas do grupo. A recepção do público e a identificação com a tradição musical da capital gaúcha contribuíram para que a cidade voltasse a integrar o roteiro da turnê deste ano. A admiração pela cena rock porto-alegrense, especialmente pela trajetória da Cachorro Grande, também faz parte da relação construída pela banda com a cidade.
“Uma banda que a gente mais gosta de todas é a Cachorro Grande, que é aqui de Porto Alegre. Então, a gente estava desde sempre nessa expectativa de reencontrar a cidade bem do rock and roll. E a nossa expectativa não foi só sanada, como também superada no ano passado, tanto que, quando fomos fazer o planejamento da turnê deste ano, a primeira cidade que a gente conversou e concordou que tinha que voltar era Porto Alegre”, contou João Ferreira.
A conexão com o público também se reflete na percepção dos integrantes sobre o crescimento da banda na região Sul. Juliano Rosa observou que, mesmo após o lançamento do álbum Baterias de Emergência, que se aproxima de dois anos, o interesse pelas canções continua em ascensão. O músico citou a recente apresentação em Curitiba como exemplo desse movimento, destacando a maior presença de público em comparação ao ano anterior. Para ele, o cenário evidencia a expansão gradual do alcance da banda e a permanência das músicas no repertório dos ouvintes.
“Parece que, a cada ano que passa, tem mais fãs do disco, mais gente conhecendo as músicas, e isso é muito legal de ver. A gente não é uma coisa de momento, um ‘momentinho’ que veio aí, é uma coisa que está sempre crescendo.”
Além da resposta dos fãs, as vivências na estrada também nutrem o processo criativo da Daparte. As experiências acumuladas durante as viagens, o contato com diferentes cidades e a descoberta de novos lugares e pessoas aparecem como elementos que atravessam as composições do grupo. Juliano Rosa explicou que essas vivências acabam se transformando em referências para a banda, que busca nas próprias experiências cotidianas inspiração para escrever.
“A gente está sempre escrevendo e compondo sobre as coisas que impactam a gente nos momentos da vida. Então, a gente sai para viajar, andar pelo país, descobrir as cidades, os becos e as avenidas, as comidas também, as pessoas novas. Acho que tudo isso traz inspiração para a gente.”
A literatura também ocupa espaço entre as referências dos músicos. João Ferreira relembrou o contato com a obra Homens Imprudentemente Poéticos, do escritor português Valter Hugo Mãe, durante o período de composição do EP que deu origem à música Farol. O livro serviu como ponto de partida para a criação da canção, aproximando a produção musical da banda de outras formas de expressão artística.
Um tributo à música do Rio Grande do Sul também teve seu momento no palco. Para finalizar o show, a Daparte convidou Gabriel Boizinho, baterista da Cachorro Grande, para uma participação especial na canção Você Não Sabe o que Perdeu, originalmente do grupo gaúcho.

O encontro encerrou a noite no Bar Ocidente e concretizou uma conexão que já havia aparecido durante a entrevista: a admiração dos músicos mineiros pelo rock produzido no Rio Grande do Sul. A participação de Boizinho levou ao palco uma das referências musicais citadas pela banda e aproximou, naquela noite, duas gerações do rock brasileiro.
