A Tabacaria Central completa 57 anos vendendo jornal impresso na Rua Independência, no centro de São Leopoldo. Com a transformação do consumo digital, foi necessário recalcular a rota e hoje vende um pouco de tudo: jornal, revista, cigarro, bazar, bebida e sorvete, conta Cândido Forneck, 74 anos, dono da tabacaria desde 1976.
A Central virou exceção na região. A banca da Rua Santo Amaro, no centro de Esteio, está fechada após ser vendida em meados deste ano, assim como a de Sapucaia do Sul, antes localizada na Av. Sapucaia, no bairro Jardim. O movimento acompanha a queda do jornal em papel no país. Em 2025, os 13 jornais tradicionais analisados pelo Poder360 somaram 205.610 exemplares impressos por dia, 32,6% a menos que no ano anterior e pouco mais de um quarto do que circulava em 2019. A Zero Hora, um dos títulos vendidos na Central, perdeu 12,4% da circulação impressa no mesmo ano.
Não há levantamento de bancas fechadas no Rio Grande do Sul. Em São Paulo, onde há números, a capital tinha mais de 3,1 mil bancas em 2009 e pouco menos de 2,4 mil em 2020.

Nenhum produto sozinho sustenta
Para Cândido, a conta não fecha mais só com papel. Com os aluguéis caros da Independência, manter a loja apenas com jornal e revista “hoje é inviável”, diz. Nenhum produto, sozinho, sustenta o negócio. “Tu pega um percentual de cada produto e o todo é que dá”, explica.
A saída não é nova. Em 2011, jornaleiros de São Paulo já diziam ao Meio & Mensagem que jornal e revista representavam menos da metade do faturamento das bancas. O resto vinha de cigarro, bebida e outros produtos de conveniência.

Quem ainda compra jornal
O jornal mais vendido na Central é o Diário Gaúcho. Mais de 80 clientes têm o exemplar reservado todos os dias, com o nome anotado e pagamento semanal. A Zero Hora e o Correio do Povo vendem bem menos, mas têm leitores fiéis. Segundo Cândido, a tabacaria é o único ponto de São Leopoldo onde o Jornal do Comércio é distribuído e que também conta com um público fiel.
Algumas revistas têm hora marcada. A Veja chega aos sábados, e por volta das 10h os compradores já esperam. As que mais vendem hoje, no entanto, são as de palavras cruzadas, procuradas principalmente por quem tem mais de 40 anos. Segundo Cândido, muitos clientes compram por recomendação médica, como exercício para a memória.
O jornal não chega na porta. Como a loja só abre às 8h, os exemplares ficam num ponto 24 horas da rodoviária, e alguém da tabacaria busca todas as manhãs. Zero Hora, Diário Gaúcho e Jornal do Comércio chegam em consignação, ou seja, a tabacaria só paga o que vende. Os outros títulos deixaram de vender quantias avulsas e se faz necessária a assinatura, pagando antes.

O jornal de ontem
O exemplar avulso que sobra volta para a prateleira, mais barato. A Zero Hora, mais grossa, sai por R$ 1,50 a R$ 2, e os jornais mais simples, por R$ 1,20 a R$ 1,30. Ao lado, ficam os pacotes de 1 kg de jornal velho, comprados de fornecedores e vendidos para tutores a R$ 15 para forrar o espaço higiênico de seus cães.
A prática não é exclusiva da Central. Segundo reportagem do Já citada pelo colunista Guilherme Smee, nenhuma banca do centro de Porto Alegre vende menos de 15 fardos de 1 kg por semana para esse fim.
O jornal usado como forro adia o descarte, mas não entra na conta da reciclagem. Em 2025, o Brasil reciclou 60,4% do papel que consumiu, segundo estudo da Empapel e da Ibá. O levantamento não separa o papel de jornal.

A rua que mudou
Cândido começou como jornaleiro em 1965. De 1969 a 1975, trabalhou como empregado na tabacaria, e em 1º de janeiro de 1976 ela passou a ser dele. A loja ficava em outro ponto da Independência e está há 30 anos no endereço atual.
Nesse tempo, ele viu a rua perder o comércio antigo, como a gráfica Rotermund, a fábrica de armas Rossi e a Casa Mena. Segundo ele, da Independência daquela época restam só a tabacaria e a Ferragens Feldmann.
O público se renovou junto com a rua. “Hoje nós temos, às vezes, quatro gerações passando por nós”, diz. A tabacaria hoje é do filho dele, mas Cândido, aposentado, segue no balcão porque gosta.
O jeito de consumir muda o tempo todo, e nem todo negócio consegue mudar junto. A Central mudou sem deixar de ser banca. Hoje, os jornais do dia dividem espaço com livros, jogos, itens de bazar e exemplares antigos de revistas, e o balcão continua guardando, todas as manhãs, o jornal de quem tem o nome anotado ali.
Às 8h de amanhã, alguém da Central vai buscar os jornais na rodoviária. Pelo menos 80 já saem de lá com dono.
