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“Considero que reduzir o ritmo dos gastos públicos é importante para conter a inflação”, diz economista-chefe da Fiergs

Em sala de reuniões, Giovani é fotografado com publicações e uma homenagem institucional em destaque.

Mesmo com a desaceleração da inflação, o custo de vida continua pesando no bolso dos brasileiros. Ao mesmo tempo, os juros elevados dificultam o acesso ao crédito, prejudicam os investimentos das empresas e aumentam as dificuldades das famílias endividadas. Para entender esse cenário, conversamos com Giovanni Baggio, economista-chefe da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs). Na entrevista, ele explica por que os preços continuam altos, analisa os efeitos da taxa Selic sobre a indústria gaúcha e discute os desafios da economia brasileira.

Mesmo quando os indicadores apontam uma desaceleração da inflação, os brasileiros continuam sentindo o peso dos preços no orçamento. Por que a redução da inflação não significa, necessariamente, uma diminuição do custo de vida?

Resposta: O primeiro ponto é diferenciar inflação de nível de preços. A inflação é um processo de aumento generalizado dos preços. Podemos medi-la pelo IPCA, divulgado pelo IBGE, que é o índice oficial de inflação do país. Há também outros indicadores, como o INPC. Se a inflação foi de 10%, significa que, em média, os preços avançaram 10%. Se, no ano seguinte, ela caiu para 4%, isso não quer dizer que os preços diminuíram seis pontos percentuais. Significa que continuaram aumentando, mas em um ritmo menor. É difícil que o nível geral de preços diminua. Alguns produtos podem ficar mais baratos, mas, na maioria dos casos, os preços continuam subindo, apenas com uma inflação menor. Por isso, a sensação dos consumidores de que os preços permanecem altos corresponde ao que acontece na prática. Recentemente, o Brasil tem convivido com taxas de inflação de 4%, 5% e 6% ao ano. A percepção de aumento do custo de vida é real, embora o impacto varie de família para família. Cada uma destina uma parcela diferente de sua renda a transporte, alimentação, lazer e outros bens e serviços. Famílias de baixa renda, por exemplo, comprometem proporcionalmente uma parcela maior de seus rendimentos com alimentação e transporte do que famílias de renda elevada. Portanto, não basta olhar apenas para o índice de inflação: também é necessário observar o nível de preços.

Por que os preços dos produtos e serviços sobem? Quais fatores explicam esses aumentos?

Resposta: Há uma série de fatores, tanto do lado da oferta quanto do lado da demanda.

Pelo lado da oferta, podemos pensar no preço dos alimentos. Para produzir, um agricultor precisa comprar sementes, máquinas, fertilizantes e outros insumos. Quando algum desses itens fica mais caro, seu custo de produção aumenta. Conflitos internacionais, como a guerra entre Rússia e Ucrânia, podem afetar o fornecimento e o preço de fertilizantes. Problemas em rotas comerciais, como o Estreito de Ormuz, também podem encarecer importações e obrigar compradores a procurar fornecedores alternativos. Quando a oferta de determinado insumo fica restrita, os fornecedores ganham maior poder de negociação e podem cobrar mais. Outros custos, como os salários dos trabalhadores, também podem subir. O produtor tende a repassar parte desses aumentos ao preço de venda, e isso se transmite ao longo da cadeia produtiva. Outro exemplo de choque de oferta é uma enchente que destrói parte da produção agrícola. Com menos mercadorias disponíveis para atender a uma demanda semelhante, o produto fica mais escasso e tende a encarecer. É a lógica da oferta e da demanda. Pelo lado da demanda, os preços também podem subir quando a procura cresce mais rapidamente do que a capacidade de produção. Isso pode acontecer, por exemplo, quando o governo aumenta muito seus gastos e injeta recursos na economia, sem que a oferta consiga acompanhar esse movimento. Na minha avaliação, essa pressão tem ocorrido no Brasil. O governo gasta demais e coloca recursos em uma economia que não consegue ampliar sua produção na mesma velocidade. Por isso, considero que reduzir o ritmo dos gastos públicos é importante para conter a inflação.

Giovani Baggio em sala de reuniões, em ambiente institucional do Sistema Fiergs.

Como os gastos públicos são distribuídos e por que o orçamento brasileiro tem pouca margem para novos investimentos?

Resposta: Uma parcela muito grande dos gastos públicos está comprometida com despesas obrigatórias. Temos aposentadorias, pensões, benefícios sociais, Benefício de Prestação Continuada, seguro-desemprego e toda uma rede de proteção social. Há também as despesas com o funcionalismo público e a manutenção dos órgãos dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. O governo federal organiza suas atividades por meio de ministérios e programas. Há despesas com transportes, saúde, segurança, infraestrutura, medicamentos e serviços públicos. Na saúde, por exemplo, temos os gastos com o SUS. Na segurança, há a manutenção de órgãos como a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal. Eu diria que as aposentadorias e os benefícios previdenciários representam uma parcela especialmente relevante das despesas. Na minha estimativa, mais de 60% dos gastos a que estou me referindo estão relacionados a aposentadorias, pensões e benefícios. Também temos aproximadamente 90% a 92% do orçamento comprometido com despesas obrigatórias. São gastos que já têm uma destinação definida e que o governo não pode simplesmente deixar de realizar. Isso significa que a margem de escolha do governo é inferior a 10% do orçamento. Esses recursos sobre os quais ele pode decidir são chamados de despesas discricionárias. Parte importante deles financia investimentos em rodovias, ferrovias, infraestrutura, pesquisa, inovação e bolsas universitárias. Até despesas de funcionamento, como energia elétrica de universidades, podem depender desses recursos. O problema é que as despesas obrigatórias vêm crescendo mais rapidamente do que o espaço disponível no orçamento. Se essa trajetória não mudar, haverá cada vez menos recursos para investimentos e outras políticas públicas. É por isso que se discute tanto a necessidade de reformas.

Então cerca de 92% dos gastos já estão comprometidos?

Resposta: Isso. É um orçamento bastante engessado. O governo tem pouca liberdade para decidir como utilizar a maior parte dos recursos. A parcela sobre a qual pode escolher é chamada de discricionária, e é justamente essa margem que está ficando menor.

Como os juros elevados atuam sobre os preços e quais são os limites dessa estratégia diante de aumentos provocados por alimentos, energia e combustíveis?

Resposta: Antes de tudo, é importante destacar que a inflação afeta as pessoas de maneiras diferentes. Para mim, manter a inflação controlada é um dos principais programas sociais que existem. A inflação baixa beneficia especialmente as pessoas mais vulneráveis, que não dispõem dos mesmos instrumentos financeiros para proteger sua renda. As famílias mais pobres gastam grande parte de seus rendimentos com alimentação, transporte e habitação. Por isso, sofrem mais quando esses itens encarecem. O Banco Central utiliza a taxa Selic para controlar a inflação. Quando os preços sobem muito, seja por problemas de oferta ou por excesso de demanda, pode elevar os juros para desacelerar a atividade econômica. Uma economia que cresce em ritmo menor tende a pressionar menos a demanda e, consequentemente, os preços. Um dos principais canais é o crédito. Quando a Selic aumenta, os empréstimos para famílias e empresas ficam mais caros. A taxa básica, que no momento mencionado na entrevista está em 13,75%, serve de referência, mas os juros efetivamente cobrados nos empréstimos costumam ser superiores, pois incluem custos administrativos e outros componentes. Com o crédito mais caro, menos pessoas tomam empréstimos para consumir e menos empresas buscam financiamento para investir. Isso reduz a demanda e ajuda a conter a inflação. Outro canal é a decisão de investimento. Uma empresa pode avaliar se vale mais a pena comprar uma máquina ou aplicar seus recursos em títulos públicos. Se a taxa de juros estiver em 15%, por exemplo, o empresário pode preferir um investimento financeiro a um projeto produtivo cuja rentabilidade esperada seja inferior. Nesse caso, recursos que poderiam movimentar a produção são direcionados ao mercado financeiro, reduzindo a pressão imediata sobre a demanda.

Há ainda o canal cambial. Juros elevados podem atrair investidores estrangeiros interessados nos rendimentos oferecidos no Brasil. Para investir, eles trazem dólares e os convertem em reais. Se a oferta de dólares aumentar em relação à demanda, a cotação da moeda americana tende a cair. Com o dólar mais barato, produtos e insumos importados podem custar menos, ajudando a conter a inflação. Portanto, a Selic atua por diferentes mecanismos, especialmente pelo crédito, pelas decisões de investimento e pelo câmbio. O limite dessa estratégia aparece nos choques de oferta, que muitas vezes são imprevisíveis. Uma quebra de safra, um desastre climático ou uma paralisação do transporte podem reduzir a disponibilidade de produtos e elevar os preços. A greve dos caminhoneiros de 2018 é um exemplo: a interrupção do abastecimento afetou a oferta e pressionou os preços. Outro aspecto é a chamada inércia inflacionária. Uma inflação elevada em determinado ano influencia as expectativas e negociações do ano seguinte. Nas negociações salariais, por exemplo, os sindicatos consideram a inflação passada para definir os reajustes. Isso pode elevar custos e rendimentos nominais, contribuindo para novas pressões sobre os preços. Assim, uma inflação alta pode alimentar a inflação futura. Por isso, é importante que o Banco Central procure impedir essa propagação.

Quais setores da economia são mais beneficiados e quais são mais prejudicados pela manutenção da Selic em patamares elevados? Como essa diferença se manifesta entre o mercado financeiro e os setores produtivos?

Resposta: Essa diferença é muito importante. Em geral, o cenário mais saudável é aquele em que temos inflação baixa e juros também baixos. Começando pelos mais prejudicados, considero que o setor industrial é um dos que mais sofrem com os juros elevados, especialmente os segmentos que produzem bens duráveis e bens de capital, como veículos, máquinas e caminhões. O setor imobiliário também depende de financiamentos de longo prazo. No caso dos móveis, estamos falando de bens que podem ser classificados como semiduráveis.Esses produtos frequentemente exigem valores elevados, e consumidores e empresas nem sempre conseguem comprá-los à vista. Por isso, o mercado de crédito é fundamental para viabilizar essas aquisições. Quando os juros estão altos, financiar esses bens se torna mais caro e a decisão de compra ou investimento pode ser adiada.

Como a manutenção da taxa Selic em patamares elevados afeta a inflação e quais são as consequências para o mercado financeiro, os setores produtivos e, especialmente, a indústria gaúcha?

Resposta: A taxa Selic elevada ajuda a controlar a inflação porque encarece o crédito, reduzindo o consumo e os investimentos. Com menos demanda, a pressão sobre os preços diminui. Além disso, os juros altos podem atrair capital estrangeiro, valorizando o real e reduzindo o custo de produtos importados. Por outro lado, os juros elevados prejudicam os setores produtivos. Muitas empresas acabam adiando a compra de máquinas ou a ampliação de suas fábricas, enquanto aplicações financeiras se tornam mais atrativas. Os setores mais afetados são aqueles que dependem de financiamento, como a indústria automobilística, a construção civil e a fabricação de máquinas e equipamentos. No Rio Grande do Sul, esse impacto é ainda mais significativo devido à forte presença da indústria de bens de capital. A economia gaúcha sofre duplamente: as empresas enfrentam dificuldades para financiar seus próprios investimentos e, ao mesmo tempo, vendem menos porque seus clientes também estão investindo menos.

Uma pesquisa trimestral que realizamos com empresários industriais mostra essa realidade. No levantamento do terceiro trimestre, ainda não divulgado, a demanda interna insuficiente apareceu como o principal problema das indústrias, seguida pelas taxas de juros elevadas. O setor financeiro, por sua vez, possui mais alternativas para lidar com esse cenário, como investimentos em títulos públicos. Isso não significa que os bancos dependam de juros altos, já que taxas menores também favorecem a expansão do crédito. Portanto, embora os juros elevados sejam um instrumento importante para controlar a inflação, sua manutenção por períodos prolongados compromete o consumo, a modernização das empresas e o crescimento econômico, especialmente no Rio Grande do Sul.

Considerando o endividamento das famílias brasileiras, quais fatores contribuem para a dificuldade de pagamento das dívidas, como isso afeta o consumo e quais medidas poderiam melhorar esse cenário econômico?

O endividamento das famílias brasileiras está relacionado a uma combinação de fatores, como renda disponível, carga tributária, custo de vida e taxas de juros. O crédito é fundamental para a economia, pois permite que as pessoas adquiram bens que dificilmente conseguiriam pagar à vista. O problema surge quando os financiamentos ficam mais caros ou quando a renda não é suficiente para cumprir os compromissos assumidos. É importante diferenciar endividamento de inadimplência. Ter uma dívida não significa necessariamente estar inadimplente. Uma família pode financiar um imóvel e pagar todas as prestações normalmente. A dificuldade começa quando ela deixa de honrar esses pagamentos, inclusive de despesas básicas, como água e energia elétrica. Com os juros elevados e o aumento do custo de vida, uma parcela maior da renda familiar fica comprometida. Consequentemente, sobra menos dinheiro para o consumo. As pessoas adiam compras, reduzem gastos com lazer e viagens e deixam de consumir determinados produtos e serviços. Isso afeta diretamente o comércio, a indústria e a atividade econômica.

Outro problema estrutural é a baixa produtividade brasileira, relacionada a fatores como educação, infraestrutura e modernização tecnológica. Quando a produtividade cresce pouco, torna-se mais difícil sustentar aumentos reais de salários e melhorar o poder de compra da população. Na minha avaliação, uma das principais medidas para melhorar esse cenário seria o controle dos gastos públicos. Uma política fiscal mais equilibrada pode reduzir a percepção de risco dos investidores, contribuir para o controle da inflação e criar condições para juros menores. Isso facilitaria o pagamento das dívidas, estimularia o consumo e favoreceria os investimentos. Minha preocupação é que a continuidade dos desequilíbrios econômicos possa levar o Brasil a uma crise mais grave. Já enfrentamos uma recessão profunda em 2015 e 2016, quando o PIB acumulou uma retração próxima de 7%. Por isso, considero fundamental observar os sinais de endividamento, inadimplência e desaceleração econômica para evitar que o país volte a enfrentar dificuldades daquela magnitude.

Em ambiente profissional, Giovani Baggio destaca a importância do acompanhamento dos indicadores econômicos.

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