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“Se Flávio Bolsonaro ganhar, provavelmente não vai mais ter floresta”, afirma Eliane Brum

Jornalista analisou o atual cenário eleitoral brasileiro durante evento realizado no Instituto Goethe, em Porto Alegre

A voz calma, a serenidade e a leveza de espírito da jornalista Eliane Brum contrastam com a contundência de suas palavras ao projetar o futuro do Brasil após as eleições deste ano: “Se Flávio Bolsonaro ganhar, provavelmente não vai mais ter floresta em pouco tempo”.

A afirmação foi feita durante um evento alusivo aos 20 anos da Arquipélago Editorial, na última quinta-feira, 8 de outubro, no auditório do Instituto Goethe, em Porto Alegre. “Vai ter terra nua para pasto, para boi, para desmatamento, para monocultura de soja, cratera de mineração. Vai ter vegetação, mas não vai ter floresta. E isso é um risco para a humanidade”, complementou a jornalista gaúcha radicada em Altamira, no Pará, de onde dirige o portal Sumaúma.

Durante o evento, Eliane também falou sobre resistência, referindo-se a um ato simples que muitas vezes é deixado de lado: a escuta. “Quando a gente para de escutar, a extrema-direita ganha, porque é isso o que ela faz. Escutar também é um ato de resistência, porque estamos, sim, diante da ameaça do fascismo”, alertou.

A repórter que ninguém vê

O evento comemorativo ao aniversário da Arquipélago Editorial também celebrou as duas décadas da publicação do segundo livro de Eliane, “A Vida que Ninguém Vê”. A obra é um compilado de reportagens publicadas no jornal Zero Hora ao longo do ano de 1999 sobre figuras do cotidiano porto-alegrense que passam ao largo dos olhos mais desatentos.

“Acho que após todos esses caminhos eu continuo sendo ‘a repórter que ninguém vê’, pois eu me movo muito pela intuição para depender entender o que fiz”.

Eliane Brum

O bate-papo também contou com a participação do fundador e editor da Arquipélago, Tito Montenegro. A respeito do livro, Eliane afirmou ter “um amor muito grande pelas histórias e pelas pessoas presentes nas reportagens”, citando a matéria do “Gaúcho do Cavalo de Pau” como a mais marcante da publicação, que exalta a “grandeza das delicadezas”, conforme a autora.

Durante o evento, a jornalista comentou sobre o trabalho que vem desempenhando desde 2017 na Amazônia com o portal Sumaúma, que faz jornalismo “direto do centro do mundo” em um ambiente de alto risco – Altamira já foi considerada uma das cidades mais perigosas do país para se viver, segundo dados de 2023 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, e também a cidade que tem a maior área de desmatamento no território nacional, conforme o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). “Nós estamos em uma guerra com a natureza há 500 anos, então precisamos avaliar o risco de identificar uma pessoa em uma matéria. Jamais arriscamos a vida de alguém”, destacou, afirmando que segue um rígido protocolo de segurança.

De acordo com Eliane, o risco também se estende à lideranças locais, que todo final de ano precisam “sumir do mapa” em busca de proteção fora da cidade devido ao recesso do Poder Judiciário e de seus órgãos de segurança. Para ela, o perigo será maior dependendo do resultado das urnas em 25 de outubro: “Se o Flávio Bolsonaro ganhar, muita gente não vai poder voltar, não vai poder viver mais lá”.

Apesar do peso de alguns assuntos abordados pela jornalista nos noventa minutos de conversa, a mensagem deixada é de esperança: “A gente precisa imaginar o mundo em que a gente queira viver. Acho que é isso que a esquerda não conseguiu fazer ainda. Ela precisa mobilizar mais as pessoas para sonhar. Sonhar com aquilo que não existe para que possa um dia existir”.

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