Assim como muitos esportes, o automobilismo ainda é um ambiente predominantemente masculino. Independentemente da categoria, meninas e mulheres ainda lutam constantemente por espaço nas pistas. Marjane Guerra é uma piloto carioca de 16 anos que, em 2026, disputa a categoria F4 Novatos dos campeonatos Carioca e Estadual de Kart. A jovem iniciou no esporte em 2024, com incentivo do pai, um grande fã de Ayrton Senna. Essa influência e o contato com a Fórmula 1 nas redes sociais despertaram sua curiosidade até que, ao assistir ao Grande Prêmio do Japão, se apaixonou pelo automobilismo.
A partir daí, o interesse pelas corridas passou das telas para as pistas. Marjane começou no kart rental e, ainda no primeiro ano de competições, conquistou seu primeiro pódio em uma etapa do projeto RGK. No ano seguinte, ampliou sua participação em campeonatos amadores até, em 2026, alcançar suas primeiras experiências no kart profissional. Nesta entrevista, Marjane conta sobre sua trajetória, a evolução na modalidade e os desafios de ser uma jovem piloto.
Como o interesse pelo automobilismo se transformou na vontade de andar de kart por diversão e depois começar competir no esporte?
É um pouquinho difícil de explicar, porque eu acho que foi algo tão natural. Meu pai falou: “vamos andar de kart?”. Aí eu peguei o jeito, Acho que quando você pega um pouquinho desse jeito, você acaba até gostando mais, porque você viu que fez alguma coisa certa. Então ele [pai] começou a me levar mais ainda, me incentivar mais ainda, e aí eu comecei a ver mais resultado ainda.
Tanto no kart amador, quanto no kart profissional, você já começou a colher muitos frutos dentro da modalidade. Olhando para o início da sua trajetória, você imaginava que evoluiria e conquistaria isso tão rapidamente?
Eu acho que nunca você vai imaginar que você conseguiu evoluir desse jeito assim, rápido. E é uma coisa que, às vezes, eu tenho que me convencer até hoje de que, tipo, eu tô indo bem, eu tô fazendo certo. Porque eu acho que o fato de você ser mulher, num mundo tão masculinizado, você se cobra muito. Então, às vezes, quando vem uma conquista, você acaba olhando e falando: “é realmente uma conquista?” E aí é muito bom o fato de você perceber que você está evoluindo. É tranquilizador. Se eu pudesse voltar para trás e falar “calma, vai dar tudo certo”, seria muito bom.
Quais foram as principais mudanças que você percebeu em si mesma como piloto desde as primeiras experiências no kart?
Então, a principal diferença que eu acho que nem só eu que noto, mas eu acho que é o começo de todo mundo que acaba notando, é como você se torna mais rápido. Rápido que eu tô dizendo é questão de agir mesmo, de pensar. Quando eu falo isso, é não só pro kart, mas também pra vida. Eu acho que melhorou muito essa questão, essa disciplina que eu acabei tendo, mas, como piloto, eu acho que foi a minha agressividade. Eu era muito: “Ah, passa! Passa aqui! Não, tudo bem, pode bater em mim!”. Então acho que essa questão de agressividade mudou bastante e é algo que a gente precisa ter no kart.
Você ainda é adolescente, precisa ir para a escola e, como qualquer um, tem uma vida social. Quais são os desafios que você enfrenta dentro e fora das pistas para continuar competindo?
Dentro das pistas eu consigo dizer realmente a parte física, porque como eu sou mulher, acaba que, biologicamente, a gente é mais fraca. Não tem jeito, acontece questão de composição corporal. E o kart exige muito do seu corpo. É muito complicado porque é muita força G, é muito peso que você leva e realmente é bem pesado. Agora, fora da pista, eu acho que seria realmente o dividir tempo com a escola e um pouquinho da cobrança que acaba puxando um pouquinho no esporte. Você se cobra, e, às vezes, você pode pesar um pouquinho a mão. Mas, no esporte, você sempre tem alguma coisa a melhorar. Você nunca vai ser perfeito. Então eu acho que acaba atrasando um pouco isso e também a questão de conciliar um pouco a escola. Treinos livres do Carioca acontecem na sexta-feira, então sempre tem que faltar aula para conseguir.
Como é competir em um ambiente predominantemente masculino? Você já viveu situações em que se sentiu menosprezada por ser uma menina?
Ao mesmo tempo que é um pouquinho solitário, eu diria, pelo fato de você olhar e você ver: “Caramba, não tem ninguém”. É realmente meio solitário, você tá ali, não tem uma menina aqui para conversar. Na última etapa, teve um garoto que eu fui ultrapassar e aí a gente acabou dividindo, ele “explodiu” pra grama. Porque não é só o fato de que ele perdeu a posição. Eu acho que também pelo fato de saber que perdeu a posição para uma garota.

O que você acredita que ainda falta para que mais meninas tenham mais oportunidades de entrar no kart e continuar no esporte?
É muito difícil a gente encontrar qualquer referência feminina no kart amador. Todas as referências que eu contei já têm carreiras estabelecidas no automobilismo. Além dessa questão de você ter uma referência, é realmente a questão financeira, porque ela é bem complicada. E eu não diria só para mulheres, mas também para qualquer um, porque o kart é muito caro. Às vezes, não pode nem culpar tanto o patrocinador porque, como tem tão pouca menina no esporte. E, às vezes, muitas dessas meninas não têm visibilidade porque não conseguem competir no kart profissional, porque a quantidade é muito mínima.
Que tipo de referência você deseja ser para outras meninas que também querem competir no kart?
Eu acho que é aquele tipo de referência que mostra que elas conseguem sair de um kart amador, conseguem sair do shopping, conseguem sair de pistas pequenas para conseguir competir, para conseguir um patrocínio, porque eu consegui um patrocínio. Então, se eu consegui fazer, se eu consegui sair do kart amador, se eu consegui, com muita disciplina, sair de onde normalmente o pessoal acaba estagnado, e vir para o kart profissional, não só ficar nos treinos, mas conseguir competir, conseguir ter dinheiro, conseguir falar com um patrocinador, é incrível mostrar isso para outras pessoas e falar que elas conseguem também.
Quando você olha para o futuro, o que imagina para a sua trajetória no kart e no automobilismo?
Eu realmente tenho muita noção de que provavelmente não vou ter um futuro grande no kart por questão financeira. Mas, com automobilismo, com kart, eu sei que vou levar um carinho enorme. Além do fato de eu saber que, se eu quero alguma coisa, eu consigo ela. Não é à toa que eu tenho tantos troféus. Com automobilismo, eu quero levar para frente o máximo que eu conseguir, mesmo que eu acabe tendo que sair um pouco das competições. O kart, eu quero manter ele na minha vida o máximo que eu conseguir. E levar para os meus filhos também. Apresentar esse mundo, apresentar essas outras perspectivas sobre o kart, sobre o mundo do automobilismo. Apresentar essa paixão que a gente tem sobre o automobilismo.

*Fotos: Leo Almeida (@fotoleoalmeida.esporte)
