Servidora pública, 42 anos, natural de Novo Hamburgo, Andressa Scherer descobriu nas caminhadas e trilhas em grupo muito mais do que um simples exercício físico. Há cerca de 15 anos, impulsionada por iniciativas de municípios do interior do Rio Grande do Sul, como Morro Reuter, Picada Café e Linha Nova, ela deu os primeiros passos em um hobby que se tornaria uma verdadeira paixão.
Em um cotidiano cada vez mais urbano e conectado, Andressa encontra nas estradas de chão e morros uma oportunidade de “desconectar para reconectar”. Entre perrengues, eventos festivos no interior, pernoites em ginásios e a vivência da cultura local, ela compartilha como o contato com o verde moldou sua saúde física, mental e sua percepção sobre limites e envelhecimento.
Na entrevista a seguir, realizada na casa de Andressa, a trilheira relata suas memórias, conselhos para iniciantes e o sonho de encarar uma das rotas mais desafiadoras da América do Sul.
Como as trilhas entraram na sua vida?
Já faz mais de 15 anos que eu faço caminhadas em grupo, mais ou menos 15 anos. Foi através de amigos. Essa atividade de trilha não era muito conhecida; começou com prefeituras, nos aniversários de cada cidade no interior. As prefeituras organizam grupos de caminhada. Hoje já está mais difundido, existem muitas opções nas redes sociais. Existe a iniciativa privada também, empresas que organizam esse tipo de evento, e segue também essa tradição inicial das prefeituras até hoje. Linha Nova é bem conhecida; tem cervejarias que organizam também lá na cidade (Linha Nova é o berço das cervejarias aqui no Rio Grande do Sul). Picada Café também, Morro Reuter… Então começou assim, nesses municípios pequenos do interior.
E você sempre teve essa relação com a natureza ou foi algo que descobriu depois?
Não, eu sempre gostei. Desde criança, meus avós moravam numa chácara, eu passava as férias lá, sempre gostei de animais, de verde, né? E claro que a caminhada te deixa em contato com essa paisagem que também remonta um pouco à infância, porque a gente vai crescendo, fica mais urbano obrigatoriamente pelo trabalho, enfim. É uma boa essa fuga, e a caminhada proporciona entre outras coisas, isso.
Você lembra, por acaso, qual foi a primeira trilha que fez?
Não lembro exatamente, mas eu acredito que tenha sido uma caminhada vespertina, que começa no entardecer e entra à noite, e precisamos levar lanternas. Foi em Morro Reuter, no aniversário da cidade, se eu não me engano. E foi uma caminhada bem forte, porque é uma região com bastante subidas, mas é legal porque a prefeitura organiza e tu não paga a inscrição, mas tu tem geralmente opções de janta, café da manhã ou almoço (eu lembro que tinha uma galinhada). Geralmente é no salão paroquial que é feita essa organização. Acho que até já chuviscou/choveu naquele dia, mas foi tão legal que é uma “cachaça”, né? Tu faz e tu quer sempre mais. Quando tu tá fazendo, tu pensa: “Meu Deus, por que eu tive essa ideia?”, [risos], quando tu não tem preparo e começa a doer as pernas, tu cansa, tem a parte cardiorrespiratória que exige muito… Mas aí, no outro dia, tu já tá procurando outra pra fazer.
E o que você mais gostou, que na primeira vez disse: “Meu Deus, não posso ficar sem isso”?
Sim, o contato com a natureza é puro. As amizades que tu faz… tem toda a parte cultural porque tu acaba conhecendo o município e passa por estradas de chão batido, lugares que tu jamais passaria se não fosse pelas rotas criadas pelos organizadores. E o exercício também, toda a parte de liberação de endorfina que te traz, isso faz com que tu queira fazer sempre.
E qual das trilhas até hoje foi a tua preferida?
É difícil falar, porque toda caminhada te mostra uma perspectiva diferente, né? E às vezes tu faz um roteiro parecido ou parte dele (porque eu já caminhei várias vezes em alguns lugares, mas por outras rotas), mas sempre tu vai ver com um olhar diferente. Mas assim, caminhadas inesquecíveis: as caminhadas no Natal, quando tu vê no interior toda aquela decoração nas casas, é bonito. Dois Irmãos organiza caminhadas de Natal bem legais. Caminhadas que eu fiz que duravam dois dias, aí tu pernoitava num ginásio, tu leva colchão de ar… isso é muito legal porque tu caminha o dia inteiro, tá morto, mas no outro dia tu quer seguir. E toda a convivência com o grupo, com pessoas diferentes de tudo que é idade — tem pessoas com mais de 70 anos que caminham melhor que eu, que têm um ótimo preparo. E no interior, às vezes vem uma bandinha, fornecem comida típica, chopp… É todo um entrosamento cultural que é gratificante, né?
Você já passou algum perrengue?
Já, já passei um perrengue porque eu tinha trocado a palmilha de um tênis — tinha comprado uma palmilha de gel, e a gente não deve fazer isso! Trocar e já caminhar, tu tem que fazer uma adaptação. Então ficou um pouco mais alto o tênis e encheu meu pé de bolhas. O bom é que tinha um colega que tinha um Band-Aid específico pra bolha e isso foi o que salvou. Graças a Deus nunca me machuquei, mas às vezes tem gente que cai… É importante levar esses itens. Geralmente as caminhadas bem organizadas têm suporte. Coisas que acontecem: às vezes pegar chuva ou um dia muito quente; aí às vezes tem suporte com água pra reabastecer a garrafinha. Mas já aconteceu uma vez do suporte não conseguir chegar porque estragou o carro e a gente ficou um pouco sem água, [risos], mas tinha um barzinho no meio do nada lá, com uns senhores jogando carta, e a gente se abasteceu ali. Imprevistos que acontecem, né?
Tem alguma trilha que você sonha em fazer?
Sim. Tem uma trilha que eu namoro há muitos anos, mas que precisa estar bem preparada: é no Peru, que é a de Choquequirao. É uma trilha de nível bem difícil, porque são dois dias pra chegar, aí tu caminha nas ruínas e dois dias pra voltar. É num cânion bem profundo, acho que é o maior cânion da América do Sul. É uma cidade que é para ser a “co-irmã” de Machu Picchu. Não chega carro lá, é só caminhando mesmo, e são povoados que estão bem remotos, sem muito contato. Eu gostaria de fazer pela vivência cultural e natural.
Quais foram os ganhos emocionais e físicos que você teve depois de começar as trilhas?
Emocionalmente, eu acho que o entrosamento é sempre importante. A gente tá cada vez mais recluso em casa, cada vez mais urbano, mais conectado, então tu desconectar, caminhar por lugares onde não pega celular e o próprio contato com a natureza é transformador, acalma. E fisicamente, ver pessoas muito mais velhas caminhando melhor que eu às vezes é um estímulo, de que envelhecer de uma forma saudável é possível, e tu querer chegar nessa idade e continuar fazendo isso que te faz bem. E também testar os teus limites: “Ah, hoje eu caminhei tantos quilômetros, na próxima vou fazer uma um pouquinho maior”. Tu te testar e sentir que tu é capaz de chegar dentro do teu limite é um estímulo.
E depois de todos esses desafios, o que você aprendeu sobre si mesma que talvez não sabia antes?
Acredito que a capacidade de conseguir se desafiar, né? E é um desafio positivo, factível, tu consegue (até porque tem carro de apoio na maioria das caminhadas que são organizadas). Tu saber que cumpriu aquele roteiro, aquele percurso… Isso é um aprendizado de que a gente é capaz.
Você tem algum recado para quem ler isso e se interessar por trilhas?
Acho que todo mundo tem que testar. Tem que ir alguma vez para passar pela experiência. Tem pessoas que não gostam de poeira, não gostam de chão batido, não gostam de mosquito… talvez não gostem, mas só passando por isso é que tu vai sentir o quanto aquilo mexe contigo ou não. Então é uma experiência que vale muito a pena. É isso.
