
No último dia 29 de agosto, o Hum Espaço Multiuso, no Centro Histórico de Porto Alegre, tornou-se o epicentro de uma catarse urbana. A estreia na capital gaúcha do show “Eterno Menino Levado”, protagonizado pelos artistas cariocas Luiz Barata e Nitcho, com o violino de Gustavo Neves, provou que o hip hop não tem fronteiras regionais. No entanto, para que os beats chegassem ao Sul, foi necessária uma engrenagem fundamental que muitas vezes passa despercebida pelo público: a força da produção local.
A lotação do espaço foi um movimento calculado. Foram 170 ingressos vendidos, um número que, segundo a organização, atendeu exatamente ao propósito da noite.
— As expectativas foram cumpridas. A casa tinha capacidade para 250 pessoas, mas como o show se concentrou um dos andares, com mais gente ficaria desconfortável — explica Pedro Peixoto Christoff, integrante da produtora gaúcha Outra Hora Rec, responsável por viabilizar o evento.
A conexão entre o Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul começou de forma orgânica. A produtora local já acompanhava o som do trio carioca. O estopim para o convite veio através de Clarissa Fortes, colaboradora do portal da produtora, que iniciou o contato pela internet após perceber a sinergia dos artistas com o público do Sul. A partir daí, a formalização foi apenas o passo burocrático para uma parceria que se provou certeira.
As músicas que nos fazem balançar o ‘pescocin‘
Quem esteve no Hum Multiuso não consumiu apenas música. A noite estava imersa no universo da marca “Menino Levado” e do selo MPBP (Músicas Para Balançar o Pescocin). O que começou como um set de músicas transformou-se em um verdadeiro lifestyle e plataforma de impulsionamento mútuo.
Nas palavras do DJ e produtor Nitcho, a força do projeto está na coletividade.
— O MPBP, na verdade, é um projeto do DJ Nico Puto da Glock, que começou a divulgar as músicas no YouTube também como uma forma de fortalecer o trampo dos amigos da cena do Rio de Janeiro — relata.
Hoje, o projeto se expandiu para formatos como o selo Torcicolo e o Pesco Session (apresentações ao vivo em vídeo).
— A gente foi criando esse ecossistema de pessoas que estão trabalhando na mesma coisa e querendo o mesmo corre. A principal atmosfera do MPBP é essa coisa descontraída de ajudar os amigos — completa Nitcho.

Foto: @tainastef / Arquivo Pessoal
O desafio geográfico e o acolhimento gaúcho
Trazer um selo em ascensão do Sudeste para o extremo Sul do Brasil esbarra em desafios estruturais. Pedro Christoff , da OutraHoraRec, destaca que Porto Alegre é geograficamente afastada e, nos últimos tempos, perdeu um pouco da sua força para atrair e movimentar músicos independentes de outros estados. Por isso, a recepção calorosa torna-se a principal moeda de troca.
— Para nós é fundamental fazer uma boa recepção. Acreditamos que a arte é um trabalho coletivo, e o bem-estar dos envolvidos é fundamental para um bom show. Receber o pessoal, mostrar a cidade e apresentar artistas daqui é uma forma de cativar os artistas a voltarem — ressalta o produtor.
E a tática funcionou. O temido “choque cultural” deu lugar ao sentimento de familiaridade. Longe das rimas e dos palcos, os artistas experimentaram a hospitalidade gaúcha da forma mais tradicional possível. O rapper Luiz Barata não esconde a satisfação com os bastidores da viagem:
— Fomos recebidos como membros da família. O Arthur e a Valentina fizeram um churrasco pra gente e uma torta de amora absurda — relembra.
Para o violinista Gustavo Neves, o sotaque e o frio foram meros detalhes diante da recepção:
— Parecia que eu estava com a minha galera, só que falando diferente da gente. Fiquei apaixonado. E o xis… meu Deus do céu, vou voltar só para comer o xis — brincou o músico.
O que vem por aí na cena local
Com o saldo positivo, a Outra Hora Rec projeta novos eventos para a cidade. Uma futura colaboração com o trio carioca é tida como certa, embora ainda sem data definida.
A agenda da produtora, contudo, segue ativa: o alagoano Itallo e a maranhense Tori se apresentaram em 30 de setembro, e a banda argentina de indie rock El Mató a un Policía Motorizado toca em 10 de outubro. Para o público do rap, Christoff antecipa a negociação com um artista nacional em rápido crescimento, com show previsto para o final do ano.
