Criatividade, olhar afiado e críticas sagazes. É assim que o humorista Saulo Pinheiro construiu sua presença nas redes. No Instagram @pinheiro_saulo, reúne mais de 700 mil seguidores. Há cerca de três anos produzindo sozinho o próprio material, o comediante se consolidou como um dos principais influenciadores em ascensão da atualidade, com um alvo declarado: a extrema direita e o bolsonarismo.
Na mesma pegada dos vídeos, Saulo está em turnê com seu espetáculo de comédia e stand-up, mas é fora do palco que a atuação dele levanta uma questão importante: em um cenário em que muita gente se informa por vídeos curtos em vez de ler o jornal, a linha entre piada e informação ficou mais tênue, e o humorista acaba sendo visto por parte do público como fonte de notícia.
Ao longo da conversa, Saulo Pinheiro deixa claro que sua régua é a do humor: o objetivo primeiro é fazer rir, com deboche direcionado à extrema direita, sem esconder o lado em que se posiciona. Ao mesmo tempo, reconhece que o alcance de seus vídeos traz um peso extra e defende que a checagem de fatos, feita por ele antes de gravar, também seja feita pelo público depois de assistir. Para o comediante, a piada não substitui o jornalismo, e o recado final é direto: quem o acompanha deve confrontar o que ele diz com os veículos de informação, assim como deve fazer com qualquer outro influenciador.
Na entrevista a seguir, ele conta como pesquisa antes de escrever, o que faz quando erra, como lida com quem se ofende com suas piadas e que conselho dá a quem consome política pelas redes sociais.
Hoje muita gente se informa por vídeos curtos nas redes em vez de ler o jornal. Como você equilibra a piada com a responsabilidade de acabar virando, na prática, uma fonte de notícia para o público?
Então, eu sempre pesquiso as coisas que eu vou falar. E aí, como eu só tenho eu, minha “euquipe”’, né? Acho que nesses três anos, eu devo ter errado umas duas vezes. E aí quando alguém aponta algum erro meu, algum erro de informação mesmo no comentário do vídeo, eu simplesmente apago o vídeo, como na vez em que confundi o voto do Nikolas Ferreira sobre uma pauta, eu simplesmente apaguei o vídeo, algo que o próprio Nikolas nunca faria. Então eu equilibro a piada com a responsabilidade de acabar virando na prática uma fonte de notícia com o público pesquisando. Pesquiso primeiro, escrevo a piada depois. Mas isso aconteceu nesses três anos duas ou três vezes. Então, estou quase na mesma margem do Jornal Nacional.
Qual é o maior desafio de resumir um tema político complexo em um vídeo de 60 segundos sem desinformar?
O tempo em si não é o obstáculo, pois é possível informar em vídeos de 30, 40 ou 50 segundos. O risco de desinformar em 60 segundos é o mesmo que em um vídeo de 3 minutos. O segredo para não desinformar é pesquisar nas fontes certas. O verdadeiro desafio é ir atrás das informações e fazer um fact-checking cruzando pelo menos três grandes jornais para ver se estão falando a mesma coisa.
Como é a sua pesquisa antes de criar uma sátira? Como você faz para checar os fatos?
Eu vou nos jornais grandes que eu sigo já, né? Então eu checo por aí. E depois eu pesquiso na internet se realmente foi aquilo, porque até a Folha erra. Eu vou nos jornais grandes, tanto de direita quanto de esquerda, né, e tento ver vídeos também, da própria GloboNews, Folha, Estadão, Correio Brasiliense. Vou nos jornais de circulação mesmo para checar. Começo uma boa pesquisa antes de gravar.
Como você lida com seguidores que interpretam a piada como um ataque pessoal às escolhas políticas deles?
Espero que eles interpretem assim mesmo, porque é para doer. Então, que achem que é pessoal mesmo, porque eu lido com bolsonarista e estou pouco me lascando quando o alvo é bolsonarista porque eles são antivacina, eles matam as pessoas. Espero que achem que é um ataque pessoal mesmo. A diferença pra gente para eles é que o discurso deles mata. O nosso no mínimo é uma piada que eles ficaram chateados.
Se você pudesse dar um conselho para quem consome política exclusivamente pelas redes sociais, qual seria?
Chequem os fatos, pelo amor de Deus. Vídeo do Instagram não é fonte. O vídeo do Saulo não é fonte, vá atrás do que o Saulo tá falando, entendeu? Porque eu, por mim mesmo, é isso, não minto, vou atrás de fontes, mas isso sou eu falando. Qualquer um pode falar isso. O Nikolas fala isso. Então, vá atrás. Eu não sou um veículo jornalístico, né? Eu sou um comediante que faz piadas, mas tenho a minha credibilidade, pois eu checo antes. Porém, vão atrás dos veículos de informação mesmo, jornalísticos para bater o que o Saulo está falando, ou o que qualquer outro está falando por aí, porque o meu trabalho é de comédia, é pra pessoa rir, é o deboche, né, contra a extrema direita, contra o bolsonarismo. Então, primeiro é rir. É claro que eu checo antes, porém, chequem sempre qualquer informação dita por mim ou por outros influenciadores.
