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Quanto custa uma eleição?

Dá para pesar o que uma campanha deixa na rua. O que ela consome no digital, ninguém é obrigado a informar

Na segunda-feira seguinte ao primeiro turno de 2024, a prefeitura de São Paulo recolheu 142 toneladas de lixo das ruas da cidade. Dois anos antes, no primeiro turno de 2022, tinham sido 57,1 toneladas. Os números são da prefeitura, divulgados pelo G1, e valem para uma cidade e um único dia de votação.

São quase a única parte dessa conta que alguém colocou numa balança.

O que é fácil contar

Dados parciais do TSE, com corte em 3 de outubro de 2024, três dias antes do primeiro turno das eleições municipais, registravam R$ 697 milhões declarados em panfletos e R$ 225 milhões em adesivos. Somados, R$ 922 milhões em material impresso, um número que ainda cresceria até o fechamento das contas. Na mesma base e no mesmo corte, o impulsionamento de conteúdo digital aparecia com R$ 143 milhões.

O papel é fácil de rastrear porque se comporta como algo palpável. Ele é impresso em quantidade, pesa, é transportado, é distribuído e termina em algum lugar, geralmente no chão, onde alguém precisa varrer. Cada uma dessas etapas deixa um vestígio que pode ser contado por acidente: a lei obriga o material impresso a trazer dados de identificação, a prefeitura pesa o que recolheu, a gráfica emite nota. Nada disso foi pensado como contabilidade ambiental. É o que dá para juntar.

Nem toda campanha distribui material do mesmo jeito, e algumas já organizam essa decisão por dado. Marina Bernardes, vereadora e candidata a deputada estadual pelo PT, respondeu à reportagem que a campanha dela não usa windbanner nem distribui material ao acaso, e resumiu o critério: “Mandamos apenas para quem se cadastra em nossa plataforma”. É a descrição que a própria campanha faz de si, e a reportagem não teve como verificá-la de forma independente. O que ela mostra, para efeito desta discussão, é menos uma boa prática do que um mecanismo: quem recebe o que passou a ser definido por um cadastro, ou seja, por uma informação que fica com a campanha e com a plataforma, não no registro público.

Windbanners eleitorais pela cidade. Luísa Garcia/BETA REDAÇÃO

O que o número do digital não diz

Com os R$ 143 milhões de impulsionamento acontece o contrário. O valor informa quanto uma campanha pagou a uma plataforma. E para por aí.

A prestação de contas eleitoral registra a transação: quem contratou, de quem, por quanto. Não registra o que foi entregue. Não há campo para quantas impressões o anúncio gerou, por quanto tempo ficou no ar, em que formato, em que região, quantas vezes o mesmo eleitor foi atingido. Esses dados existem e são precisos, só que ficam no painel da plataforma, que os entrega ao anunciante e não é obrigada a divulgá-los de forma padronizada.

A dificuldade começa antes disso. O TSE não mantém uma classificação oficial que separe gasto físico de gasto digital. O manual de prestação de contas de campanha de 2024 lista despesas com material impresso, criação de páginas na internet e impulsionamento de conteúdo e, ao lado delas, uma categoria chamada propaganda e publicidade direta ou indireta, por qualquer meio de divulgação, que não distingue uma coisa da outra. Responder “quanto foi para o digital nesta eleição” exige somar categorias na mão, candidato por candidato, no DivulgaCandContas, que permite consulta individual mas não entrega um relatório agregado por tipo de mídia. Os totais que circulam na imprensa são aproximações construídas por quem fez a conta, não um dado que o sistema devolve pronto.

Bandeiraço eleitoral pela cidade. Luísa Garcia/BETA REDAÇÃO

Por que isso trava a conta ambiental

Sem saber o volume entregue, não se estima energia. Sem energia, não se estima emissão. A cadeia inteira de cálculo depende de um primeiro número que ninguém é obrigado a publicar, e é por isso que não existe, até hoje, estimativa do impacto de uma campanha eleitoral digital brasileira.

O que existe fica em dois extremos, e nenhum dos dois serve. De um lado, o dado global: no relatório Energy and AI, a Agência Internacional de Energia registra que os data centers consumiram cerca de 415 terawatts-hora em 2024, perto de 1,5% da eletricidade mundial, e projeta que esse consumo mais que dobre até 2030, para algo em torno de 945 terawatts-hora, puxado pela inteligência artificial. É um número grande demais para dizer qualquer coisa sobre uma campanha a vereador. Do outro lado, as estimativas do setor de publicidade para uma única exibição de anúncio, que variam de algumas dezenas a mais de mil gramas de CO2 equivalente por mil impressões, conforme o formato, o país e o método. Vinte vezes de diferença não é margem de erro. É ausência de um método comum.

Todos esses números vêm de fora do Brasil e quase todos foram produzidos pelas próprias empresas de tecnologia e publicidade. Aplicá-los a uma eleição brasileira seria fingir uma precisão que eles não têm.

Campanha eleitoral física e digital. Luísa Garcia/BETA REDAÇÃO

A conta que sobra

Enquanto isso, o que é físico segue sendo medido por quem varre. São Paulo pesou 142 toneladas em 2024, e é um caso isolado: não existe levantamento nacional de resíduos eleitorais, e a cidade divulgou o peso, não o custo da operação. Esta reportagem não localizou, em fonte pública, quanto um município brasileiro gasta para limpar a cidade depois de um turno de uma eleição.

A reportagem procurou sete campanhas de diferentes partidos para perguntar como decidem a divisão entre material físico e digital. Apenas uma respondeu – já citada nesta reportagem.

Quanto custa uma eleição, então. Em reais, existe uma resposta parcial e pública no site do TSE. Em quilos, energia ou carbono, não existe resposta nenhuma, e a razão não é técnica. O sistema eleitoral brasileiro foi construído para vigiar dinheiro, e faz isso bem. Nunca foi construído para vigiar matéria, e no digital nem o dinheiro ele organiza de um jeito que permita a pergunta.

Sobram 142 toneladas, uma cidade, um turno, uma segunda-feira. É o que se consegue pesar.

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