
Durante a infância até a fase adulta, nos acostumamos a passear pela cidade a ouvir a clássica frase “lembro quando tudo aqui era mato”. De fato, houve uma época em que tudo era mato. Naquele contexto, a compra de imóveis acabava se tornando mais fácil, e era ali que muitas famílias tornavam o sonho da casa própria uma realidade. Hoje em dia esse sonho acaba se tornando cada vez mais distante, algo reforçado pelo aumento do valor de itens básicos para viver.
As cestas básicas, somente neste ano, subiram mais de 13%, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). A solução, por muitas vezes, é pagar aluguel. E aí que surgem os condomínios como uma forma mais em conta, com maior segurança e com um grupo menor de pessoas para conviver. Além disso, o conforto pode se tornar um dos principais aliados para a busca, pois grande parte deles possuem, ao menos, alguma forma de lazer, seja ela uma pracinha para conversar enquanto as crianças brincam. Mas existem condomínios que estão levando o conforto e a praticidade a um nível em que nem se precisa mais sair dos seus limites.
Esse é o caso do Grand Park Eucaliptos, localizado no bairro Menino Deus, em Porto Alegre, no antigo Estádio dos Eucaliptos, primeira residência do Sport Club Internacional. Desde 2016 em funcionamento, o local tem como objetivo ser mais do que um espaço confortável; ele busca ser um complexo residencial multifuncional: além das boas moradias, conta com serviços de esporte, lazer, alimentação e outros mais. O morador comum deste complexo pode começar seu dia indo à academia, almoçando em um restaurante e, antes mesmo de voltar para seu apartamento, dar uma passadinha no salão de beleza para cortar o cabelo. Tudo isso sem sair dos limites dos Eucaliptos. O objetivo é concentrar em um só local todas as atividades que poderiam levar ao estresse do deslocamento.










São 7 torres de 12 andares cada, somando 308 unidades ocupadas e cerca de 1,5 mil moradores. Os apartamentos têm entre 99m² e 140m². São 595 vagas de garagem e mais vagas de visitantes, 21 elevadores, cerca de 160 câmeras de segurança e três portarias 24 horas com reconhecimento facial. Cada apartamento tem direito a instalar seu próprio carregador de carro elétrico na vaga de garagem, mediante laudo técnico de engenheiro ou arquiteto (ART/RRT), com o consumo ligado diretamente ao medidor individual da unidade. O condomínio já contabiliza entre 50 e 74 vagas adaptadas para veículos elétricos.

Amarildo Pedro Cenci, professor e morador do residencial há 10 anos, conta que a experiência é excelente, com uma localização considerada por ele como superacessível, próximo de tudo que compõe sua rotina.
— O que me fez morar aqui é a proposta do condomínio de criar alternativas internas para que a gente tenha mais segurança, serviços, espaços de convivência — afirma Amarildo.
A concentração desses serviços, porém, não muda somente a rotina dos moradores; ela acaba por trazer uma dinâmica totalmente diferente dentro de seus muros. O local é como uma minicidade, onde tudo tem organização, controle e principalmente fluxo de pessoas. Segundo Elmário Dutra, síndico contratado pelo condomínio, mais de 50 trabalhadores fixos passam pelo espaço diariamente, desde pessoas que cuidam da limpeza quanto pessoas que cuidam das novas reformas. Quanto a isso, o síndico informa que diversas obras são feitas todos os anos, como por exemplo a revitalização da fachada da propriedade, estimada em mais de R$ 4 milhões. Somente neste ano, a equipe conta com 26 projetos em produção, alguns de longo prazo e outros com curto prazo.
Elmário se tornou síndico em 2021, e diz que o alicerce de sua atuação é a transparência.
— Quando cheguei aqui, o condomínio estava sucateado, largado. Fiz um relatório sozinho de 13 páginas sobre tudo que precisava ser mudado e apliquei em 10 meses — diz Elmário.
O começo foi muito difícil, principalmente pelo fato de ele ser um exército de um homem só. Agora, com uma equipe que conta com mais duas pessoas, um gestor administrativo e um gestor operacional, a organização se torna lema da instituição. A equipe possui um sistema onde podem gerir os chamados dos moradores e ver quais pontos estão com intervenção, além de um gestor de demandas, para deixar clara a função de cada um.
— Por ano, o empreendimento gira em torno de R$ 8 milhões, então eu preciso ter controle total do que entra, do que está pra chegar e como organizar as contas pra quando aquilo estiver aqui — explica o síndico.
Mas essa movimentação financeira não fica restrita somente às contas prestadas por ele e sua equipe, ela também aparece no dia a dia de quem trabalha dentro do próprio condomínio. Com restaurantes, mercado aberto 24 horas com adega integrada e salão de beleza, o Eucaliptos cria uma economia própria que não depende dos comércios em sua volta, mesmo que o ponto seja muito bem localizado, próximo de uma farmácia, açougue, hospital e até da própria orla do Guaíba. A comodidade presente dentro dos seus próprios limites pode fazer os moradores nem terem necessidade de sair dali. E se engana quem acha que os preços acabam por ficar fora da realidade. O Bella Beauty, salão de beleza localizado em uma das torres, possui preços praticamente iguais aos encontrados fora do residencial, o que agrega fidelidade e praticidade para quem é morador.
O maior problema encontrado dentro do Eucaliptos hoje é o seu preço. Um apartamento sem móveis no local custa aproximadamente R$ 1,5 milhão, preço totalmente fora da realidade da maior parte da população de um estado em que a média salarial gira em torno de pouco mais de dois salários mínimos, segundo relatório do Cadastro Central de Empresas (CEMPRE). Os custos condominiais, juntamente com água, luz e gás, estão na média de R$ 2 mil por mês. Porém, medidas para reduzir os custos também são procuradas, como o uso de energia renovável através da empresa Simplifica Energia. Com a parceria fechada desde abril, os moradores conseguiram economizar cerca de 15% de energia, segundo o síndico. A baixa inadimplência do local permite manter o fluxo de caixa ajustado sem chamadas extras de capital.
O Grand Park Eucaliptos busca a cada dia se tornar uma minicidade, com uma proposta diferenciada. Atualmente, o negócio se torna inviável para uma grande parcela da população, mas pode indicar como serão pensadas as moradias do futuro. O desafio será saber se esse modelo conseguirá se tornar acessível ou se vai continuar restrito a uma pequena parcela da população.
