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Os sentidos, a memória e os processos invisíveis do luto depois da partida

Memórias que permanecem: a espreguiçadeira em que Márcio embalava Nathalia quando bebê.
Foto: Arquivo Pessoal

Eu tinha 21 anos quando me tornei uma colecionadora de ausências em demasia. Desde então, o relógio marca os segundos com uma indiferença que, nos primeiros meses, me soava como torturante. A morte tem uma tangibilidade assustadora. A gente acha que a perda é um conceito abstrato até precisar decidir qual será o destino das roupas de quem não vai mais precisar delas. E, afinal, qual roupa escolher para um último momento?

Márcio Braga Rodrigues tinha 50 anos e duas semanas de vida quando um ataque cardíaco fatalmente encerrou sua jornada por aqui, em um feriado de 1° de maio de 2023. Deixou para trás uma filha que, dali a exatamente oito dias, iniciaria a graduação em Jornalismo.

Meu pai era uma fortaleza de sorriso largo e coração gentil. Disciplinado, foi atleta de handebol na juventude e praticou esportes durante toda a vida. Antes que eu nascesse, trabalhava como caminhoneiro. Amava a estrada de forma visceral. A nossa última viagem juntos, cerca de seis meses antes da despedida, cobriu cerca de 2,4 mil quilômetros. O roteiro começou em Esteio, desceu até Encruzilhada do Sul e retornou à base antes de partirmos de caminhão rumo a Paranaguá, no Paraná. Na volta, fizemos paradas táticas e dormimos na Praia da Ferrugem.

Ele mapeou o mundo através das páginas impressas do jornal mais popular do sul do país. Marcava nos jornais os lugares que já conhecia e mantinha um arquivo analógico focado na nossa representatividade. Durante quase quatro anos, recortou fielmente a coluna de Manoel Soares no Diário Gaúcho, aos sábados. Era a sua forma tática de me incentivar, mostrando que existiam pessoas negras comunicando para a nossa estrutura familiar. A última coluna arquivada por ele debatia, justamente, a importância de os pais se educarem. São anotações que hoje sustentam a geografia da minha lembrança.

A memória mais nítida da nossa última semana juntos evoca o trajeto de volta do meu trabalho. “O pai estava te esperando”, disse ele, segurando a minha mão, que parecia minúscula diante da dele, ao me buscar no Palácio Piratini, onde eu trabalhava. Naquela caminhada até a estação Mercado, desenhamos um mochilão para o Chile. Batemos o martelo de que compraríamos uma carreta azul-royal. Ao cruzarmos o Largo Glênio Peres, no centro de Porto Alegre, fui taxativa: “Pai, quando eu for a jornalista que sonho ser, me lembra que um dia desejei ter meu nome em um lugar importante assim”. Ele sorriu e respondeu que eu já era tudo isso, e que queria estar vivo para ver. Só faltou combinar com o destino.

Recordação da última viagem juntos, em que rodaram por 2,4 mil quilômetro.
Foto: Arquivo Pessoal

Dois anos depois, em novembro de 2025, um incêndio destruiu um dos cômodos da minha casa. O fogo consumiu roupas, calçados, equipamentos e livros, mas o golpe mais letal foi ver se transformar em cinzas a velha espreguiçadeira que pertencia ao meu avô paterno e na qual meu pai me embalava no colo quando pequena. Em segundos, mais de quarenta anos de laços familiares se tornaram escombros. Também houve o que foi salvo: o aroma do perfume dele, algumas lembranças, a lista de refeições que ele gostava de cozinhar, as colunas recortadas do jornal e os blocos de anotações que ainda funcionam como o principal gatilho para as lágrimas que tento esconder.

O fantasma mais persistente do enlutado é a vida que a pessoa não vai viver. O plano original envolvia o sorriso dele na minha formatura de Jornalismo. Sem essa concretização, o luto invade a materialidade do cotidiano. É o carrinho de compras: o impulso de pegar no supermercado a carne preferida dele, o suco de laranja que ele gostava, a marca específica de erva mate e um jornal impresso para folhear. Abre espaço para a fome física: a necessidade quase biológica de comer aquela comida específica que só aquela pessoa sabia fazer. O paladar funciona como um arquivo de memórias.

Nós tínhamos uma piada interna sobre a existência de sinal de Internet no céu. Ele, otimista crônico, garantiu que a conexão lá em cima seria impecável. Mas, diante do abismo, esbarro no silêncio da rede. O arquivo digital está salvo na galeria do celular, mas não tenho para onde enviar.

Foi mergulhando no meu próprio abismo burocrático e sensorial que percebi: a minha dor é apenas o fio condutor de uma geografia muito mais extensa. O luto é um país estrangeiro e, de repente, eu estava cercada por pessoas que também tentavam aprender esse idioma.

A herança em páginas e o tabu do alívio

Lembrança de Isadora com o pai, Damasio, conhecido no litoral norte como Marzinho.
Foto: Arquivo Pessoal.

A morte costuma habitar o território do silêncio social. A médica geriatra Ana Claudia Quintana Arantes notou essa lacuna ainda na graduação. A academia preparava médicos para curar, mas fugia do cuidado com o encerramento do ciclo vital. O diálogo evitado ganha contornos de urgência quando a burocracia exige assinaturas enquanto os olhos ainda estão inchados. Existe uma engrenagem fria que se move no instante exato em que um coração para. São taxas, atestados, certidões e a partilha forçada daquilo que restou.

Para a publicitária Isadora Rangel, de 22 anos, o luto assumiu a forma de um hospital permanente. O diagnóstico de um câncer agressivo, que começou na garganta e se espalhou para fígado, baço, ossos e cérebro, transformou a rotina da família, no Litoral Norte gaúcho, em uma sucessão de esperas. Foram seis meses entre a descoberta do tumor e o último encontro. Damasio Fermino, de 68 anos, despediu-se deixando uma esposa jovem demais para a viuvez e muitos livros na estante de memórias da filha.

Hoje, o elo palpável com o pai reside nas lombadas desgastadas dos livros que ele deixou. Ao folhear as páginas, ela busca marcas de lápis e anotações marginais, tateando o papel em busca de um fragmento da voz que a doença calou.

Durante sua despedida, Isadora encontrou refúgio nas palavras da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, que, em Notas sobre o luto, descreve a orfandade como uma educação cruel: “Você aprende como o luto pode ser raso, como pode ser cheio de raiva”. Dora, como é chamada, buscou o espelho; a coreografia desta despedida se repete cada vez que abre um livro herdado, transformando a literatura em ponto de encontro.

Desta dinâmica, surge o tabu do alívio após a partida de quem descansou. É comum sentir um alívio inesperado, principalmente após mortes decorrentes de doenças longas, dolorosas ou contextos conflituosos. É um sentimento humano, frequente e difícil de admitir: o alívio de que o sofrimento (da pessoa e de quem cuida) finalmente cessou.

O silêncio na arquibancada e a armadilha do riso

Cristiel com o filho Nícolas.
Foto: Arquivo Pessoal

Há perdas que subvertem a gramática. Não inventaram uma palavra no dicionário para nomear quem enterra um filho. O jornalista Cristiel Gasparetto experimentou esse precipício em 2026. Seu filho, Nícolas, de apenas 10 anos, foi vítima de uma meningite viral que evoluiu para falência múltipla dos órgãos. O menino, conhecido pela facilidade em fazer amigos no condomínio, deixou os pais e o irmão mais novo desestruturados após dias de agonia em uma UTI.

Quarenta dias após a partida, Cristiel narrou a fratura exposta nas redes sociais. Relembrou os dez anos e nove meses de convivência. Restou a memória dos diálogos em que perguntava: “Sabe que o pai te ama, né?”, ouvindo um entediado “Sim, pai”.

No jogo seguinte ao falecimento, a Arena do Grêmio silenciou. Antes do confronto contra o Juventude, o clube exibiu uma foto de Nícolas no telão e centenas de torcedores se calaram por um minuto de silêncio em homenagem ao pequeno. No dia em que o menino completaria 11 anos, os pais compraram a braçadeira de capitão de futebol que haviam prometido a ele.

Antes de retomar suas atividades de trabalho presencial, Cristiel enviou um e-mail aos colegas. Foi um exercício visceral de luto e jornalismo. Pediu que o ambiente de brincadeiras não mudasse e solicitou que não o julgassem caso o vissem sorrir: “Como um pai que perdeu o filho sorri?, alguém pode pensar”.

E, assim, revela-se a armadilha do riso: ter um momento de alegria genuína com uma piada ou um filme e, segundos depois, ser atropelado pelo peso da culpa por estar feliz. O luto não é uma tristeza constante; ele é feito de picos e vales emocionais que geram um profundo conflito interno. “Eu digo que irei me esforçar para voltar a ser feliz pelo outro filho que preciso criar”, escreveu. Ele aceitou a pena alheia, mas foi taxativo: “Não me evitem”.

Essa readaptação esbarra na exigência das datas comemorativas. O calendário é uma planilha burocrática implacável para quem tenta se recuperar. O Dia dos Pais, das Mães ou os aniversários inundam as redes sociais com filtros temáticos e campanhas publicitárias. Não há botão de silenciar para o fluxo do mundo.

O tempo no pulso e a pele preta

O luto, porém, não opera apenas no campo emocional; ele carrega o peso das estruturas sociais. O racismo institucional e a desigualdade de gênero produzem a falta de acesso ou o acesso de menor qualidade aos serviços e direitos pela população negra, sobretudo pelas mulheres, indica o Instituto da Mulher Negra Geledés. Na prática, isso também atravessa a forma como pessoas negras adoecem, envelhecem, recebem cuidado e experienciam a perda. O luto, nesses contextos, não surge isolado: ele se soma ao desgaste histórico de quem precisou sobreviver, resistir e sustentar afetos em estruturas que frequentemente negam proteção e permanência.

Lucilene Athaide, de 34 anos, jornalista e doutora em Ciências da Comunicação pela Unisinos, conhece essa chaga. Seu pai, Mauro Athaide, faleceu repentinamente em janeiro de 2025 após complicações decorrentes de uma hérnia abdominal. Seu Mauro era um homem negro que caminhava pelo Centro Histórico, lia jornais diariamente e construiu, com as próprias mãos, na década de 1970, o prédio da UFRGS onde a filha viria a estudar. Mais tarde, repetiria com orgulho que havia ajudado a erguer “o prédio do Planetário” onde Luci conquistaria um diploma tão raro para uma mulher como ela no Brasil, já que apenas 15% das mulheres negras brasileiras têm formação universitária, segundo dados de 2025 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Ele partiu no período em que Lucilene finalizava a tese de doutorado. Em silêncio, num dia chuvoso enquanto estava no trabalho, ela pediu que o pai pudesse descansar. Já não queria mais vê-lo sofrer. Amar também é deixar ir, sem egoísmos.

Ela não permitiu que a paralisia da dor interrompesse o percurso acadêmico, mas o diploma ficou sem o olhar daquele que justificou a caminhada. Era ele quem, durante a graduação, entregava R$ 20 para que a filha pudesse atravessar a semana em Porto Alegre, pagar passagens, xerox e refeições. Também foi quem ensinou os caminhos da Capital para que ela “não se perdesse”. Lucilene costuma dizer que poucas pessoas recebem uma cidade como herança, mas ela recebeu do pai. “A melhor herança que eu poderia ter”, disse.

Hoje, Lucilene lida com o desafio de traduzir a ausência para o filho pequeno, que carrega as feições e gostos do avô. Quando o menino pergunta por que o avô foi para o céu, ela evita contos de fadas evasivos. Prefere lembrar, em voz alta, que o vovô era maravilhoso e dava chocolates escondidos. A presença se mantém nas pequenas ações diárias, como conversar com a pessoa enquanto toma um café, dialoga com alguém ou limpa a casa. Não é loucura; é a necessidade de conselho, a busca por uma oração.

A materialidade do luto de Lucilene coube em um pulso. Em 2011, ela reclamou da falta de um relógio analógico para o vestibular. Seu Mauro apareceu em casa com um pequeno saquinho contendo um modelo de ponteiros. A peça quebrou e permaneceu esquecida em uma gaveta por anos. Uma semana após a morte do pai, Lucilene resgatou o objeto e o levou a um relojoeiro no coração de Porto Alegre. Com as engrenagens limpas, voltou a usá-lo. É uma maneira de calcular o tempo que congelou naquela quinta-feira de despedida. “Não apresso. Não é uma corrida”, decretou sobre o tempo e o legado de seu Athaide.

A partitura do adeus em modo maior

Márcio deixou algumas recordações escritas, como uma lista de receitas que costumava fazer para jantar com a filha.
Foto: Arquivo Pessoal

Nós não estamos sozinhos na tentativa de organizar esse espólio. Em 1969, Sérgio Bittencourt se sentou na mesa de um bar e rabiscou a canção Naquela Mesa, eternizando a falta do seu pai. A música mapeia a saudade nos móveis da casa. Décadas depois, em 2025, o rapper Emicida lançou um álbum inteiramente esculpido pela morte de sua mãe, Dona Jacira. Na faixa Saudade em modo maior, ele insere áudios reais dela, encerrando com o som do próprio pranto. “Perder a mãe é perder o céu, mano”, desabafou em um podcast. “O luto você não supera, você convive. É como um desmoronamento de terra: você precisa aprender a desviar daquele buraco todos os dias”.

Lidar com a cratera no quintal exige pragmatismo, e isso ofende o senso comum. Iniciativas modernas, como o movimento Infinito, propõem que organizemos nossa finitude enquanto estamos saudáveis. Uma pasta com senhas de redes sociais (o nosso novo planejamento mortuário digital), apólices e desejos de cremação são atos de amor profundo para evitar o desgaste físico e emocional de quem fica.

Na internet, grupos como “O Luto é o Preço de Amar”, criado por Leticia Hosang, especialista em ciências da saúde, rompem o tabu. A provocação semanal deles é simples: “Quem você perdeu e o que essa pessoa gostava de fazer?”. Afinal, o pior do luto não é a lágrima furtiva, mas o silenciamento imposto pela sociedade, que nos proíbe de falar de quem se foi. É a constante presença da ausência.

Café para refletir sobre a finitude

A morte é, possivelmente, a única certeza partilhada por toda a humanidade, mas continua a ser o nosso tabu mais persistente. Para contrariar este silenciamento, surgiu o movimento global Death Café. A premissa é simples e despida de dramatismo: reunir pessoas desconhecidas num espaço confortável para beber chá, comer bolo e falar abertamente sobre a finitude.

O conceito original nasceu na Suíça, idealizado pelo sociólogo Bernard Crettaz, e foi transformado num modelo global em 2011, no Reino Unido, por Jon Underwood. A regra de ouro destes encontros é clara: um grupo de discussão livre com o objetivo central de aumentar a consciência sobre a morte.

No Rio Grande do Sul, a iniciativa tem ganhado tração e expandido a sua atuação. Longe da frieza asséptica dos corredores hospitalares ou da formalidade burocrática das agências funerárias, os encontros em Porto Alegre propõem a naturalização do encerramento da vida. Num ambiente onde o julgamento fica à porta, os participantes debatem desde o planejamento burocrático, como a gestão de testamentos vitais e apólices, até à mecânica do luto cotidiano.

O Death Café oferece uma plataforma física para organizar estas ausências. Ao colocar o tema sobre a mesa, o movimento prova que falar sobre o fim da vida não atrai infortúnios. Pelo contrário, funciona como um lembrete prático e urgente para documentar a memória e estruturar o tempo que ainda nos resta. Até mesmo os algoritmos ajudam na catarse: no Spotify, especialistas e utilizadores criam playlists focadas exclusivamente em temas de luto, oferecendo um ombro musical para quem necessita de choramingar no transporte público.

Enquanto não houver uma tecnologia capaz de recriar abraços, escrever será a minha inteligência artificial particular. É a tecnologia de unir letras e recordar momentos para inventar esquecimentos melhores e imortalizar quem nos constituiu. O normal de antes já não existe. Mas, sinto que o sinal de Internet celestial, por um breve instante, conectou por aqui.

Nós, os enlutados, guardamos o simbolismo do afeto, conversamos sozinhos no trânsito e sentimos culpa por rir de um filme. O processo não é uma linha reta; “do ponto de vista do mar, quem balança é a praia” como diz a canção do grupo Casuarina. Deste lado, o luto é às vezes difícil e às vezes bonito, mas é sempre o lembrete de um grande amor.