Tardes como a do último sábado são perfeitas para uma ida ao Centro de Novo Hamburgo. Céu ensolarado e temperaturas próximas dos 28°C, com a famosa Praça do Imigrante oferecendo um espaço sob a sombra. Entretanto, as calçadas apresentavam poucos pedestres, lojas recebiam clientes escassos e os estacionamentos estavam desocupados.
“Há alguns anos, a essa hora, isso aqui estaria uma muvuca”, recorda a costureira Rosane Diniz, de 45 anos. “Antigamente se viam famílias nas bancas, na praça. A gente vinha direto, passeava, olhava as vitrines e resolvia tudo aqui.” Na tarde deste sábado, Rosane apenas veio buscar seus novos óculos de grau e, em seguida, voltou para casa.
A lembrança contrasta com a realidade observada nos últimos anos. Nas principais ruas do centro hamburguense, a cada duas lojas em funcionamento, é possível encontrar placas de aluga-se e estabelecimentos fechados. A “muvuca” dita por Rosane não faz mais parte do cenário da região, fazendo os comerciantes enfrentarem dificuldades em atrair consumidores e manter seus negócios.
Para quem mantém um estabelecimento no Centro, ficar de portas abertas é uma luta constante. Helen Vasconcellos e Ricardo Schutz, comerciantes da loja Vibe, relatam que a atração de consumidores para a região é um dos desafios enfrentados pelo comércio.
Segundo os lojistas, o problema não se limita à atividade comercial, mas sim à relação das pessoas com o espaço urbano. Para Ricardo, o Centro não oferece atrativos, como opções de lazer e convivência, que façam as pessoas saírem de suas casas e circularem pelo espaço. Helen complementa que a existência de lojas, por si só, não garante que o público escolha a cidade para passear ou consumir: “Não tem nada que chame o pessoal para o Centro. As praças estão abandonadas, não tem uma quadra de basquete, eventos ou atividades, nada. Não tem nada que atraia a galera para cá”, afirma Helen.
Jorge Stoffel, vice-presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas de Novo Hamburgo (CDL/NH), destaca que criar esses atrativos é uma das demandas mais importantes. Segundo ele, antes de pensar em trazer mais lojas para o Centro, precisa-se pensar o que faz alguém querer ir até a região, permanecer e voltar: “O desafio é fazer o Centro voltar a ter vida, movimento e identidade, com ações mais frequentes que deem às pessoas motivos para estar ali.”
Como resultado do baixo fluxo comercial, Ricardo destaca a presença de salas comerciais disponíveis para locação, citando o custo dos aluguéis como um dos fatores que dificultam a manutenção dos negócios: “Hoje, tu anda pela Lima e Silva, pela Joaquim Nabuco, e vê uma sala atrás da outra para alugar. O aluguel também é exageradamente caro. Tudo isso influencia”, comenta.

Mesmo em uma tarde ensolarada, a rua 5 de abril, uma das principais de NH, estava sem movimento. FOTO: Lua Santos/ Beta Redação
Na Galeria Central, está localizado o café Micro Lanches, que fica de frente para a rua Lima e Silva, uma das principais de Novo Hamburgo. Lucas Knewitz, proprietário do café, diz que tem uma visão privilegiada do trânsito da região: “Tá fraco. O movimento era bem maior antes. Ainda circula muito carro, mas esse rotativo não deixa ninguém parar sem ser multado”, relata.
Por rotativo, Lucas refere-se ao sistema de estacionamento Rotativo Digital. A princípio, o sistema veio para solucionar o problema da alta concentração de veículos no Centro da cidade, visando impactar positivamente o setor de comércio de serviços. No entanto, a solução virou dor de cabeça: “Se tu perde 10 minutos, os caras te botam uma multa de R$ 24. Isso espanta o cliente. O estacionamento é caro e acaba inibindo as pessoas de vir para o Centro”, comenta Helen, da loja Vibe.
Para discutir mudanças no sistema de estacionamento rotativo digital, o CDL/NH participou, em julho, de uma reunião da Comissão de Obras, Serviços Públicos e Mobilidade Urbana (Coosp) da Câmara Municipal de Vereadores: “A rotatividade das vagas é importante para o comércio, mas o sistema precisa ser simples e facilitar a vinda do consumidor ao Centro. Por isso, a CDL tem levado demandas dos comerciantes relacionadas ao tempo de tolerância, valores e formas de pagamento”, comenta Jorge Stoffel.
Uma semana depois, o Legislativo aprovou a criação de uma comissão especial voltada ao fortalecimento, revitalização e às demandas do Centro.
A resposta do poder público: uma comissão para discutir o Centro
A Coecentro – Comissão Especial de Desenvolvimento, Revitalização e Fortalecimento do Centro de Novo Hamburgo – foi aberta em julho deste ano. O grupo foi instituído para discutir temas como desenvolvimento econômico, mobilidade urbana, segurança, ocupação dos espaços públicos, cultura e incentivo ao comércio.
Nas reuniões da comissão, os membros convidam representantes do Executivo e de entidades ligadas ao comércio para discutir demandas e alternativas em conjunto e em prol dos comerciantes.
Em agosto, a Coecentro ouviu dois secretários em reuniões distintas. No dia 12, a secretária municipal de Desenvolvimento Econômico e Inovação, Daiana Monzon, compareceu à comissão e argumentou que a Prefeitura Municipal já está ciente dos problemas enfrentados na região central de Novo Hamburgo.
Segundo a secretária, ações e discussões foram realizadas por meio do programa Conexão Empresarial, que reuniu comerciantes para identificar problemas e propor soluções. Além disso, Daiana também afirmou que sua pasta atua como intermediária entre empresários e os demais órgãos municipais, encaminhando demandas às secretarias responsáveis, como segurança pública, desenvolvimento social, mobilidade urbana e cultura.
Nessa mesma reunião, Jorge Stoffel, representando o setor empresarial, entregou à comissão um documento com propostas de alteração ao Rotativo Digital. Na ocasião, a secretária informou que o Executivo estava finalizando estudos e ouvindo a comunidade e entidades empresariais sobre possíveis alterações no sistema.
Já na reunião do dia 19 de agosto, o secretário municipal de Cultura e Turismo, Angelo Reinheimer, enfatizou que a pasta já trabalha em medidas para valorização do patrimônio e recuperação da atratividade da região.
As iniciativas apresentadas pelo secretário estão alinhadas às preocupações dos comerciantes. Entre as propostas estão o Manual Cidade Linda, voltado à qualificação visual de fachadas, especialmente de prédios históricos, e a realização de eventos culturais para ampliar a circulação de pessoas e valorizar a identidade local. O secretário citou como exemplo de atividades já executadas com essas diretrizes a Feira do Livro, realizada há dois anos fora da região central, e o Natal Novo Hamburgo que, segundo ele, atraiu milhares de visitantes para o Centro em 2025.
Porém, os comerciantes afirmam que a criação de eventos em datas especiais não soluciona um problema que se arrasta durante o ano todo.
As discussões da comissão seguem em andamento, com previsão de ouvir outros representantes e aprofundar o debate sobre a revitalização da região central. Até o fechamento desta reportagem, não houve informe de um encaminhamento definitivo sobre as propostas, nem respostas sobre quais medidas serão priorizadas pelo Legislativo Municipal.
O consumidor que mudou
Os problemas dos centros comerciais não se limitam a Novo Hamburgo. Segundo Alan Ribeiro da Silva, comerciante do setor óptico que possui lojas tanto em Novo Hamburgo quanto em São Leopoldo, as duas cidades enfrentam dificuldades com o comércio, mas apresentam características distintas devido à organização das ruas e espaços centrais.

Aqueles que passam pela rua David Canabarro, encontram portas fechadas e trajetos desertos. FOTO: Lua Santos/ Beta Redação
Para Stoffel, que também possui comércio nas duas cidades, o problema de Novo Hamburgo é maior: “Em Novo Hamburgo, parece que essa descentralização aconteceu de forma mais forte, enquanto em São Leopoldo ainda existe uma concentração comercial muito marcada na Rua Independência.”
Ainda assim, Alan e Jorge concordam que é uma combinação de fatores econômicos e urbanos que causam esses problemas. Segundo eles, hoje o Centro não concentra mais sozinho toda a atividade comercial. Ele disputa o consumidor com bairros, shopping, outros polos de comércio e com as compras pela internet.
Na Vibe, Helen e Ricardo relatam que as redes sociais passaram a ter um papel essencial na captação de clientes. Segundo eles, a maior parte do público chega à loja depois de conhecer os produtos pelo Instagram, e não por estar passando em frente ao estabelecimento.
“Hoje, 95% dos nossos clientes, eu arrisco falar, são do Instagram. Eles veem a loja no Instagram, chamam por lá e às vezes vêm comprar. Não é cliente que está passando na rua”, afirmam.
Ao mesmo tempo, a internet e o comércio eletrônico apresentam preocupações aos lojistas. Para eles, a oferta barateada de produtos vendidos pela internet pressiona os estabelecimentos físicos, que precisam lidar com aluguel, funcionários e manutenção.
“Eu não tenho como vender uma calça que pago R$ 120 por R$ 150, porque tenho toda uma estrutura, tenho colaboradores. A diferença de preço é muito importante, e a concorrência com a internet é muito desleal”, relatam os comerciantes da Vibe.
Stoffel ainda lembra que, antigamente, para comprar determinadas coisas ou resolver algum serviço, a pessoa precisava ir até o Centro: “Hoje os bairros são muito desenvolvidos e, muitas vezes, com uma facilidade maior, sem alguns dos problemas urbanos que acabam pesando nas regiões centrais.”
As preocupações dos comerciantes ilustram-se em alguns consumidores entrevistados na reportagem. “Hoje, eu venho mais quando preciso resolver alguma coisa. Para comprar, muitas vezes prefiro pedir pela internet”, comenta Joseane Amaral, de 22 anos. Ela conta que, mesmo quando vai ao shopping, costuma frequentá-lo mais pelo cinema e pela praça de alimentação do que pelas lojas.
Geovane Neves, morador do bairro Canudos, relata que a proximidade e disponibilidade de produtos do comércio dentro do bairro influencia suas idas ao centro: “Para quem mora longe do Centro, que nem eu, é melhor comprar no bairro. Meu bairro já possui tudo o que eu consumiria no Centro”, comenta.

Os comerciantes que lutam para manter as portas abertas, deparam-se com ruas vazias e movimento quase inexistente. FOTO: Lua Santos/ Beta Redação
A “muvuca” ficou para trás. A vida do comerciante tornou-se insegura. A recuperação do movimento do Centro de Novo Hamburgo aguarda não somente planos, mas ações. Enquanto planejamentos são discutidos para que o Centro volte a ser como era antes, os lojistas seguem batalhando para manter as portas abertas e seguir com suas fontes de sustento.
