Em maio de 2024, Canoas se tornou um dos principais símbolos da maior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul. Dois anos depois, as marcas da enchente seguem visíveis nas ruas, casas e na memória dos moradores, especialmente no bairro Mathias Velho, um dos mais atingidos pela inundação que deixou milhares de pessoas desalojadas e 31 mortos no município.
Embora o poder público anuncie avanços nas obras de proteção contra cheias, com o dique inacabado, imóveis abandonados e estruturas públicas destruídas, o sentimento predominante na comunidade é de insegurança. Na semana em que a enchente completou dois anos, centenas de pessoas protestaram em frente à Casa de Bombas 6, cobrando mais transparência e agilidade na execução das obras.
Além das perdas materiais, moradores reclamam da desvalorização imobiliária e do abandono gradual da vizinhança, assim como o acúmulo de lixo nas margens da rua Curitiba — paralela ao dique. Casas vazias e terrenos tomados pelo mato passaram a fazer parte da paisagem do bairro. Muitos dos que permaneceram dizem não ter condições financeiras de sair dali.
A vendedora Aline Silva, que reside no bairro há cerca de 20 anos, relata ainda não ter se recuperado do trauma e das perdas financeiras causados pela enchente. “Os protestos são muito importantes, mas se cada um fizer sua parte já ajuda muito. Tu olha ao redor (do dique) e só vê lixo, quem colocou o lixo lá?”, questiona. “O poder público precisa agir rápido, mas as pessoas também precisam fazer a sua parte”.
Há uma sensação coletiva de vulnerabilidade no bairro. Em comunidades online, moradores relatam mudanças na rotina, estoques de emergência e até planos de abandono das áreas mais suscetíveis a enchentes.
Na rua São Sepé, a dona do mini-mercado Sabor de Verão, Salete Fraga, lamenta a dificuldade de reabrir o comércio após a enchente: “Não foi fácil abrir de novo, perdemos tudo e tivemos que trabalhar e juntar os troquinhos”. Moradora do bairro há 40 anos, a proprietária conta que ainda convive com o trauma e o medo de um novo desastre. “Tu vai dormir e lembra daquele barro todo quando abriu a porta daqui”, narra Salete.
Infraestrutura
Em abril, a Prefeitura de Canoas anunciou uma nova etapa da recuperação do dique na Mathias Velho e afirmou que a entrega da obra está prevista para setembro deste ano. O investimento recebeu reajuste e faz parte do conjunto de intervenções estimadas em cerca de R$ 600 milhões em sistemas de proteção contra cheias no município.
O Hospital de Pronto Socorro de Canoas, também localizado na Mathias Velho, é uma das imagens mais emblemáticas da enchente, pois permanece com obras abaixo de 10% de execução no primeiro piso, quase dois anos após o desastre. O posto do Corpo de Bombeiros no bairro continua desativado, sem previsão concreta de reabertura.
Preocupação
Segundo a agência climática americana National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), estima-se uma probabilidade de mais de 80% para formação do fenômeno El Niño no segundo semestre deste ano, com alta intensidade e podendo ser considerado um “Super El Niño”. Descrito como “possível fenômeno climático mais intenso da história”, o Super El Niño preocupa pelo risco de chuvas extremas no sul do Brasil. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) concorda com as probabilidades de um El Niño intenso, mas declara que uma avaliação confiável sobre a força do fenômeno só será possível após o segundo semestre.
Para os moradores de Canoas, porém, o debate é menos abstrato. A enchente de 2024 deixou de ser apenas uma memória: ela passou a fazer parte do cotidiano. Entre obras atrasadas, promessas oficiais e o receio constante de novas chuvas, a cidade ainda tenta aprender a recomeçar.
