Para muitas mulheres, sair de um relacionamento abusivo não depende apenas da vontade de deixar o agressor. A decisão pode envolver o medo de criar os filhos sozinha, a falta de renda própria, a ausência de uma rede de apoio ou a incerteza sobre a proteção oferecida pelo Estado. Esses fatores ajudam a explicar por que milhares de mulheres permanecem em situações de violência mesmo diante das agressões. Dados da Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP-RS) e da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do DataSenado, ajudam a dimensionar essa realidade.
Apenas entre janeiro e abril de 2026 foram registradas 11.275 ocorrências de ameaça, 6.390 casos de lesão corporal, 690 estupros, 99 feminicídios tentados e 29 feminicídios consumados no estado, conforme o Painel de Indicadores da Violência Contra a Mulher da Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP/RS). Muitas vítimas não conseguem romper o ciclo da violência. Segundo o DataSenado, entre as mulheres que sofreram violência doméstica e não procuraram ajuda formal, 17% apontaram a preocupação com os filhos como principal motivo para não denunciar. Outras 14% afirmaram não acreditar na punição do agressor, 13% disseram acreditar que aquela seria a última agressão, 12% relataram medo do agressor e 6% citaram dependência financeira. Há uma alta proporção de respostas em “outros motivos” (20%) mostrando que o tema ainda precisa ser mais explorado.
Embora os dados apontem os principais motivos que levam mulheres a permanecerem em relacionamentos abusivos, eles não mostram como essas dificuldades se manifestam no cotidiano das vítimas. Para compreender essa realidade, a reportagem ouviu a Casa Mulheres Mirabal, segunda casa de acolhimento para mulheres vítimas de violência criada em Porto Alegre.
Segundo a coordenação da instituição, a dependência financeira continua sendo um dos principais fatores que dificultam o rompimento da violência. A situação costuma estar diretamente ligada à responsabilidade pelos filhos e à ausência de uma rede de apoio. Sem ter com quem deixar as crianças, muitas mulheres encontram dificuldades para ingressar ou permanecer no mercado de trabalho e acabam dependendo economicamente do agressor.
“Se a mulher não consegue emprego porque não tem com quem deixar os filhos, porque falta vaga na creche ou porque não possui uma rede de apoio, a única forma de ela sobreviver acaba sendo a dependência financeira do agressor”, explica a coordenadora da casa, Thainá Battesini.
Fatores sociais
A instituição também aponta que a violência doméstica não pode ser explicada apenas por fatores econômicos. Questões culturais, emocionais e sociais também influenciam a permanência das vítimas nesses relacionamentos. Muitas das mulheres acolhidas cresceram em ambientes marcados pela violência ou conviveram com relações abusivas ao longo da vida, o que contribui para a naturalização de determinados comportamentos. “Muitas mulheres vivenciaram relações dessa maneira durante a vida e acabam entendendo isso como algo normal nas relações”, afirma Battesini.
Outro aspecto destacado pela coordenadora da Mirabal é que as mulheres geralmente procuram ajuda após um longo histórico de agressões. Segundo ela, são raros os casos em que a vítima busca acolhimento após um único episódio de violência. Na maioria das situações, existe um ciclo contínuo de agressões físicas, psicológicas, morais ou patrimoniais.
O medo também aparece como uma barreira importante para a denúncia. Além do receio em relação ao agressor, muitas mulheres têm insegurança sobre a forma como serão recebidas pelas instituições responsáveis pelo atendimento. “Elas têm medo de denunciar. Não só da agressão, mas também de como vão ser tratadas pela rede”, afirma.
Rede de apoio
Para a Casa Mulheres Mirabal, a existência de uma rede de apoio é um dos fatores mais importantes para que a vítima consiga romper definitivamente com a violência. Familiares, amigos, serviços de acolhimento e grupos de apoio podem ajudar a mulher a reconhecer a situação de abuso e reconstruir sua autonomia. “Sem uma rede de apoio, é quase impossível uma mulher sair totalmente da violência”, destaca a coordenadora.
Além do acolhimento, a instituição oferece encaminhamento psicológico, orientação jurídica e apoio para geração de emprego e renda. O objetivo é que as mulheres consigam reconstruir suas vidas de forma independente e não retornem para situações de violência.
Na experiência da Mirabal, diversas ex-acolhidas conseguiram reorganizar suas trajetórias, tornando-se lideranças comunitárias, integrantes de movimentos sociais e referências para outras mulheres em situação semelhante. “A gente vai tentando, aos poucos, que essa mulher crie uma autonomia. Esse é o nosso principal objetivo”, destaca a coordenadora.
Ciclo de violências
Esses desafios aparecem de forma concreta na trajetória de mulheres que vivenciaram relacionamentos abusivos. A história de Ana*, 45 anos, revela como fatores como o medo, a violência contínua e a preocupação com os filhos podem dificultar o rompimento do ciclo da violência. Em um relacionamento marcado por diferentes formas de violência, ela relata que as agressões não se limitaram à violência física, mas também incluíram abusos psicológicos, morais, patrimoniais e sexuais.
Com o passar do tempo, o companheiro passou a controlar sua rotina, suas amizades, o contato com familiares e até suas escolhas profissionais. Dona da própria clínica de massoterapia, ela conta que teve sua independência financeira prejudicada durante a relação. Em determinado momento, foi pressionada a deixar um emprego em que tinha perspectivas de crescimento. Além disso, vivia sob constante vigilância e não tinha liberdade para manter relações sociais ou buscar ajuda.
O medo foi um dos principais fatores que a mantiveram no relacionamento. “Eu sofria ameaças frequentes e acreditava que a minha vida corria risco caso tentasse sair da relação”, desabafa. A situação afetava diretamente sua saúde mental, seu desempenho profissional e o convívio social: “O isolamento e o controle destruíram minha autoestima e provocaram consequências emocionais que permanecem até hoje”.
A presença das filhas também marcou profundamente a experiência. Ana lembra que uma das meninas chegou a sofrer agressões que eram direcionadas a ela e afirma que o sofrimento das crianças foi um dos aspectos mais dolorosos de todo o processo. “São cicatrizes que carregamos para o resto da vida”, afirma.
Desafio de denunciar
O episódio que levou Ana a buscar ajuda ocorreu quando foi agredida com uma arma. Após receber uma coronhada e pedir socorro, percebeu que precisava encerrar definitivamente aquela situação. “Se eu não tivesse dado um basta, hoje estaria no cemitério”, relata.
A denúncia foi feita na Delegacia da Mulher. Para conseguir sair da cidade onde morava, contou com o apoio de pessoas que a ajudaram a deixar o local sem que o agressor descobrisse seu paradeiro. Ela avalia positivamente o atendimento recebido pelos órgãos de proteção e destaca a importância da rede de apoio para romper o ciclo da violência.
Hoje, busca reconstruir sua vida. Apesar dos traumas, continua acreditando nos próprios sonhos e pretende retomar seus projetos profissionais. Para ela, a principal lição deixada pela experiência é a necessidade de as mulheres reconhecerem seu valor e procurarem ajuda o quanto antes. “Eu aprendi que sou o amor da minha vida. Se pudesse voltar no tempo, teria tomado outras decisões. Nenhuma mulher merece viver com medo. É preciso pedir ajuda e acreditar que existe uma saída”, conclui.
Medidas de enfrentamento
Se os números mostram a dimensão do problema no Rio Grande do Sul, as histórias das vítimas revelam os desafios enfrentados para buscar proteção e reconstruir a própria vida. Para instituições que atuam no acolhimento de mulheres em situação de violência, fortalecer as redes de apoio e ampliar o acesso aos serviços de proteção continua sendo um dos principais caminhos para enfrentar o problema, que raramente acontece de forma isolada. As mulheres que buscam acolhimento geralmente chegam após um longo histórico de agressões. Na maioria dos casos, a violência se manifesta de diferentes formas e se repete ao longo do tempo, dificultando o rompimento da relação abusiva. Quando a mulher consegue buscar ajuda, muitas vezes já convive há anos com diferentes formas de violência.
Para instituições que atuam no acolhimento de mulheres em situação de violência, o enfrentamento desse cenário exige mais do que medidas emergenciais de proteção. O fortalecimento das redes de apoio, a ampliação do acesso a serviços de acolhimento, a promoção da autonomia financeira e o investimento em políticas públicas de prevenção são apontados como estratégias fundamentais para interromper ciclos de violência antes que eles resultem em consequências irreversíveis.
Enquanto os índices continuam elevados, histórias como a de Ana evidenciam que, por trás de cada ocorrência registrada, existe uma mulher enfrentando desafios que vão muito além da denúncia. Compreender essas barreiras é um passo essencial para ampliar a proteção às vítimas e evitar que a violência doméstica tenha seu desfecho mais extremo: o feminicídio.
Ligue 180
O principal canal oficial de denúncia em casos de violência é a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180. A ligação é gratuita e o serviço funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana. O serviço oferece orientação sobre leis, direitos das mulheres e serviços da rede de atendimento, como Delegacias de Atendimento à Mulher (Deam), Defensorias Públicas e outros centros de apoio; informações sobre a localidade dos serviços especializados da rede de atendimento; registro e encaminhamento de denúncias aos órgãos competentes; registro de reclamações e elogios sobre os atendimentos prestados pelos serviços da rede de atendimento. É possível fazer a ligação de qualquer lugar do Brasil ou acionar o canal via chat no Whatsapp (61) 9610-0180. Ainda, em casos de emergência, é possível acionar a Brigada Militar, por meio do telefone 190.
