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Para os produtores da Ceasa, o dia começa quando a cidade dorme.

À noite, enquanto os portões se fecham para o movimento convencional, produtores chegam com caminhões carregados, organizam mercadorias e se preparam para uma nova rodada de vendas

Às 19h30 de domingo, quando o movimento convencional já diminuiu na Centrais de Abastecimento do Rio Grande do Sul (Ceasa/RS), começa outra rotina dentro do entreposto. Caminhões carregados de hortaliças, frutas e outros produtos chegam para abastecer os boxes e os pavilhões. Produtores organizam as mercadorias, conferem cargas e se preparam para as primeiras vendas da manhã seguinte. Para quem vive da agricultura familiar, a madrugada é apenas mais uma etapa de uma cadeia que acontece diariamente.

Os números ajudam a dimensionar o tamanho dessa operação, e também as oscilações recentes. Em 2022, foram comercializadas 561,2 mil toneladas de hortigranjeiros na Ceasa/RS. No ano seguinte, o volume caiu para 542,1 mil toneladas. Em 2024, após a enchente que atingiu o Rio Grande do Sul, o volume caiu de forma mais acentuada, para 452,8 mil toneladas. Já em 2025, o movimento voltou a crescer, chegando a 483 mil toneladas, uma alta de 6,7% em relação ao ano anterior.

A recuperação, porém, ainda não levou o entreposto ao nível de anos anteriores. O volume comercializado em 2025 ficou cerca de 14% abaixo do registrado em 2022. Em valores, a comercialização também recuou: passou de R$ 2,32 bilhões em 2022 para R$ 2,50 bilhões em 2023, caiu para R$ 2,28 bilhões em 2024 e fechou 2025 em R$ 2,13 bilhões.

É nesse cenário que produtores chegam ao entreposto no fim do domingo. Alguns viajam por horas, outros permanecem dias dentro da própria estrutura da Ceasa. A jornada começa antes do amanhecer, quando os primeiros compradores aparecem.

Para quem produz, a Ceasa mudou

Amauri Dalpiaz tem 51 anos e há 30 trabalha na Ceasa. Produtor de cenoura e alho, entre outros produtos, ele percorre cerca de duas horas e meia até chegar ao entreposto. “Duas horas e meia, três horas”, confirma. A rotina exige trabalho antes mesmo de o caminhão sair da propriedade: é preciso preparar a produção, organizar a carga e planejar a comercialização.

Amauri Dalpiaz, produtor que há 26 anos comercializa sua produção na Ceasa/RS, chega ao entreposto ainda no domingo para preparar as vendas da semana. Foto: Juliano Lannes

O produtor diz que decidiu vender diretamente na Ceasa depois de perceber que a relação com compradores variava conforme o preço. “A gente vendia pra outras, só que, quando não tinha preço, ninguém queria”, conta. Quando o produto estava valorizado, havia interesse. Quando o preço caía, os compradores desapareciam. A decisão de assumir a venda por conta própria veio ainda jovem: “Imagina, com 22 anos, nunca conheci Porto Alegre, se meter sozinho”, lembra.

Hoje, porém, ele afirma que o próprio mercado mudou. “É que a Ceasa é muito compromisso”, resume. “Tu não tem chuva, tu não tem sol, tu não tem frio, tem que encarar, porque o mercado não quer saber.” O desgaste acumulado em décadas de rotina aparece também quando fala do futuro: “Eu vou parar mesmo, é que é cansativo”, diz, reconhecendo que muitos colegas seguem na atividade mais por hábito do que por necessidade: “Tem pessoal que fica aqui pra fazer tradição, vai ficando, ficando, ficando.”

Na avaliação de Amauri, a enchente de 2024 agravou uma dificuldade que já vinha sendo percebida pelos produtores. Empresas que compravam dentro da Ceasa teriam encerrado atividades ou reduzido as compras, enquanto depósitos e atacadões passaram a ganhar espaço.

“Depois da enchente, o mercado piorou”, resume.

A percepção aparece também na fala de outros produtores ouvidos pela reportagem. O problema, segundo eles, não está apenas na quantidade de mercadoria vendida, mas na forma como os compradores passaram a se relacionar com o entreposto. Em vez de entrar na Ceasa, muitos buscam produtos diretamente em depósitos ou estabelecimentos atacadistas.

Gilmar Zucatti, que também acumula décadas de relação com a Ceasa, acompanha essa transformação junto com o filho, Gabriel. A venda direta ao consumidor e aos compradores do entreposto continua sendo uma alternativa para o produtor, mas, segundo ele, a concorrência de depósitos e atacadistas alterou o cenário.

Gilmar Ducatti, produtor com décadas de atuação na Ceasa/RS, acompanha as mudanças no mercado e nas formas de comercialização dentro do entreposto. Foto: Juliano Lannes

A enchente é um marco recorrente nas conversas. Para os produtores ouvidos, depois de 2024 ficou mais difícil manter o mesmo ritmo de comercialização. Alguns chegam a questionar por quanto tempo o modelo atual da agricultura familiar dentro da Ceasa continuará sendo viável.

A preocupação não significa que o movimento tenha acabado. Pelo contrário: os dados mostram que o volume comercializado voltou a crescer em 2025. O que mudou, segundo os trabalhadores, é a maneira como esse movimento acontece e quem participa dele.

O comércio muda, as histórias permanecem

Se para parte dos produtores a Ceasa perdeu força, para outros trabalhadores do local a percepção é um pouco diferente. 

Normelio Hartmann trabalha há 37 anos na Ceasa e acompanhou as mudanças no movimento do entreposto. Foto: Juliano Lannes

Um dos exemplos está no restaurante que funciona dentro do entreposto, o Herbet’s. Normelio Hartmann, funcionário do restaurante que há 37 anos trabalha na Ceasa, acompanhou diferentes fases do comércio e viu de perto a transformação do público.

Quando começou, conta, era comum que praticamente todos os compradores entrassem no espaço para fazer suas compras. Hoje, muitos chegam com parte dos produtos já adquirida antes mesmo da carga chegar ao pavilhão. Seja por telefone, WhatsApp ou outros meios. “Não é que não vende, vende diferente”, resume.

Funcionando de domingo a sexta-feira, o restaurante começa a preparar o atendimento ainda durante a madrugada. O funcionário chega por volta das 2h e inicia as atividades cerca de uma hora e meia depois. Conforme o movimento aumenta, o horário de funcionamento também pode se estender.

A experiência de quase quatro décadas também revela uma continuidade que passa de geração em geração. Há clientes que ele conhece há décadas e que continuam frequentando o local. Em alguns casos, os filhos e netos de antigos produtores passaram a ocupar o lugar dos pais e avós.

O movimento também acompanha as safras. Quando entram produtos como morango, mamão, melão, uva, pêssego e ameixa, a circulação aumenta e a rotina fica mais intensa. É uma Ceasa que continua funcionando durante todo o ano, mas em transformação.

A Ceasa reúne milhares de pessoas ligadas à cadeia de comercialização. Entre os registros informados pela administração estão 1.318 produtores, 309 empresas, 3.267 funcionários de empresas e 803 movimentadores de cargas autônomos.

A dimensão ajuda a entender por que, mesmo depois que as portas se fecham para o público, o entreposto não para. Para quem chega no domingo à noite, a feira do dia seguinte já começou.

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