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O preço de manter viva a tradição

Entre pilchas, alimentação, estrutura e transporte, integrantes de piquetes se preparam durante todo o ano para manter viva a tradição gaúcha durante a Semana Farroupilha

Para quem passa pelos piquetes durante a Semana Farroupilha, o cenário de confraternização, churrasco e música pode parecer concentrado apenas nos dias de setembro. Mas para quem está do outro lado, a preparação começa muito antes. Manter um espaço no Acampamento Farroupilha de Esteio, na Região Metropolitana de Porto Alegre, envolve gastos com estrutura, alimentação, transporte, vestimenta e muitas despesas que se acumulam ao longo do ano.

O Piquete Rancho Coração tem cerca de 10 anos. O patrão, Paulo Diego Pinheiro, 45 anos, acompanha o tradicionalismo desde criança e participa do acampamento desde o início. Os integrantes pagam uma mensalidade de R$ 40 durante o ano para participar. Além desse valor, há despesas com a montagem e com os deslocamentos. Paulo conta que, principalmente nos primeiros dias, os integrantes precisam fazer diversas viagens para buscar itens que ficam faltando.

“Nos primeiros dias é uma loucura, porque tu sai, precisa de alguma coisa. Muita coisa tu pega no vizinho. Um pouco de sal, um espeto. Mas tem muita coisa que tem que ir na rua”, relata.

FOTO: MATEUS GRECHI

A vestimenta também representa uma parcela dos gastos, embora as peças não sejam utilizadas exclusivamente durante a Semana Farroupilha. Uma camisa comemorativa custa cerca de R$ 200, enquanto uma camisa polo fica em torno de R$ 130. Apesar dos valores, Paulo explica que as peças podem ser utilizadas durante vários anos.

“Eu ainda tenho a minha primeira”, conta sobre a camisa que adquiriu há cerca de quatro anos.

Apesar dos valores, ele não enxerga a participação apenas como uma despesa. Para Paulo, os dias no acampamento representam um momento de descanso e reencontro.

“Eu costumo tirar férias. É um reset, sabe? Não é uma coisa que tu vai para uma praia, vai para uma viagem mais longa, mas é onde tu descansa, vê o pessoal, vê os amigos.”

Os dois filhos de Paulo também participam das atividades tradicionalistas. A família frequenta CTG, participa de danças e de atividades campeiras durante todo o ano.

“A tradição gaúcha é uma coisa que tu passa de pai pra filho”, afirma Paulo.

Um investimento que vai além de setembro

No Piquete Herdeiros do Pampa, Tais Medeiros, 50 anos, Janaina Reis, 51, e Fernanda Reis, 33, participam do acampamento há cerca de duas décadas. Elas acompanharam as mudanças do espaço, que no início era formado principalmente por barracas e tinha uma estrutura menor.

Para as integrantes, o valor da tradição não pode ser medido apenas em reais.

“A tradição, para mim, não é só o churrasco, não é só a bebida, não é só o chimarrão. É o acolhimento”, relata Taís. 

O acampamento também é visto como um espaço de reencontro. Pessoas que passam meses sem se ver voltam a se encontrar nesse momento, mantendo vínculos construídos ao longo de anos. 

Patrono do Herdeiros do Pampa há 12 anos, Luis Omar Azevedo Barreto, 54, participa dos festejos há 23. Natural de Dom Pedrito, na Fronteira, e morador de Esteio, ele acompanhou de perto a transformação do acampamento.

O aluguel do espaço custa R$ 540, além do transporte dos materiais que pode custar cerca de R$ 300, dependendo da distância, e aproximadamente R$ 150 pelo reboque.

A pilcha também entra na conta. Uma bombacha pode ser encontrada a partir de R$ 150, enquanto uma bota custa aproximadamente R$ 300. Um chapéu pode ficar entre R$ 90 e R$ 100, e outros itens também precisam ser considerados.

Para conseguir arcar com as despesas, a preparação começa meses antes. O grupo realiza ações para arrecadar dinheiro, como galetos e outras iniciativas entre os integrantes e apoiadores.

A experiência de Luis ajuda a explicar por que o investimento tem um significado que vai além do dinheiro. Ao lembrar da infância, ele conta que tinha poucos recursos para participar da tradição.

“Eu tinha uma bombacha e um chinelo”, relembra.

Hoje, ele conta que possui quatro ou cinco bombachas e três pares de botas. Para Luis, ter essas peças representa também a possibilidade de possuir aquilo que não pôde ter quando era criança.

Janaina Reis, Luis Osmar, Tais Medeiros e Fernanda Reis, durante o Acampamento Farroupilha. /FOTO: MATEUS GRECHI

As histórias dos integrantes dos piquetes mostram que o custo da Semana Farroupilha não começa quando setembro chega. Ele é construído durante todo o ano, por meio de mensalidades, eventos de arrecadação, compra de materiais, manutenção das estruturas e compra de peças que também são utilizadas em outras atividades tradicionalistas.

Entre os gastos com espaço, alimentação, transporte e pilchas, existe um valor que não aparece nos cálculos: as amizades construídas, o convívio entre gerações e a continuidade de uma cultura que atravessa o tempo. Para quem mantém os piquetes, é isso que faz o investimento ir além do dinheiro.

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