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Ana Affonso: entre a luta e as gurias

Em uma trajetória marcada pela intensidade, entre vitórias, derrotas e renúncias, ela fez da política uma extensão da sua vida

Em 2014, nos corredores da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, uma cena rompeu a previsibilidade do ambiente institucional. Entre sessões, votações e debates regimentais, uma deputada estadual circulava com uma bebê recém-nascida nos braços. Amamentava entre uma reunião e outra, improvisava cuidados no gabinete e seguia o ritmo do mandato enquanto lidava com um puerpério recente. A filha tinha apenas 10 dias de vida. A mãe era Ana Affonso.

Naquele período, a Assembleia não previa licença-maternidade para deputadas estaduais. A alternativa oferecida era uma licença-saúde. Ana recusou. “Eu não estou doente. Eu tive uma filha”, afirmou, ao transformar uma situação pessoal em disputa institucional. O caso acabou pressionando o Legislativo a rever normas internas e expôs uma lacuna até então naturalizada na política parlamentar.

Mais de uma década depois, a lembrança permanece na família como um marco de ruptura. Bruna, filha mais velha, resume o episódio com uma frase que mistura espanto e permanência: “A Sophia nasceu dentro da Assembleia”.

Acervo Pessoal/ Ana Affonso

A imagem não é apenas simbólica. Ela ajuda a compreender uma trajetória em que a separação entre vida pública e vida privada nunca se consolidou completamente. Em vez disso, ambas se sobrepõem continuamente na história de Ana Affonso, filha de exilados políticos, professora, sindicalista, vereadora de São Leopoldo por quatro mandatos, deputada estadual e mãe de duas filhas.

Filha da resistência

Ana nasceu em 1973, no Uruguai, em meio à ditadura militar. Filha de militantes de esquerda, cresceu em um ambiente em que a política não era uma abstração, mas uma experiência concreta de risco e deslocamento. Os pais, ambos sindicalistas, viviam sob perseguição. A mãe, professora e liderança política, e o pai, brasileiro, natural de Herval do Sul, se conheceram na militância.

Dois anos após seu nascimento, a família precisou deixar o Uruguai. A repressão tornara a permanência impossível.

“Na verdade, eles escolheram uma ditadura menos pior”, resume Ana, ao lembrar da decisão que levou a família ao Brasil.

A chegada a São Leopoldo ocorreu em condições de extrema precariedade. Sem estabilidade material, a família reconstruía a vida ao mesmo tempo em que mantinha viva uma formação política atravessada por ideias de esquerda, debates sobre desigualdade e experiências de resistência.

Com o tempo, a estrutura familiar também se transformou. O pai se afastou e a mãe passou a criar sozinha oito filhos. Essa figura materna se tornou referência central na trajetória de Ana.

“Ela enfrentou tudo e continuou sendo uma pessoa amorosa. A história dela é a minha maior referência”, afirma.

Primeiros passos em sala de aula

A entrada de Ana na vida pública começa pela educação. Incentivada pela mãe, ela faz o Magistério e ingressa na rede municipal de ensino ainda jovem. Aos 19 anos, já lecionava em uma escola da periferia de São Leopoldo. Foi na Feitoria que começou a construir uma relação mais direta com a política, ainda que fora dos espaços institucionais.

As colegas logo a incentivaram a disputar a direção da escola. Ela resistia, dizia ser jovem demais, mas acabou aceitando. Aos 23 anos, tornou-se diretora. Em seguida, assumiu funções de liderança sindical e coordenação de escolas da rede.

A política partidária ainda não fazia parte de um projeto estruturado quando, em 2004, surgiu o convite para disputar uma vaga na Câmara de Vereadores.

Ela hesitou.

“Bah, será?”, recorda.

Foi.

E venceu na primeira eleição.

A mulher que tinha vergonha de falar em público

Quem vê Ana Affonso hoje dificilmente imagina que ela já teve vergonha de discursar. A chegada ao Legislativo marcou também um processo de aprendizado acelerado e desilusão gradual. Ana relata que entrou na Câmara sem domínio dos códigos institucionais e com insegurança na fala pública.

“Eu tinha vergonha de falar em público”, diz.

O ambiente político exigiu adaptação rápida. A percepção inicial de uma política baseada em projetos coletivos foi substituída por uma leitura mais complexa das dinâmicas internas.

“Eu achava que era um projeto coletivo. Depois tu descobre que existem muitos interesses e, às vezes, mais adversários do teu lado do que no partido oponente.”

Esse processo levou à construção de uma espécie de proteção pessoal.

“Construí uma casca.”

Ainda assim, a adaptação não significou abandono da ideia de diálogo. Ao longo dos mandatos, ela passou a defender a necessidade de negociação constante.

“Tu não aprova nada sozinha. A política é uma ciência. Tu precisa aprender a dialogar com quem pensa diferente.”

A trajetória eleitoral de Ana é marcada por vitórias sucessivas em primeiras disputas: vereadora, reeleições, deputada estadual. Ainda assim, ela não recusa qualquer narrativa de excepcionalidade individual.

“Eu sempre soube que era uma exceção da regra.”

Foto: Amábile Correa/ Beta Redação

Essa leitura está diretamente ligada ao lugar das mulheres na política, que, segundo ela, enfrentam simultaneamente barreiras institucionais, culturais e domésticas.

“A mulher enfrenta o machismo dentro do partido, na sociedade e ainda carrega a casa, os filhos e a família.”

A intensidade com que se envolve na política também aparece como característica central de sua trajetória.

“Eu sou oito ou 80. Se eu pego uma coisa, eu pego mesmo.”

As gurias e o outro lado da Ana

Ao longo dos anos, Ana foi abrindo mão de pedaços de si.

Vida social. Relacionamentos. Capoeira. Flamenco. Casamento.

“Eu não tenho como ser tudo.”

As filhas, porém, permaneceram intocáveis.

“Delas eu não abro mão.”

Sophia, Bruna e Ana Affonso/ Acervo

A maternidade atravessa toda a construção da sua vida pública. Bruna tinha oito anos quando Ana iniciou a trajetória eleitoral. Ela lembra da primeira campanha como um período marcado por símbolos e curiosidade infantil.

“Eu sempre queria descobrir quem estava dentro da boneca”, diz Bruna, ao se referir a uma figura que representava a mãe nas atividades de campanha.

Anos depois, a filha passa a interpretar a trajetória da mãe com outro olhar, mais político e menos distante.

“Ela agarra junto.”

Quando ficou desempregada, decidiu vender caldinhos. Chegou em casa insegura sobre o projeto. A resposta da mãe foi imediata, prática.

“Ela me apoiou e falou: ‘Vamos fazer. Qualquer coisa tem umas panelas aqui’.”

Ela comprou insumos, emprestou equipamentos e acompanhou o início do trabalho.

“Ela sente junto. Quando a gente ganha, ela comemora junto. Quando sofre, ela sofre junto.”

Com o nascimento de Sophia, a experiência de maternidade se reorganiza em outro contexto. Ana tinha 40 anos, já era deputada estadual e vivia uma fase mais consolidada da vida política. Ao mesmo tempo, enfrentava uma condição mais solitária, sem rede de apoio e com perdas pessoais significativas.

Logo após o parto, recusou a licença-saúde oferecida pela Assembleia e voltou ao trabalho com 10 dias de pós-parto.

“Eu não estou doente. Eu tive uma filha.”

A rotina passou a incluir amamentação no plenário, deslocamentos com a bebê e presença constante da criança no ambiente institucional.

Ana Affonso amamentando Sophia/ Acervo

“Foi uma violência física e emocional muito grande”, afirma.

A exposição pública gerou reações diversas. Parte das críticas vinha da ideia de que a presença da bebê em espaços institucionais era inadequada. Outras leituras apontavam para a instrumentalização do episódio, argumento que Ana rejeita.

Para ela, tratava-se de uma disputa por direitos. A experiência com Sophia também se conecta a uma mudança mais ampla em sua atuação política. A pauta de direitos das mulheres passa a ocupar centralidade em sua agenda, especialmente diante do avanço de discursos misóginos e da violência política de gênero.

Ana cita como referências os casos de Dilma Rousseff e Marielle Franco, que, segundo ela, evidenciam a forma como mulheres são atacadas quando ocupam espaços de poder.

Ana Affonso e Dilma Rousseff/ Acervo

“Hoje a luta é contra algo muito maior”, afirma.

Sophia, hoje com 12 anos, já internaliza parte desse debate. Em um trabalho escolar sobre violência contra a mulher, utilizou como referência conteúdos acompanhados na rotina da mãe.

“A pesquisa inteira eu tirei do Instagram da minha mãe”, diz Sophia.

E quando fala da casa, Ana usa uma palavra recorrente: “Sagrado.”

É ali que se recompõe. “O meu espaço sagrado é a minha casa, eu e as gurias.”

O amor das filhas é o que a sustenta.

“O amor delas me cura, me salva dessa loucura toda.”

Mas desligar da política é difícil.

“Eu não consigo me desligar. Eu amo isso.”

A mulher que quer ensinar

Depois de mais de duas décadas de vida pública, Ana passa a projetar um novo tipo de atuação: a formação de outras mulheres para a política. A ideia é transformar experiência acumulada em ferramenta de apoio para novas candidaturas femininas.

“Ninguém me ensinou quando eu comecei”, diz.

E acrescenta uma leitura estrutural sobre isso: “Ninguém te ensina porque tu já é uma ameaça desde o começo.”

O objetivo, agora, é construir redes de apoio, formação e orientação para mulheres que desejam entrar na política.

“Eu quero ser o que o partido não foi para mim.”

Foto: Amábile Correa/ Beta Redação

Ao fim da trajetória até aqui, o que emerge não é apenas a biografia de uma parlamentar, mas a de uma mulher cuja vida foi continuamente atravessada por disputas públicas e privadas, e na qual maternidade e política não se organizam como campos separados.

São, antes, dimensões sobrepostas de uma mesma história.

E, como resume a própria lógica da família, talvez seja isso o mais constante:

“Se eu pude chegar, todas podem.”

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