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O último tango de Lionel Messi

Os deuses do futebol lembram que nem sempre quem dita o jogo são os roteiros clichês

(Foto: FIFA World Cup 2026™ Blog)

A campanha da Argentina na Copa do Mundo sugeria um roteiro épico. Em nenhuma das quatro fases de mata-mata anteriores à final, o time, regido por Messi, esteve à frente no placar quando o cronômetro marcava 90 minutos de partida. Ainda assim, aos trancos e barrancos, chegou à final da maior competição esportiva do planeta. Em todas as batalhas, Lionel era mais do que um esteio ou uma referência. Era o farol dos companheiros de time, que antes mesmo de ter a bola, já o procuravam para entregá-la.

A decisão pôs o gênio a uma prova mais difícil que todas as outras até então. A técnica, sóbria e disciplinada seleção da Espanha. Aos secadores dos hermanos, era preciso ter respeito. A escalada da Argentina até a final foi uma subida constante, sempre com um adversário melhor que o anterior, e sempre com um gostinho de “agora não escapa” – e sempre escapava. Já os espanhóis chegaram como atuais campeões europeus, olímpicos e com uma trajetória sólida como uma rocha. Um susto no começo da competição, num empate em 0 a 0 contra o heroico Cabo Verde, que cruzaria o caminho de Messi dias depois, foi o único tropeço deste time que joga como máquina.

Para quem gosta de histórias épicas, o roteiro estava desenhado. Messi, um gênio do esporte, aos 39 anos, na sua sexta Copa do Mundo, comandando uma tropa de guerreiros numa batalha contra uma fortaleza coletiva, um robocop, uma defesa que em todo o campeonato sofreu só um gol. O futebol, no entanto, é o mais imprevisível dos esportes. Por isso, talvez, seja o mais apaixonante também. A história que implorava para ser contada era a jornada do heroi mais aclamado de seu tempo. Mas o plot twist dos roteiristas do futebol nem sempre é clichê.

Quis o destino que a última decisão de Messi fosse no Metlife Stadium, em Nova Jersey, nos Estados Unidos. O local foi palco, há 10 anos, do fim da carreira de Lionel com a camisa da Argentina – num universo paralelo. No dia 26 de junho de 2016, o Chile venceu a Copa América pelo segundo ano seguido contra os argentinos. Quem vê a figura mítica de Messi, aclamado pelo povo de seu país após a Copa do Mundo de 2022, tem dificuldade de crer na profunda crise que o craque se meteu naquela ocasião. Após o fim daquele jogo, que encerrava a primeira década da história do camisa 10 pela seleção, Messi acumulava três fracassos em Copas do Mundo e mais três em Copas América. A frustração foi tanta que, diante dos microfones que se apontaram para ele como dedos indicadores, chegou a anunciar sua aposentadoria com a camisa azul e branca no calor do momento.

Ainda bem que o baixinho não cumpriu com sua palavra.

A história que se seguiu foi o extremo oposto da que se passou. O título da Copa América em 2021 e da Copa do Mundo em 2022 puseram Messi no mesmo altar de Diego Armando Maradona. A semifinal de 2026, inclusive, pôs a Inglaterra no caminho dos argentinos e invocou a presença de Don Diego que, 40 anos antes, contra o mesmo adversário, chocou o mundo com o gol mais antológico e com a malandragem mais perspicaz que a Copa do Mundo já viu. Um gol de placa e um gol de mão. Somente a intercessão divina de Maradona poderia explicar a virada no placar para 2 a 1, que colocou os hermanos na final com duas assistências de Messi. A história parecia se repetir.
La última de Leo

Desde a entrada em campo até o final do jogo, a história de Espanha x Argentina brincou com os desejos de quem torceu pelo roteiro épico de Lionel Messi. Enquanto o hino da Espanha era tocado por uma orquestra sem nenhum cântico, afinal, é uma música que só tem melodia, o hino argentino foi cantado a plenos pulmões por todos que o sabiam cantar, no Metlife Stadium e em todo o mundo. Até mesmo Messi, de postura costumeiramente tímida e contida, estava transformado pelo clima beligerante que tomava conta do ambiente, intensificado pelo “It’s time!”, bordão do famoso locutor do UFC, Bruce Buffer.

O primeiro tempo foi morno, estudado, com poucas chances de gol, mas com um claro domínio das ações por parte da Espanha, que liderou todas as estatísticas de ataque. Messi, como de costume, caminhava em campo. Parece impossível que alguém com essa postura esteja de fato envolvido com o jogo. Mas quem o viu nos últimos 20 anos de carreira sabe que não há ninguém em campo mais atento que ele. Lionel fez isso a vida inteira e, talvez por isso, nunca teve lesões e pôde chegar aos 39 jogando como se tivesse 20. Messi se guarda para os momentos decisivos, os quais ele identifica como ninguém. No primeiro tempo, no entanto, o domínio dos europeus fez com que ele ficasse encaixotado. Foi o segundo jogador com menos ações com a bola nos primeiros 45 minutos.

A segunda etapa parecia mais um replay da primeira. A Espanha seguia dominante no jogo, criando raras oportunidades diante de uma defesa bem postada da Argentina, e com Messi esperando a oportunidade de acabar com o jogo. Aos 35 minutos, chegou a ser o jogador com menos ações com a bola entre aqueles que iniciaram a partida. Estava apagado, mas sempre despertando o alerta do adversário. Aos 47 minutos, com o placar ainda zerado e a partida se encaminhando para a prorrogação, um lance mudou a história do jogo. O volante argentino Enzo Fernández, já com um cartão amarelo na conta, chegou atrasado numa dividida e levou o segundo cartão. A missão de Messi seria ainda mais difícil no tempo extra: 30 minutos para resistir à Fúria, como é apelidada a seleção espanhola, com 10 homens em campo. Ainda no último lance do tempo regulamentar, Dibu Martinez fez uma defesa espetacular, garantindo que a partida fosse até os 120 minutos.

Para reestruturar o time defensivamente, o técnico argentino Lionel Scaloni chamou para campo mais um zagueiro. É comum que em cenários de 10 contra 11, o treinador do time que está em inferioridade numérica sacrifique o jogador de ataque, que tem menos obrigações defensivas, o tirando de campo para adicionar um defensor. E Messi, como dito anteriormente, passa o jogo quase todo caminhando. Que time, jogando com um a menos, manteria em campo um jogador sem função defensiva? Só mesmo um time que tem Messi. O roteiro seguiu sendo escrito com cara de epopeia. O goleiro argentino, que mais parece um torcedor de barra brava em campo, fazia milagres. O gol da Espanha, marcado no começo da prorrogação, foi anulado por falta no zagueiro Otamendi. Parecia impossível vencer esse time que aparenta ser pior que todos, mas que não perde para ninguém.

Nem o maior fã de contos épicos e de Lionel Messi foi capaz de manter as esperanças no começo do segundo tempo da prorrogação. Ainda antes de fechar o primeiro dos últimos 15 minutos de jogo, Ferrán Torres foi a pedra que, depois de tanto bater, até que furou a defesa argentina. O roteiro cruel ainda ofereceu oportunidades ao time de Messi, que as desperdiçou, apesar dos coelhos tirados da cartola pelo mágico da equipe, como a cobrança de escanteio que encontrou Giovanni Simeone na área. Filho de Diego Simeone, contemporâneo de Messi no começo da carreira – tal qual o técnico e xará, Lionel Scaloni, com quem jogou junto a Copa de 2006 –, o jovem desperdiçou a chance com um chute por cima do gol que vai causar pesadelos nos argentinos por anos.

Os gritos de “olé” dos espanhóis nas arquibancadas, tal qual numa tourada, poderiam ser a última imagem de Messi atuando em campeonatos de alto nível. A imagem que fica, porém, é a do pós-jogo. A entidade Lionel Messi em lágrimas, olhando para a mais apaixonada das torcidas, percebendo que sua frustração não era páreo ao orgulho que aqueles milhares de argentinos sentiam por tê-lo visto, com seus próprios olhos, dançar o seu último tango.

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