Nas chamadas de vídeo com a minha avó, quase sempre chega um momento em que eu percebo que já não estamos exatamente tendo uma conversa. O nome dela é Susana, mas, para nossa família, ela é a abuela Susy. Às vezes, ela começa contando alguma coisa sobre a sua antiga casa, ou sobre alguém que passou por lá, sobre uma viagem que aconteceu há muitos anos. Depois, as frases vão se perdendo pelo caminho. Uma palavra puxa outra que não combina, uma lembrança se mistura com outra que não existiu, e logo estamos em algum lugar que só existe dentro da cabeça dela. Eu poderia tentar corrigir. Poderia perguntar de quem ela está falando ou explicar que aquilo não aconteceu daquele jeito, procurar alguma lógica no que ela diz. Mas eu não procuro. Eu concordo. Sorrio. Faço perguntas quando consigo. Entro no devaneio dela como quem entra numa sala sem saber exatamente onde fica a porta de saída.
À primeira vista, talvez pareça estranho concordar com algo que não faz sentido. Afinal, fui ensinada que conversar é trocar informações compreensíveis. Que as palavras precisam carregar uma mensagem e que, quando alguém fala algo sem pé nem cabeça, é nosso papel devolver a pessoa à realidade. Com a minha abuela, porém, comecei a entender que existem conversas que não precisam chegar a lugar nenhum. Quando ela me conta alguma coisa que não consigo acompanhar, eu mergulho de cabeça mesmo assim. Não porque acredito em tudo, mas porque reconheço nela alguma coisa que vai além das palavras.
Às vezes, enquanto ela fala, penso que talvez estejamos apenas trocando de lugar. Quando eu era criança e ainda estava aprendendo a falar, certamente minhas frases também deveriam parecer uma coleção de sons sem muito sentido para ela. Eu provavelmente apontava para alguma coisa, inventava palavras, misturava sílabas e esperava que me entendessem. E ela devia fazer o que eu faço agora: sorrir, concordar, perguntar alguma coisa e tentar descobrir o que eu estava querendo dizer. Hoje, os papéis parecem invertidos. Eu sou quem tenta acompanhar uma linguagem que já não é tão decifrável assim. E ela é quem fala como se ainda estivesse descobrindo como o mundo funciona.
Passei a vida acreditando que amar alguém é também saber o que essa pessoa quer dizer. Mas existem momentos em que basta apenas permanecer. Eu não preciso saber exatamente quem é a pessoa sobre quem ela está falando, nem de qual lugar veio aquela lembrança. Por trás daquele emaranhado de palavras, ainda existe a minha avó tentando chegar até mim. E talvez, quando eu era criança, fosse exatamente isso que eu fazia: tentava chegar até ela sem saber ainda como construir o caminho.
Porque talvez algumas formas de comunicação não dependam da memória, nem da lógica, nem sequer da linguagem. Talvez dependam apenas da vontade de continuar tentando alcançar alguém. Quando penso nisso, gosto de imaginar que, de alguma maneira, ainda somos aquelas duas pessoas de antes: uma criança aprendendo a falar e uma avó tentando entender seus primeiros sons. Só que agora a criança cresceu, e a avó esqueceu algumas palavras. Mesmo assim, diante da tela do celular, continuamos nos entendendo. E para mim, é isso que importa.
