A falta de socorristas de liderança tem impactado a organização de plantões da Associação de Resgate Metropolitano Anjos do Asfalto, grupo voluntário que atua em atendimentos pré-hospitalares em Gravataí e Cachoeirinha. Fundada em 2004, a instituição nasceu com o foco de salvar vidas em acidentes de trânsito e ocorrências em áreas consideradas de risco, conhecidas tecnicamente como “zonas quentes”, além de realizar cursos de formação para novos socorristas na região metropolitana.
Atualmente, o grupo conta com cerca de 170 voluntários. Segundo o condutor, socorrista 01 e coordenador da instituição, Pedro Scherer, 29 anos, a principal carência está nos cargos de socorristas “01” e “02”, responsáveis diretos pela liderança das equipes durante as ocorrências de rua. “Muitos integrantes permanecem no grupo por um período de um a dois anos, criam contatos importantes na área da saúde e acabam saindo”, comenta.
Outra dificuldade é que profissionais que já possuem formação na área médica supõem que, ao ingressar na organização, ocuparão funções de liderança imediatamente. Contudo, os critérios internos se baseiam estritamente em estudos, esforços, testes práticos e merecimento na própria organização.
Rotina
Os plantões operam em regime de no mínimo 12 horas. O cronograma de atendimento estende-se de sexta-feira à noite até quarta-feira. Nas quintas-feiras e durante o período da manhã de sexta-feira, as equipes realizam pausas e descansam. Para que uma operação de socorro aconteça nas ruas, é necessária a presença de ao menos três integrantes: um operador responsável pela comunicação via rádio, um condutor e um socorrista 01.
A organização das escalas ocorre por meio de um sistema online, onde a coordenação disponibiliza as datas e os horários disponíveis, e os voluntários selecionam os períodos em que podem trabalhar. Como leva tempo para formar novos líderes, a falta de efetivo sobrecarrega os membros antigos. Conforme a demanda, integrantes com maior nível de experiência assumem cargas horárias extras para suprir a ausência de lideranças e não deixar a comunidade desassistida.
Formação
A socorrista 01 e avaliadora Karina Pimentel, 21 anos, participa da instituição há três anos e concilia a rotina voluntária com seu trabalho profissional na área da saúde. Ela conta que ingressou no grupo para conhecer o setor de resgate e teve ali a sua primeira experiência prática. Pimentel ressalta que a formação para atuar em cargos superiores exige treinamento contínuo e exaustivo. “É bem puxado. São meses na sombra dos outros para aprender o melhor atendimento, para só então conseguir estar atendendo em grupo nas ruas”, relata.
Na estrutura dos Anjos do Asfalto, quem assume o nível 01 assume também a gestão de funções em uma ocorrência. É ela quem responde por toda a equipe. Nas ruas, ela é a liderança e a organização para o atendimento não fugir das situações cotidianas. Qualquer coisa que acontecer, ela terá que responder.
A seriedade da instituição reflete-se na exigência rigorosa quanto à vestimenta e postura dos voluntários, que devem vestir obrigatoriamente macacão oficial, coturno, touca no cabelo e camisa branca. O socorrista 01 atua como o olhar atento do plantão, buscando impedir que falhas operacionais aconteçam. A vivência intensa de situações de perigo nas ruas e nos treinamentos pesados acaba sendo levada para as residências dos voluntários. Os membros descrevem o ambiente interno como uma grande escola voltada ao aprendizado e ao crescimento técnico.
Atendimento
Durante os atendimentos, os voluntários atuam em situações específicas e possuem limitações operacionais rígidas. Apesar de ocorrerem casos em que os Anjos do Asfalto chegam antes do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), os socorristas voluntários não podem realizar todos os procedimentos médicos, remover vítimas em qualquer cenário ou administrar medicações.
De acordo com o coordenador Pedro Scherer, parte da população ainda confunde a atuação da instituição privada com a do serviço público de emergência, acreditando incorretamente que o grupo pode remover qualquer paciente da cena de um acidente. Em episódios de alta complexidade ou que ultrapassam o protocolo de Atendimento Pré-Hospitalar (APH), os próprios voluntários acionam o Samu por telefone para que o suporte médico avançado dê continuidade ao atendimento.
Essa confusão também se estende à percepção pública sobre o financiamento do grupo. Muitos moradores acreditam que a prefeitura custeia as operações ou que os socorristas recebem salários. A Associação de Resgate Metropolitano Anjos do Asfalto é uma organização privada sem fins lucrativos que se mantém viva por meio de doações de moradores, palestras, treinamentos e troca de serviços por itens básicos diários, como alimentação de plantão para a equipe. O grupo não possui suporte financeiro governamental.
Doações
Para garantir a sustentabilidade, a instituição aposta fortemente no marketing digital nas redes sociais. É por meio das plataformas na internet que o grupo divulga a rotina frequente de resgates e conquista a confiança de colaboradores locais. Os voluntários revelam que os veículos de imprensa tradicionais raramente procuram a associação para contar a história do projeto, entrando em contato em sua maioria apenas para solicitar fotos de acidentes e ocorrências específicas. Para expandir a arrecadação, a ONG fecha parcerias empresariais que estampam logotipos nas ambulâncias em troca de doações.
A busca por uma consolidação jurídica é uma pauta antiga. Embora os diálogos institucionais tenham se iniciado em 2011, quando o pedido de utilidade pública foi protocolado após sinalização da prefeitura da época, os voluntários ainda enfrentam entraves para obter o pleno reconhecimento de direitos e a integração formal que assegure estabilidade institucional. Sem repasses orçamentários fixos do município, a organização mantém suas atividades dependendo de doações.
A dedicação obstinada daqueles que enfrentam a falta de recursos e a sobrecarga de horários encontra justificativa na vocação. Scherer reitera que o esforço não visa o ganho financeiro. “O dinheiro não paga, amamos ajudar o próximo e ser socorristas voluntários. A melhor ajuda depois de tudo é receber o obrigado, um abraço aliviado de quem foi ajudado, dá uma satisfação enorme”, conclui.
*Foto: Anjos do Asfalto/Divulgação
