A fachada ainda guarda traços da autoridade que um dia habitou aquele espaço. As paredes de tijolos, as grades parecendo que vão desabar a qualquer momento e o silêncio que se estende pelo terreno de quase 2 mil metros quadrados são o retrato de um imóvel público que o Estado do Rio Grande do Sul simplesmente não usa, nem decide o que fazer. O antigo fórum de São Leopoldo, localizado em uma das principais avenidas da cidade, está vazio. Ou quase.

Por dentro do muro que separa o prédio da rua, um homem chamado Rafael fez um quarto e um banheiro improvisados. Ele diz que está ali há algum tempo, que procura impedir a entrada de outras pessoas e que, nos intervalos, restaura o que afirma ser uma obra da artista plástica Liana Brandão, uma das mais importantes artistas plásticas leopoldenses, a quem a própria Galeria Municipal de Arte da cidade homenageia com o nome.

Esta reportagem apurou que o prédio foi destinado oficialmente à Polícia Civil ainda em 2019, consta como patrimônio ativo do Estado do Rio Grande do Sul, tem matrícula em cartório e reúne múltiplos processos administrativos abertos. Além disso, a obra no interior do prédio já foi alvo de mobilização pública, vistorias técnicas e promessas de reforma. Todas, sem exceção, abandonadas. Ainda assim, o imóvel segue sem uso, sem reforma e sem prazo para mudar de situação.
O advogado Leandro Zambrano, que passou 15 anos dentro daquele prédio como estagiário e depois como advogado formado, resume em quatro palavras o que aconteceu com todos os planos.
“Vários planos. Nenhum vingou.” – Leandro Zambrano.
Um prédio, uma destinação e nenhum uso
O imóvel localizado no centro de São Leopoldo tem área de 1.866,15 m² e pertence ao Estado do Rio Grande do Sul. Chegou ao patrimônio estadual por doação feita pelo município, formalizada pela Escritura Pública nº 5.554, de 19 de fevereiro de 2002, em cumprimento a uma lei municipal dos anos 1960, a mesma doação que hoje divide responsabilidades entre as duas instâncias de governo quando o assunto é o abandono do lugar.
Segundo a ficha cadastral do patrimônio estadual consultada pela reportagem, o imóvel teve sua destinação alterada em 2019 para a Polícia Civil. A ideia, na época, era transformá-lo em uma central da corporação. O documento é oficial. A intenção, porém, nunca saiu do papel.
Em visita ao prédio, o sentimento de tristeza e desleixo é potencializado. Uma parte importante da história da cidade está ali, um local que sempre foi cheio de decisões e hoje está, literalmente, abandonado, sujo e se deteriorando com o tempo. Entre salas e espaços vazios, veem-se muito lixo, sujeira, roupas penduradas em árvores e um sentimento de medo.
Procurado pela reportagem, o delegado Eduardo Augusto de Moraes Hartz, chefe da 3ª Delegacia de Polícia Regional Metropolitana (DPRM), confirmou que o prédio não é adequado para o funcionamento de uma central. A avaliação interna aponta a necessidade de alto investimento em adaptações para que o espaço pudesse abrigar as atividades previstas. Como alternativa, chegaram a propor uma permuta com a iniciativa privada, mas a negociação também não avançou.

O que os documentos revelam
Os documentos obtidos por esta reportagem via Lei de Acesso à Informação (a ficha cadastral e a matrícula) mostram um histórico administrativo mais longo, e mais contraditório, do que o abandono aparente sugere.
A destinação à Polícia Civil tem data e número. Foi formalizada em 2019, em nome da Secretaria da Segurança Pública, e começou a valer em 8 de novembro daquele ano. O tipo de ocupação previsto está escrito na ficha: delegacia de polícia. A área afetada é a totalidade do terreno, 1.866,15 m². No campo de situação, uma única palavra: vigente. Quase sete anos depois, segue vigente e a delegacia nunca existiu.
Antes da Polícia Civil, o prédio já havia tido outro destino. A ficha registra que sediou a Escola Técnica Estadual Frederico Guilherme Schmidt, a mesma escola que faz divisa com o terreno. Quando o Estado vistoriou o imóvel, em 2017, o diretor da escola, Larry Felipe Steyer, declarou não saber de nada a respeito.
Os registros mostram que o Estado tem conhecimento dessa situação há quase uma década. Mesmo assim, o imóvel segue fechado, sem uso definido e sem sinais de recuperação.

A obra que o fórum deixou para trás
Quando o Judiciário local deixou o antigo fórum, a obra de Liana Brandão ficou. O painel, com cerca de quatro metros de largura por quase três de altura, foi esculpido e pintado diretamente na parede do hall de entrada do imóvel em 1982. Não era uma arte que se pudesse simplesmente embalar e levar. Era parte do prédio. Com o abandono, a infiltração das paredes e a ação da umidade foram destruindo o trabalho.
Em 2011, o avanço da deterioração do prédio já chamava atenção. Reportagens publicadas na época no Jornal VS alertaram o advogado Leandro Zambrano, que havia sido estagiário no antigo fórum e passou cerca de 15 anos frequentando o local. Preocupado com a situação, ele liderou uma mobilização para tentar preservar o patrimônio.
A iniciativa reuniu órgãos como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphae), o Centro Municipal de Cultura e a Coordenadoria Regional de Obras Públicas. Também foi encaminhado um pedido de providências ao governo do Estado. Naquele momento, chegou a ser anunciado um projeto de reforma do prédio e a restauração do painel artístico existente no local.
O clima era de otimismo. Em declaração publicada pelo Jornal VS, Zambrano afirmou:
“Nunca chegamos tão perto de uma situação de segurança sobre esta obra. Saímos daqui certos de que o projeto estará em boas mãos.”
Mas as promessas não se concretizaram. O projeto de reforma nunca saiu do papel e a restauração também não foi realizada.
Quinze anos depois, ao ser procurado pela reportagem em maio de 2026, Zambrano resumiu em poucas palavras o desfecho daquela mobilização:
“Ninguém mais. Já se foram.”

A realidade dentro do muro
São dois andares. O cheiro chega antes de tudo. Forte, de mofo e umidade encharcada, e não larga mais. A luz entra pelas frestas do telhado danificado. O chão é vasto de objetos aleatórios: cartas de Pokémon espalhadas, um pote de ração de cachorro, cadernos preenchidos, lembretes, camisas penduradas, frasco de perfume vazio, potes e recipientes reaproveitados, sacolas e sujeira acumulada nos cantos. No pátio, roupas estendidas nos galhos das árvores e plantas em vasos cuidadas por Rafael.
Entre o silêncio de um prédio abandonado e as pichações que cobrem boa parte das paredes, o antigo fórum passou a servir de abrigo para pessoas em situação de vulnerabilidade. Tudo isso revela que o imóvel não é mais um patrimônio público sem uso: é um refúgio para quem está pela cidade.
Por dentro, Rafael. O homem, que diz estudar psicologia por conta própria e faz uso de “umas droguinhas”, segundo ele, relatou à reportagem que organizou um espaço para viver dentro do prédio: um quarto e um banheiro improvisados. Afirmou também que tenta impedir que outras pessoas entrem no imóvel para evitar danos ou desordem, uma forma de vigilância informal sobre um patrimônio que o poder público não vigia.

Durante a conversa, Rafael mencionou estar realizando a restauração do painel de Liana Brandão. A equipe de reportagem entrou em contato com a artista para verificar a informação e obter mais detalhes sobre a obra, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.
“Eu cuido daqui. Não deixo ninguém entrar pra estragar.”
O local acabou se tornando de quem, por algum motivo, está nas ruas e faz do antigo fórum de São Leopoldo, na Avenida João Corrêa, um lugar para estar. Seja para fazer dele um “lar”, dadas as devidas proporções, ou para fazer registros do local que, segundo fontes, é mal-assombrado.
O contraste que a gestão pública não explica
Existe uma contradição difícil de ignorar nessa história. O Estado, que não conseguiu dar uso ao imóvel, não realizou as adaptações necessárias e não executou as medidas previstas em diferentes processos administrativos, é o mesmo que hoje precisa responder por uma ocupação irregular dentro de seu próprio patrimônio.
Outro aspecto chama atenção. Enquanto o poder público mantém o imóvel sem destinação efetiva, um morador de rua afirma que procura preservar o espaço e evitar danos ainda maiores ao que pode ser uma obra de arte de valor histórico esquecida no local. O painel que, ao longo dos anos, mobilizou advogados, arquitetos, gestores culturais e órgãos estaduais, sem que nenhuma solução fosse concretizada, pode estar sendo cuidado por alguém que ocupa o prédio por não ter outro lugar para viver.
A ocupação irregular não resolve o problema nem substitui a responsabilidade do poder público. No entanto, a situação evidencia as dificuldades enfrentadas pelo Estado na gestão e conservação de seu próprio patrimônio.
Na tentativa de reconstruir a história do antigo fórum e localizar registros fotográficos do prédio, a equipe de reportagem visitou o Museu Histórico Visconde de São Leopoldo. No local, foi informada de que eventuais imagens poderiam ser encontradas no acervo digital disponibilizado pela instituição, embora não houvesse garantia de que o prédio estivesse entre os cerca de 80 mil registros catalogados.
Ao acessar o site, as imagens disponíveis são exibidas em baixa resolução e com marca d’água. Para obter cópias em melhor qualidade, é necessário solicitar um orçamento junto ao museu.

Os documentos obtidos mostram que o abandono do antigo fórum não é uma situação recente nem desconhecida pelas autoridades. O Estado sabe da condição do imóvel há anos, mantém sua destinação oficial à Polícia Civil e acumula registros, vistorias e processos administrativos sobre o caso.
Porém, nada mudou. O prédio continua sem uso público, sem obras de recuperação e sem uma definição concreta para o futuro. Entre a destinação formal e a realidade, permanece um imóvel histórico que segue esperando por uma solução.
