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Segurança questionada: o histórico de incidentes da KTO Arena

Entre relatos de superlotação, calor extremo e falhas no atendimento, frequentadores questionam se a estrutura e os protocolos de segurança da casa de shows realmente acompanham o tamanho dos eventos realizados no local

Calor excessivo, aglomeração, falta de espaço e negligência no atendimento. Um lugar que foi palco de grandes artistas nacionais e internacionais, como Caetano Veloso e Lauryn Hill, também já foi cenário de relatos de experiências negativas.

Inaugurado em maio de 2006, o então Pepsi On Stage, em Porto Alegre, era utilizado em parceria com a marca de refrigerantes. Em junho de 2025, a plataforma de apostas esportivas KTO (Know The Odds) comprou o naming rights do espaço, que é quando uma empresa paga para dar nome a um estabelecimento por um período determinado, e a casa de shows passou a se chamar KTO Arena. Com capacidade para 5,5 mil pessoas, o ambiente possui um palco fixo e seis bares. Está localizado no bairro Anchieta, Porto Alegre, em frente ao Aeroporto Internacional Salgado Filho.

As plantas técnicas do espaço apontam medidas voltadas à segurança do público, incluindo rotas de evacuação, sinalização de emergência, equipamentos de combate a incêndio, acessibilidade e organização dos fluxos de circulação. O projeto também prevê áreas de apoio operacional e protocolos estruturais para atendimento em situações de emergência durante eventos de grande porte.

Mesmo com a troca de nome, o local segue sendo administrado pela Opinião Produtora, que também é responsável por outros locais na capital, como Bar Opinião, Auditório Araújo Vianna e Teatro de Câmara Túlio Piva.

Em 2022, o ainda Pepsi On Stage recebeu o show da cantora Luísa Sonza, que teve ingressos esgotados, e foi palco de uma tragédia. Alice Moraes, gaúcha e estudante de Medicina Veterinária de 27 anos, morreu após passar mal no local. O caso foi investigado pela Polícia Civil e encaminhado ao Ministério Público do Rio Grande do Sul, que passou a analisar ele sobre a hipótese de homicídio culposo após relatos de possíveis falhas e demora no atendimento prestado. Até o momento, porém, não há informações públicas sobre a conclusão definitiva do processo ou eventual responsabilização judicial dos envolvidos

O caso mobilizou amigos e familiares para além do luto. Em razão da tragédia, foi aprovada a Lei Alice de Moraes, que estabelece normas mais rígidas de segurança e atendimento de emergência em eventos de grande porte em Porto Alegre. O processo, segundo Juliana Carpes, amiga próxima da vítima, não foi simples.

“Enfrentamos alguns empresários que viam a lei como mais uma burocracia, já que exigia mais responsabilidade”, explica. A legislação foi construída a partir do estudo de leis de outras cidades com maior experiência em eventos de grande público, e contou com o apoio do vereador Cassiá Carpes, autor do projeto de lei aprovado pela Câmara Municipal de Porto Alegre e posteriormente sancionado pelo Executivo, dando origem à Lei nº 13.832/2024, conhecida como Lei Alice de Moraes.

Sancionada em 2024, a Lei nº 13.832 Alice de Moraes tornou obrigatória a presença de ambulância e equipe médica em eventos com público superior a mil pessoas na capital gaúcha. A norma também prevê que a estrutura de atendimento seja proporcional ao número estimado de participantes.

Familiares e amigos de Alice protestam em Porto Alegre. Foto: Jonathan Hecler/Agência RBS

A morte de Alice também deixou outras marcas. Com 27 cães adotados, a estudante é lembrada pelos que a conheciam por sua generosidade. “Nossa amiga Alice deixou um legado incrível”, disse Juliana. “Nada mais justo do que honrar a sua história.”

Quem estava perto da situação relata um atendimento marcado pelo descaso. Juliana conta que não estava presente no show naquela noite, mas seis amigos em comum estavam. Segundo ela, após a morte, a família não recebeu nenhum suporte da organização do evento. “Apenas uma ligação dias após, de um assessor da cantora Luísa Sonza, querendo saber como estava a família, porém não foi oferecido nenhum tipo de ajuda ou apoio mais efetivo”, relatou.

A amiga também detalhou as falhas operacionais daquela noite: a ambulância da empresa Transul estava estacionada e não podia se mover e não havia nenhuma sinalização visível indicando onde ela estava. Segundo Juliana Carpes, o atendimento foi tratado como se Alice estivesse embriagada — o que, de acordo com o laudo, não condiz com a realidade. “O laudo constou que ela havia consumido apenas três cervejas, o que seria impossível ocasionar a morte”, afirmou.

Para ela, independentemente da causa, o tratamento dispensado à jovem foi inadequado. “Mesmo se o motivo da morte fosse álcool ou até mesmo droga, o atendimento deveria ter sido com maior empatia e com as medidas básicas de saúde tomadas, o que não aconteceu.”

Entre os pontos que considera essenciais estão a sinalização clara do atendimento de emergência, ambulâncias que possam se deslocar (e não apenas tendas médicas estacionadas) e uma fiscalização mais rigorosa sobre a proporção entre público e estrutura de suporte. “Se pudermos fazer algo para que mais famílias não percam seus filhos em festas, nós, amigos e familiares, vamos nos dedicar para que isso não aconteça mais.”

Quem esteve no show corrobora o relato de superlotação: “Estava superlotado, muito calor e, por conta da plataforma do meio, a visão ficava bem prejudicada. Assisti ao show todo pela tela do celular”, relembra Júlia Cadore, que esteve presente no show de Luísa Sonza.

Outros casos

Em sua grande maioria, o espaço recebe shows de artistas solos e bandas, mas também sedia conferências, premiações, festas e lançamentos de produtos. Entre os eventos que marcaram a história da casa, destaca-se o Rap in Cena, considerado o maior evento de hip-hop do sul do país, com edições desde 2014.

Em 2019, o festival realizou duas edições no Pepsi On Stage, com line-ups compostos por grandes nomes do rap nacional: Djonga, BK, Orochi, Flora Matos, Sidoka e L7nnon estiveram entre as atrações do segundo semestre, enquanto a edição de junho reuniu Filipe Ret, Froid, Cynthia Luz e Recayd Mob, entre outros. Segundo o portal de notícias GZH, a edição de 2019 registrou mais de 7 mil pessoas no Pepsi On Stage, dado discrepante do que está no site oficial da Opinião Produtora, que aponta capacidade máxima de 5,5 mil pessoas. Uma diferença de 1,5 mil, que levanta questões sobre quem autoriza, quem fiscaliza e quem responde quando algo dá errado.

Rapper Filipe Ret na edição de 2019 do Rap In Cena. Foto: Bernardo Giesel/Divulgação

O local também já recebeu o show 30CITY, estrelado pelo rapper Matuê, que pouco tempo antes havia sido uma das atrações mais disputadas do Lollapalooza 2022. O evento havia sido originalmente marcado para o Bar Opinião, mas foi transferido para o Pepsi On Stage.

Os ingressos adquiridos para a data anterior seguiram válidos no novo espaço, todos destinados ao setor Pista. O volume de público cobrou seu preço. “Era calor sem comparação, nenhum outro show que fui tinha tanta gente passando mal. Fora a falta de ar constante que o ambiente me causou”, relatou João Cardoso, de 25 anos. Pedro Prates, de 24 anos, descreveu a mesma sensação: “Era tudo muito apertado, sem ventilação correta, me senti sufocado e acabei não curtindo direito o show”.

Outros relatos sugerem que o problema vai além do desconforto físico; passa também pela ausência de resposta da produção. Um usuário anônimo registrou no Reclame Aqui que foi forçado para o meio de uma roda aberta no show, onde percebeu algo saindo do bolso, pessoas sendo empurradas e seu copo, adquirido no local, sendo quebrado. “Informei tudo a uma pessoa da produção que disse não poder fazer nada, nem sugeriu uma revista na saída.”

Sem respostas

Procuradas pela reportagem, a Opinião Produtora, administradora do espaço, e a Transul, empresa responsável pelo atendimento de emergência na noite do show, não responderam até a publicação desta reportagem.

Se todos os protocolos de segurança previstos nas plantas técnicas do espaço são cumpridos na prática, é uma pergunta que ainda não tem resposta clara.

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