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Marcas de nascença

Entre cortes sem anestesia e o luto do silêncio, mulheres que buscaram o Hospital Centenário narram as cicatrizes invisíveis da violência obstétrica

“Está nascendo.” A frase foi repetida diversas vezes por uma gestante durante a madrugada de 8 de fevereiro de 2012, no Hospital Centenário, em São Leopoldo. Conforme seu relato, ninguém acreditou. Entre contrações cada vez mais intensas, ela afirma ter sido desacreditada ao avisar que sua filha estava prestes a nascer. Em vez de acolhimento, diz ter recebido ofensas, deboches e ameaças.

Horas depois, a bebê nasceu em estado grave. Pouco mais de 18 horas mais tarde, morreu.

Mais de uma década se passou desde aquela madrugada, mas as lembranças permanecem vivas.

“Até hoje eu escuto os gritos daquela médica”.

A história dela é uma entre diversas denúncias reunidas pela reportagem ao longo dos últimos meses. Mulheres atendidas na maternidade do Hospital Centenário entre 2012 e 2025 descrevem experiências marcadas por violência verbal, negligência, falhas assistenciais, complicações pós-parto e traumas que permanecem muito depois da alta hospitalar.

Os relatos envolvem profissionais diferentes, períodos distintos e situações variadas. Ainda assim, apresentam elementos semelhantes: a sensação de não serem ouvidas quando mais precisavam e a percepção de que suas dores, medos e sinais de alerta foram ignorados.

As denúncias surgem justamente em uma instituição que desempenha papel fundamental na assistência obstétrica da região.

Referência para 23 municípios do Vale do Rio dos Sinos, o Hospital Centenário concentra atendimentos de gestações de risco habitual e alto risco. Segundo a Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil), em 2023, mais de 2 mil bebês nasceram na instituição. Nos primeiros meses de 2025, o hospital já havia realizado 661 partos, registrado 856 internações no Centro Obstétrico e contabilizado 2.913 atendimentos de urgência obstétrica.

Por trás desses números, entretanto, estão histórias de mulheres que afirmam ter saído da maternidade carregando muito mais do que seus filhos nos braços.

O que é violência obstétrica?

Embora o termo ainda gere debates jurídicos e institucionais, violência obstétrica é utilizado para descrever situações em que mulheres sofrem agressões físicas, psicológicas, verbais ou negligência durante a gestação, o parto, o pós-parto ou situações de abortamento.

Ela pode se manifestar de diferentes formas: comentários humilhantes, desrespeito à autonomia da paciente, procedimentos realizados sem consentimento adequado, omissão de informações, demora injustificada na assistência ou tratamento desrespeitoso.

Na prática, muitas vezes a violência obstétrica não deixa marcas visíveis. Ela aparece na forma de medo, trauma, insegurança e lembranças que acompanham mulheres por anos.

Pré-natal: sinais de alerta

Para Eduarda Ferreira, de 26 anos, os problemas começaram antes mesmo do nascimento do filho. Durante a 25ª semana de gravidez, ela passou a sentir dores intensas e procurou atendimento médico. Acabou incluída em uma espécie de lista de espera para avaliação especializada.

A espera, que deveria durar no máximo 24 horas, durou quase um mês.

Somente 26 dias depois descobriu que estava com pedras nos rins. 

“Eu passava horas embaixo do chuveiro para tentar conseguir aguentar a dor”.

Após o diagnóstico, passou por um procedimento para tratar o problema. Pouco tempo depois, surgiram novas complicações. Eduarda afirma que perdeu líquido amniótico sem receber explicações claras sobre a causa da intercorrência. Diante do quadro, o parto precisou ser induzido.

O bebê nasceu em estado grave. A mãe relata que o filho sofreu uma parada cardíaca e chegou a apresentar saturação de apenas 28%, índice considerado extremamente crítico pela literatura médica. Enquanto acompanhava a situação do recém-nascido na UTI, Eduarda enfrentava outra batalha. Uma infecção generalizada provocada por complicações relacionadas ao duplo-J, tubo inserido no ureter para tratamento renal, agravou ainda mais seu estado de saúde.

A experiência foi tão traumática que influenciou uma decisão importante anos depois. Quando engravidou novamente, optou por realizar o parto em Santa Catarina. A escolha foi motivada pelo receio de reviver situações semelhantes.

“Lá, o atendimento foi mais do que excelente. Eles me cuidaram, faziam observação frequentemente e o parto do meu segundo filho foi totalmente diferente”.

Parto: nascimento da dor 

Se durante a gestação os relatos apontam falhas na assistência, é no momento do parto que as denúncias atingem seu ponto mais crítico.

O relato de Indianara Faedo, de 34 anos, ocorreu em 2024. Ela afirma que passou cerca de 20 dias internada no Hospital Centenário devido a um quadro de diabetes gestacional. Ao relembrar o período, faz questão de destacar o atendimento recebido da equipe de enfermagem.

“Da parte da enfermagem eu não tenho nada para reclamar. Foram maravilhosas comigo durante toda a internação”.

Conforme a narrativa de Indianara, após semanas de acompanhamento hospitalar, o parto foi programado para quando completasse 37 semanas de gestação. Na data marcada, foi informada de que passaria por uma cesariana. Ela conta que o médico responsável pelo procedimento era um profissional que não havia participado de seu acompanhamento durante os dias em que permaneceu internada.

“Era um médico que eu nunca tinha visto durante aqueles 20 dias”.

Antes da cirurgia, o médico conversou com ela e perguntou qual era sua preferência para o nascimento do bebê.

“Ele perguntou se eu preferia parto normal ou cesárea. Eu escolhi a cesárea”.

Em seguida, Indianara foi encaminhada ao centro cirúrgico acompanhada do marido, que aguardava para participar do nascimento do filho. Já na sala de cirurgia, a equipe iniciou os preparativos para a anestesia raquidiana. A paciente relata que, antes do início do procedimento, informou o peso que possuía quando foi internada, já que não havia sido pesada novamente durante as semanas de internação.

Pouco depois, recebeu a anestesia e foi posta na mesa cirúrgica. Enquanto aguardava a entrada do marido, a anestesista realizou os testes de sensibilidade para verificar se o bloqueio anestésico havia surtido efeito. Foi nesse momento que Indianara percebeu que algo não estava certo.

“Quando ela fez o teste, eu avisei que ainda estava sentindo”.

Apesar de ter informado que continuava percebendo os estímulos, situação em que os protocolos médicos recomendam aguardar o tempo de latência do fármaco ou reforçar o bloqueio, a cirurgia prosseguiu.

Momentos depois, veio o choque.

“Quando percebi, o médico já estava me cortando”.

A lembrança daquele instante continua viva.

“Eu senti o primeiro corte sem anestesia nenhuma”.

Assustada e sem compreender o que estava acontecendo, Indianara começou a gritar e a alertar a equipe médica.

“Eu falava que estava sentindo dor. Tentava avisar que alguma coisa estava errada”.

Em sua percepção, as queixas não foram imediatamente consideradas.

“O médico dizia que eu sentiria o toque, mas não a dor”.

A situação se tornou ainda mais desesperadora quando percebeu que a cirurgia continuava enquanto ela sentia o procedimento sendo realizado. A paciente relata que entrou em pânico.

“Eu comecei a me mexer, tentei levantar da maca. Foi um desespero”.

Em meio à movimentação da equipe, ouviu uma frase que jamais esqueceria.

“Só escutei alguém dizer que a anestesia ainda não tinha pegado”.

A partir daquele momento, a situação saiu completamente do seu controle. Ela recebeu anestesia geral e perdeu a consciência. Quando acordou, o nascimento do filho já havia acontecido.

“Eu não vi meu filho nascer”.

Além de perder aquele momento que havia imaginado durante toda a gestação, Indianara também ficou horas sem compreender exatamente o que tinha ocorrido dentro do centro cirúrgico. Do lado de fora, seu marido aguardava sem informações claras. De acordo com a entrevistada, ele permaneceu na porta do bloco cirúrgico e recebeu apenas a informação de que a paciente havia passado mal, motivo pelo qual não poderia acompanhar o parto.

Ao deixar a sala de recuperação, a emoção tomou conta.

“Eu só chorava”.

Quando conseguiu relatar ao companheiro o que havia acontecido, ele procurou a equipe para pedir explicações. A partir da orientação de uma enfermeira-chefe, registrou uma manifestação junto à Ouvidoria do hospital.

“Ela disse que tinha acontecido um erro grave e que aquilo precisava ser comunicado”.

As consequências emocionais apareceram rapidamente. Ainda durante a internação, Indianara recebeu acompanhamento psicológico devido ao trauma provocado pela experiência. A dona de casa detalha que bastava recordar os acontecimentos para reviver o medo.

“Toda vez que eu lembrava, começava a chorar. Parecia que eu estava vivendo tudo de novo”.

O que mais a incomoda, porém, é a ausência de respostas. Ela afirma que nenhum médico retornou posteriormente para explicar por que a cirurgia começou antes que a anestesia estivesse efetivamente funcionando ou para esclarecer o ocorrido.

“Em nenhum momento alguém veio conversar comigo para explicar o que deu errado”.

Apesar do trauma, Indianara destaca que o filho nasceu saudável e não sofreu complicações.

“Graças a Deus meu filho ficou bem”.

Ainda assim, a lembrança daquele dia continua distante da experiência que imaginava viver.

“O nascimento de um filho deveria ser uma das memórias mais felizes da vida de uma mãe. O que era para ser uma data inesquecível por um motivo bom acabou se tornando uma lembrança dolorosa que eu carrego até hoje”.

Pós-parto: eterna angústia

As denúncias não terminam com o nascimento dos bebês. Entre os relatos obtidos pela reportagem está o de uma paciente que prefere não se identificar e que deu à luz no Hospital Centenário em 2025. Conforme sua descrição, a experiência foi marcada por situações que começaram ainda antes da cirurgia e se estenderam por semanas após o nascimento da filha.

A mulher, que prefere não se identificar, conta que chegou ao hospital para uma cesariana agendada e afirma ter sido recebida com comentários debochados por parte de profissionais da equipe. Por estar na terceira gestação, diz ter ouvido piadas e frases que a fizeram se sentir humilhada.

“As enfermeiras riram da minha cara por ser meu terceiro filho. Ficavam dizendo: ‘Ai, mãezinha, agora aguenta, né?’. Falaram coisas horríveis”.

A cesariana foi realizada pela manhã, por volta das 9h. No entanto, os problemas continuaram ao longo do dia. Ela afirma que, durante o procedimento, começou a sentir dores intensas mesmo após a aplicação da anestesia.

“Depois que minha filha nasceu, comecei a sentir muita dor. Minha pressão baixou muito. Eu olhava para o monitor e via os números caindo. Falava para o meu marido que estava doendo e diziam que era coisa da minha cabeça”.

A entrevistada relata que o desconforto aumentou durante a realização da laqueadura, procedimento feito na sequência da cesárea.

“Isto estava gemendo de dor e só queria que tudo aquilo acabasse. Eles subiram em cima das minhas costelas para tirar minha filha, e aquilo me deu muita falta de ar e ânsia de vômito”.

Após o parto, as complicações persistiram. Poucas horas depois da cirurgia, por volta das 21h, uma nova situação teria agravado seu estado de saúde. A paciente conta que uma enfermeira do turno da noite insistiu para que ela tomasse banho, apesar de informar que não estava se sentindo bem.

“Eu disse que não queria levantar porque estava muito mal. Minha cabeça doía demais e eu sentia muita dor nos pontos. Mesmo assim, ela me obrigou a levantar”.

Sob a perspectiva da paciente, houve manipulação inadequada dos curativos e da região operada durante a movimentação, o que teria comprometido sua recuperação.

“Ela me levantou da cama sem cuidado nenhum. Depois disso eu só sangrava”.

Nos dias seguintes, a mulher passou a apresentar dores intensas, febre, secreção e sinais de infecção na cicatriz da cesariana. De acordo com seu relato, procurou atendimento diversas vezes, mas acredita que suas queixas não receberam a atenção necessária.

“A cicatriz começou a ficar escura, saía pus e eu tinha muita febre. Eu voltava ao hospital e me mandavam para casa. Teve um momento em que achei que fosse morrer”.

A paciente afirma que desenvolveu um seroma, um acúmulo de líquido que pode surgir abaixo da pele após procedimentos cirúrgicos, e que precisou lidar praticamente sozinha com as complicações pós-operatórias.

“Eu estava cansada de esperar que alguém fizesse alguma coisa. Acabei tomando remédios por conta própria porque sentia que ninguém estava me ajudando”.

As denúncias relacionadas ao atendimento, segundo ela, não se restringem ao parto. Durante a mesma gestação, quando estava com cerca de 27 semanas e internada para tratamento de uma pielonefrite, infecção bacteriana que afeta os rins, afirma ter vivido outro episódio grave. A mulher relata que recebeu uma medicação diretamente na veia e, pouco tempo depois, começou a apresentar sintomas severos.

“Eu acordei sem conseguir respirar direito. Sentia muito calafrio, meu rosto formigava e minha língua começou a inchar. As pessoas disseram que eu estava ficando roxa”.

Conforme o depoimento, outras pacientes internadas perceberam a gravidade da situação antes mesmo da chegada da equipe de enfermagem.

“As mulheres que estavam no quarto foram as primeiras a me socorrer. Minha mãe saiu correndo para chamar ajuda, mas as enfermeiras demoraram a aparecer”.

Ela afirma ainda que sua mãe tentou obter informações sobre o medicamento administrado, mas não recebeu esclarecimentos imediatos.

“Minha mãe perguntou o que tinham colocado no soro e ninguém quis explicar. No outro dia, quando ela fotografou a medicação para tentar entender o que tinha acontecido, disseram que ela estava tentando difamar a equipe”.

Ao relembrar a experiência, a paciente diz que a sensação predominante é de abandono e falta de acolhimento.

“A gente está ali vulnerável, com medo, dependendo dos profissionais. O que eu vivi foi extremamente traumático. Até hoje lembro de tudo com muita dor”.

Puerpério: de braços vazios

Se as marcas físicas tendem a cicatrizar, as emocionais permanecem por muito mais tempo.

Entre os relatos reunidos pela reportagem, um dos mais antigos e dolorosos é o que foi mencionado na abertura deste texto. Grávida da primeira filha e com um pré-natal que, segundo ela, transcorria sem qualquer intercorrência, uma mulher que também prefere não se identificar afirma ter vivido uma sequência de episódios que culminaram no momento mais triste de sua vida.

As primeiras contrações começaram por volta das 2h da manhã. Após aguardar que os intervalos diminuíssem, a gestante seguiu com o marido para o Hospital Centenário. Na pressa para sair de casa, a caderneta de acompanhamento acabou sendo esquecida.

Ao chegar à instituição, ela foi encaminhada para a sala de pré-parto enquanto o marido retornava para buscar os documentos. Sozinha e com dores cada vez mais intensas, permaneceu aguardando atendimento.

“Eu estava sentindo muita dor. A cada contração eu fechava as pernas porque tinha medo que minha filha nascesse ali mesmo”.

Quando finalmente foi examinada, a paciente afirma ter sido recebida de forma hostil por uma médica. Portadora de HIV, diz ter ouvido comentários ofensivos relacionados à sua condição de saúde, uma conduta que viola as diretrizes de humanização, sigilo e acolhimento universal do SUS para pacientes vivendo com o vírus.

“Ela perguntou por que eu não tinha avisado antes. Dizia que poderia ter me tocado sem saber. Falava tudo isso muito brava”.

A entrevistada recorda que, após constatar que o parto já estava avançado, a médica passou a fazer comentários que considera discriminatórios e humilhantes.

“Ela dizia: ‘Essa louca já está ganhando criança. O marido no mínimo pegou dela essa doença'”.

Levada para a sala de parto, o sofrimento não terminou. A paciente afirma que foi constantemente desacreditada ao informar que sentia a bebê nascer.

“Eu dizia que estava na hora. Falava várias vezes: ‘Ela está nascendo’. E a médica respondia que não, que criança não nascia tão rápido e que eu não sabia de nada”.

Durante o período expulsivo, a situação teria se tornado ainda mais agressiva.

“Eu fazia força e ela gritava comigo: ‘Cala essa boca e faz força'”.

Em determinado momento, enquanto tentava suportar a dor, a mulher diz ter feito uma oração em voz baixa.

“Eu só sussurrei: ‘Deus me ajuda’. E ela respondeu: ‘Aqui não tem Deus nenhum. Se essa criança não nascer agora eu vou arrancar ela a ferro'”.

Momentos depois, a bebê nasceu. Mas o silêncio que tomou conta da sala logo deu lugar ao desespero. A criança não chorou. Conforme o relato materno, a recém-nascida apresentava sinais de aspiração de mecônio, quando o bebê evacua dentro do útero devido ao sofrimento fetal e aspira as fezes para o pulmão, e sofreu uma parada cardiorrespiratória logo após o nascimento.

“Quando olhei para ela, estava toda verde. Eu comecei a chorar e perguntei por que minha filha não chorava”.

A bebê foi reanimada e encaminhada para a UTI neonatal. Horas mais tarde, os pais receberam a notícia de que o quadro era extremamente grave. Os médicos explicaram que a recém-nascida havia permanecido tempo excessivo em sofrimento fetal e que a aspiração havia comprometido severamente seus órgãos respiratórios.

Apesar dos esforços da equipe neonatal, o estado de saúde continuou se deteriorando ao longo do dia. A mãe recorda com emoção a primeira visita à filha.

“Meu marido pediu para eu cantar a música que cantava durante a gravidez. Quando ouviu minha voz, ela apertou meu dedo”.

Na segunda visita, poucas horas depois, percebeu que a situação havia piorado.

“Ela já estava pálida, sem força. Ali eu senti que estava perdendo a minha filha”.

A confirmação veio naquela mesma noite. Por volta da meia-noite, a bebê sofreu uma nova parada cardiorrespiratória e não resistiu. A mãe lembra do momento em que viu o marido entrar no quarto.

“Ele começou a chorar e eu entendi sem que ninguém precisasse dizer nada”.

Mesmo após a perda, a dor continuou sendo acompanhada por situações que ela considera desumanas. Segundo relata, inicialmente permaneceu internada em um quarto ao lado de outras mães acompanhadas de seus bebês recém-nascidos. Poucas horas depois, foi transferida para um quarto ocupado por uma paciente que havia sofrido um aborto.

Dias mais tarde, registrou uma reclamação formal sobre o atendimento recebido.

“Eu fiz uma declaração relatando tudo o que aconteceu. Mas acredito que não deu em nada”.

Hoje, mais de uma década depois, ela ainda se emociona ao recordar os acontecimentos. A entrevistada afirma que conviveu por muito tempo com crises de choro, lembranças recorrentes e sintomas relacionados ao estresse pós-traumático.

“Todas as noites eu ouvia os gritos daquela médica na minha cabeça”.

Ela conta que chegou a procurar ajuda psicológica para lidar com o luto e com as memórias do parto. Embora tenha reconstruído a vida e se tornado mãe novamente, afirma que a ausência da primeira filha continua presente.

“Hoje eu tenho dois filhos lindos, mas sinto falta de todos os planos que fiz para ela”.

Ao refletir sobre sua história, a mulher acredita que sua experiência não pode ser tratada como um caso isolado.

“Violência obstétrica é algo que ainda existe e precisa ser discutido. Eu saí daquele hospital sem minha filha nos braços. Essa é uma dor que nunca vai embora”.

O que diz o hospital

Procurada pela reportagem, a Fundação Hospital Centenário afirmou que é referência em alta complexidade para mais de 20 municípios do Vale do Rio dos Sinos e que conta com mais de 500 colaboradores atuando na assistência à população.

Em nota, a instituição destacou que leva a sério todos os relatos de pacientes e familiares e reforçou a importância de que eventuais reclamações sejam registradas pelos canais oficiais da Ouvidoria.

Segundo o hospital, todas as denúncias formalizadas são investigadas e podem resultar em medidas corretivas quando necessário. A instituição ressalta, no entanto, que a apuração de condutas individuais depende da formalização das ocorrências pelos próprios pacientes ou seus representantes legais. “Para a investigação de casos específicos, é indispensável a identificação e o registro formal da denúncia”, diz a nota.

Em relação aos casos que abrangem esta reportagem, a fundação alega ser necessário que a apuração de condutas individuais de profissionais de saúde, por imperativo ético, legal e processual, somente pode ser instaurada mediante denúncia formal pelos próprios pacientes ou por seus representantes legais. “Sem a identificação e a formalização da ocorrência, a instituição não dispõe dos elementos mínimos necessários para investigar casos específicos, independentemente da gestão em exercício à época”, afirma a nota.

O Hospital Centenário também informou que, a partir de 2025, passou a implementar um conjunto de ações voltadas à humanização da assistência. Entre as medidas, cita a oferta de suporte exclusivo para acompanhantes durante o tempo de espera, com o objetivo de reduzir a angústia de familiares.

A instituição afirma ainda ter retomado as visitas guiadas à maternidade para gestantes e acompanhantes, como forma de proporcionar maior segurança e familiaridade com o ambiente hospitalar antes do parto.

No campo assistencial, o hospital destaca a implementação de atendimento especializado para gestantes de alto risco e a previsão de implantação do Método Canguru, usado pelo governo federal, na maternidade.

Em relação à estrutura, informa que foram realizadas melhorias físicas no ambiente, incluindo reformas em áreas internas, pintura geral e adequações em banheiros e espaços de espera.

Outro ponto citado é a ampliação dos canais de comunicação com pacientes. Segundo a instituição, todos os leitos da maternidade passaram a contar com acesso direto à Ouvidoria, permitindo registro de manifestações que são integradas ao sistema do SUS e rastreadas internamente. “A Fundação Hospital Centenário reafirma seu compromisso com a melhoria contínua da assistência e com o respeito às pacientes em todas as etapas do ciclo gravídico-puerperal”, conclui a nota.

A direção reforça que o objetivo institucional é oferecer um atendimento seguro, humanizado e baseado em evidências científicas.

As marcas que ficam

Todos os dias, novas famílias atravessam as portas da maternidade do Hospital Centenário carregando expectativas, sonhos e planos para a chegada de um filho. Para muitas delas, o nascimento representa exatamente o que deveria ser: o início de uma nova história. Para outras, porém, a lembrança desse momento permanece associada à dor.

As denúncias reunidas nesta reportagem abrangem mais de uma década, envolvem diferentes profissionais, pacientes e contextos distintos. Ainda assim, revelam padrões semelhantes: relatos de agressões verbais, sensação de abandono, demora em decisões médicas, falhas na comunicação e dificuldades para obter respostas após situações traumáticas.

Enquanto milhares de bebês continuam nascendo todos os anos na principal maternidade pública da região, mães que viveram experiências marcadas pelo sofrimento seguem buscando algo que não encontraram quando mais precisavam: acolhimento, escuta e respostas.

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