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O artista que aponta o barco para o outro lado

Entre mapas, navios e madrugadas, Giovanni Bocchi Nejar construiu uma trajetória marcada pela busca de uma linguagem própria, pelo reconhecimento internacional e pela rotina intensa no ateliê de casa

A rotina de Giovanni Bocchi Nejar dificilmente cabe no horário comercial. Artista gaúcho, nascido em Porto Alegre e morador de Gramado, ele divide os dias entre encomendas, clientes, mensagens e desenhos que podem levar centenas de horas. A casa onde vive também funciona como ateliê e galeria. Enquanto visitantes escolhem mapas produzidos por ele, a família circula e o relógio marca o tempo ao fundo.

O contraste aparece logo na chegada. Do lado de fora, um Porsche estacionada chama atenção. Dentro, Giovanni recebe de camisa polo verde, bermuda jeans e chinelo. A simplicidade da cena ajuda a mostrar um artista que alcançou reconhecimento fora do país, mas mantém a criação misturada à rotina comum da casa.

A relação com o desenho começou cedo. Aos 13 anos, fez sua primeira grande exposição em um shopping e passou a vender quadros. A oportunidade surgiu por incentivo da avó. Aos 14, já atuava como ilustrador de uma revista.

A trajetória, porém, não foi linear. Aos 17 anos, interrompeu a carreira artística para entrar na faculdade. Mais tarde, percebeu que ganharia menos na área que havia escolhido estudar do que fazendo aquilo que amava. No último semestre, largou os estudos e voltou para a arte. Depois de já ter exposto em museus e galerias, voltou a apresentar trabalhos em feiras livres, briques e espaços de rua. Ele define o período como “um vale muito grande entre um pico e outro”.

Gramado teve papel importante nessa retomada. Em Porto Alegre, Giovanni expunha no Brique da Redenção, onde sentia que o trabalho não era valorizado, ou em shoppings, com aluguéis altos. Na Serra, encontrou na Rua Coberta um espaço de contato direto com turistas e compradores. Hoje, sem loja aberta ao público, recebe clientes no próprio ateliê.

Giovanni em seu ateliê na cidade de Gramado, retocando a produção de uma obra. (Foto: Maria Mattos / Beta Redação)

Mapas, navios e arquiteturas antigas se tornaram sua assinatura artística. As obras misturam referências históricas, construções monumentais e elementos imaginários. A escolha por esse estilo também foi uma decisão de carreira. Giovanni afirma que, se fizesse o que todos fazem, como retratos e desenhos de anime, dificilmente seria reconhecido. “Para onde todo mundo vai, eu aponto meu barco para o outro lado”, resume.

Essa busca por diferenciação aparece na técnica. Obras grandes podem levar de 100 a 200 horas. As menores, entre 40 e 50. Os formatos também variam: há desde trabalhos menores, próximos ao papel A3, até mapas de grandes dimensões, que podem chegar a 1,5 metro por 1 metro, feitos em papel francês de algodão para valorizar o detalhe do nanquim. O mapa de Gramado, feito para a prefeitura, mas não utilizado, consumiu cerca de 400 horas. Para construí-lo, Giovanni percorreu a cidade e desenhou prédio por prédio.

O reconhecimento internacional veio com exposições no Louvre, em Paris. Para Giovanni, a experiência mudou sua carreira e a forma como passou a ser visto no Brasil. Ele acredita que o artista brasileiro muitas vezes só recebe valorização nacional depois de ser validado fora do país.

Desde então, a rotina ficou ainda mais intensa. Giovanni acorda por volta das 11h, responde mensagens, recebe clientes, empacota pedidos e desenha encomendas. Muitas vezes, trabalha até as 5h da manhã. Segundo Mandy Branco, sua noiva, ele trabalha cerca de 12 a 14 horas por dia. A agenda, conta ela, está lotada até 2028.

A dedicação trouxe conquistas, mas também renúncias. Giovanni diz que mora em uma boa casa e tem um bom carro, mas não consegue fazer algo simples, como pegar um pão e ir até o laguinho alimentar os patos. Não por falta de vontade, mas por falta de tempo.

Para Mandy, o trabalho do noivo é “fenomenal”, mas ele nem sempre percebe a complexidade do que faz. Esse espanto também aparece na fala de Fernanda Burigo Martins, de Ciderópolis, em Santa Catarina. Dona de uma obra do artista, ela conta que as visitas costumam se aproximar do quadro para entender a técnica. Quando descobrem que é pontilhado e feito à mão, não acreditam.

Giovanni segurando a obra que realizou, “Monumentos e Mapa Mundi”. (Foto: Maria Mattos / Beta Redação)

A casa-ateliê confirma essa mistura entre obra, família e mercado. Enquanto clientes observam mapas, o filho fala sobre figurinhas. Mais tarde, uma senhora de bengala reclama, em tom de brincadeira, que o endereço da galeria estava errado, e procura um mapa de Harry Potter para o neto. Giovanni atende todos.

Mesmo depois do Louvre, ele não fala como alguém que chegou ao destino final. Quando imagina como sua obra será vista daqui a 100 anos, define-se como um artista atípico, atemporal e anacrônico. Entre os próximos sonhos, estão trabalhar para a Disney, especialmente com mapas de parques temáticos, e expor em outros grandes museus da Europa.

A trajetória de Giovanni revela a história de um artista que transformou a paciência em método e a diferença em caminho. Entre mapas, pontos, clientes e madrugadas, ele construiu uma linguagem própria sem abandonar Gramado. Antes da saída, entrega pequenas amostras de seus desenhos. Como se, depois de tantas horas dedicadas a criar mundos no papel, ainda fizesse questão de deixar um traço pelo caminho.

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