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O processo de aquilombamento de MC Neguinha

Criada em uma família alemã, a jovem encontrou no rap do Rio Grande do Sul a força para abandonar o alisamento e escolher a si mesma
Foto: Fábio Florisbal / Beta Redação

Aos 17 anos, Amanda Yasmin Schwarz Barcelos vive um cotidiano de traduções. Nascida em 4 de outubro, ela carrega no nome e na pele uma história de contrastes que moldou sua urgência artística. Adotada com apenas um mês de vida por uma família branca de ascendência alemã, Amanda cresceu em um ambiente de olhos claros que, embora lhe oferecesse afeto e privilégios, não lhe oferecia um espelho.

Durante anos, a identidade de Amanda foi uma página em branco escrita por mãos alheias. Em escolas particulares, cercada pela brancura absoluta, ela não foi ensinada a ser negra; foi ensinada a se camuflar. Aos 13 anos, em uma tentativa de se encaixar no padrão de “patizinha” que a cercava, começou a alisar o cabelo. Ela recorda o dia em que, sentindo-se “linda” com o cabelo liso, ouviu de um dos únicos colegas negros da sala que aquilo era “nada a ver” porque ela era negra. Na época, Amanda não entendeu. O racismo estrutural e a falta de referências em casa haviam criado uma miopia sobre sua própria ancestralidade.

O nascimento da MC Neguinha

O rap não surgiu na vida de Amanda por influência familiar ou tradição; surgiu como um susto. Ela sequer sabia que existiam batalhas de rima no Rio Grande do Sul. O ponto de virada aconteceu em uma tarde qualquer, na pista de skate da prefeitura de Sapucaia do Sul, quando viu uma gurizada escutando som e rimando.

Ao presenciar a Batalha da Prefa, ou da Sapuca, algo nela despertou. Quando subiu a esse palco pela primeira vez, em novembro de 2023, o nervosismo foi superado por uma sensação inédita: “O olho brilha”, ela descreve. Naquele momento, a Amanda “sem graça” começou a dar lugar à MC Neguinha. O rap foi o estilhaço que quebrou o espelho estrangeiro e entregou a ela o conceito de aquilombamento.

Para ela, aquilombar-se não é um termo acadêmico, é a prática de “ficar com a negada”, de priorizar o afeto preto e de entender que suas raízes precisam ser preservadas e afrontalizadas.

O rap não foi uma escolha de lazer, mas uma ferramenta de sobrevivência e empoderamento. Ao assumir o microfone como MC Neguinha, Amanda deixou de passar água no cabelo no banheiro da escola para escondê-lo. Ela encontrou nas “negronas” da cena, como Negamari, Aretha e Negra Jaque, as referências que o currículo escolar e a mesa de jantar alemã nunca lhe deram.

Foto: Fábio Florisbal / Beta Redação
Foto: Fábio Florisbal / Beta Redação

A batalha por respeito dentro e fora de casa

Ela utiliza o trabalho de jovem aprendiz na área de Segurança do Trabalho, onde transita entre planilhas de Excel e roupas executivas, como a base financeira para sua liberdade. Cada centavo de seu salário é investido no EP Fala Sério. Ela financia o próprio audiovisual e as produções, consciente de que, como mulher negra no Rio Grande do Sul – um estado que define como machista e racista -, ela precisa se provar 10 vezes mais.

O curso de Mecânica no Instituto Federal Sul-rio-grandense de Sapucaia do Sul (IFSul) pode não ser seu lugar de pertencimento, mas é o preço que ela paga para garantir que a MC Neguinha tenha voz. “De manhã o cara tá estudando qual é o tipo de parafuso… e de noite o cara tá rimando”, resume ela sobre o abismo entre sua obrigação e sua paixão.

Dentro de casa, a batalha é por respeito. Amanda enfrenta uma relação tensa com a madrasta, marcada por comentários racistas sobre suas tranças e tentativas de deslegitimar o rap como “gentinha de merda”. Ao ser acusada de apologia às drogas por um vídeo de rap, Amanda não recuou; ela criou um grupo com os pais, disse o que precisava e bloqueou o acesso deles à sua vida artística para proteger sua sanidade.

A MC Neguinha não é uma personagem de fuga, mas a identidade de fato de Amanda. É a jovem que sente o olho brilhar na primeira rima e que chora ao receber uma flor após o primeiro show no Groove Street Bar. Ela trocou a busca pela aprovação em ambientes de “olho claro” pela construção de um legado grandioso.

Se a Amanda do passado, que aos nove anos sonhava em ser professora de Matemática e casar com o Léo Santana, a visse hoje, talvez ficasse surpresa com as tranças e a rima ácida. Mas, acima de tudo, sentiria orgulho da mulher negra que aprendeu que, para ser ouvida em um mundo que tenta invisibilizá-la, ela precisava, primeiro, escolher a si mesma.

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