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Bares funcionam como espaços de pertencimento para comunidade LGBTQIAPN+ em Porto Alegre

Em Porto Alegre, bares e espaços voltados à comunidade LGBTQIAPN+ ocupam um papel que vai além do entretenimento. Para frequentadores e proprietários, esses locais funcionam também como ambientes de acolhimento, convivência e pertencimento, especialmente para pessoas que ainda selecionam cuidadosamente os espaços em que podem demonstrar afeto ou simplesmente se sentir seguras.

Segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o Brasil segue sendo o país que mais mata pessoas trans no mundo. O dossiê mais recente divulgado pela entidade registrou 80 assassinatos de pessoas trans e travestis em 2025. Já o Observatório de Mortes e Violências LGBTI+ no Brasil contabilizou 230 mortes violentas no mesmo período, incluindo homicídios e suicídios relacionados à LGBTfobia. Os levantamentos apontam que, apesar de avanços legais recentes, o preconceito ainda interfere diretamente na circulação, segurança e permanência dessa população em diferentes espaços sociais.

Criado em julho de 2019, o Freedom Pub surgiu da vontade de Fabiano Marinho e do companheiro e sócio, Fabio Lacerda, de abrir um espaço voltado ao público LGBTQIAPN+ na capital gaúcha. Segundo ele, a proposta do bar sempre esteve ligada ao acolhimento. “Temos o sonho de que cada cliente se sinta único no nosso cantinho”, afirma. O caraoquê, principal atração da casa, acabou ajudando a transformar o espaço em um ponto de encontro frequente entre clientes: “Muitas amizades e relacionamentos nasceram aqui”.

O dono do bar relata que, ao longo dos anos, clientes já procuraram o local depois de passarem por situações de desconforto ou insegurança em outros ambientes da cidade. Para ele, o principal diferencial do espaço está justamente na sensação de liberdade construída dentro do local. “As pessoas sentem que podem ser livres. Livres para amar, para cantar, para estar com os amigos”, afirma.

Cerveja com identidade

A relação entre pertencimento e segurança também aparece na história do NinKasi Bar, localizado na Cidade Baixa. O espaço foi criado pela cervejeira Roberta Pierry, fundadora da Cervejaria Sapatista. A marca surgiu em 2019, inicialmente a partir da produção artesanal de cerveja dentro do apartamento da empresária. O nome “Sapatista” faz referência à identidade de Roberta enquanto mulher lésbica e também à ideia de movimento coletivo.

Feminejas, grupo musical de sertanejo feminino voltado para o público LGBTQIAPN+ no NinKasi Bar – Foto: Beatriz Schleiniger/Beta Redação

Com o tempo, a cervejaria passou a carregar outro propósito: criar um espaço voltado especialmente para mulheres lésbicas e sapatonas. “Eu fui percebendo a falta de um espaço seguro para mulheres beberem cerveja e se divertirem”, explica Roberta. Segundo ela, a necessidade desses espaços ainda está diretamente relacionada às experiências de preconceito vividas pela comunidade LGBTQIAPN+. “Não é qualquer espaço em que a gente consegue andar de mãos dadas ou beijar a companheira”, afirma.

A percepção aparece também entre as pessoas que frequentam o bar. Alessandra da Silveira, 46 anos, e Simone da Fonseca, 53 anos, iniciaram um relacionamento em 3 de abril deste ano e afirmam que espaços como o NinKasi oferecem algo que vai além do lazer. “A gente se sente livre, pode ser quem a gente é e ver pessoas sendo felizes tão livremente também”, diz Alessandra. Para Simone, a existência desses ambientes ainda é necessária. “Tem muitos lugares como este que estão fechando e, na verdade, eu acho que deveriam estar abrindo, para que cada vez mais as pessoas possam viver suas vidas com segurança”, afirma.

Alessandra da Silveira e Simone da Fonseca trocam carinho durante a noite no NinKasi Bar, na Cidade Baixa. Para estas frequentadoras, este espaço oferece segurança para demonstrações de afeto sem medo de preconceito – Foto: Beatriz Schleiniger/Beta Redação

Amanda Gomes, 28 anos, e Rosane Lemos, 46 anos, estão juntas há seis meses e relatam experiências semelhantes. Amanda conta que ainda enfrenta situações de preconceito no ambiente de trabalho. “Ver que tem um ambiente onde eu posso me sentir bem já me deixa feliz”, diz. Rosane lembra que o primeiro beijo do casal aconteceu longe dos olhares de outras pessoas. “Nosso primeiro beijo foi em uma festa totalmente hétero. Nós nos beijamos escondidas no banheiro. Agora estar aqui e poder se sentir livre e confortável significa muito”, afirma.

Amanda Gomes e Rosane Lemos no NinKasi Bar, espaço criado com protagonismo feminino e lésbico na capital gaúcha –
Foto: Beatriz Schleiniger/Beta Redação

Roberta afirma que o NinKasi surgiu com a proposta de ser um ambiente “de nós para nós”. Ainda assim, ela relata que enfrentou resistência principalmente dentro do mercado cervejeiro, tradicionalmente masculino. Quando a Sapatista começou a receber premiações nacionais, a dona recebeu perguntas preconceituosas sobre o seu desempenho: “Alguns caras até perguntaram qual era o homem por trás da produção”, diz Roberta.

Além da discriminação, os proprietários dos bares também relatam dificuldades financeiras para manter espaços independentes voltados à comunidade LGBTQIAPN+. Mesmo assim, tanto Fabiano quanto Roberta afirmam que esses ambientes continuam necessários justamente pelo impacto que causam na vida dos frequentadores. “Lugares assim sempre serão necessários para que todos se sintam especiais, confortáveis e respeitados”, afirma o dono do Freedom Pub.

Em uma cidade onde ainda há quem pense duas vezes antes de dar as mãos ou demonstrar afeto em público, espaços como o Freedom Pub e o NinKasi Bar cumprem um papel que vai além do entretenimento. Entre caraoquês, encontros e conversas, esses locais ajudam a construir redes de convivência e pertencimento para uma comunidade que, apesar dos avanços conquistados, ainda enfrenta desafios cotidianos.

Significado

A sigla LGBTQIAPN+ tem sido indicada em cartilhas e documentos públicos como a mais adequada para acolher a diversidade. Desde o Ministério da Saúde até a Justiça do Trabalho e o Ministério Público adotaram essa nomenclatura. Algumas letras representam orientações afetivo-sexuais, como L (lésbicas), G (gays), B (bissexuais), A (assexuais) e P (pansexuais). Já outras letras indicam identidades de gênero, como T (transgêneros), Q (queer), I (intersexo) e N (não-binárie).

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