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Caminho guiado em quatro patas

Treinamento especializado transforma cães em guias e amplia a autonomia de pessoas com deficiência visual, mas acesso a esse recurso ainda é limitado no Brasil
Uma mulher de cabelos claros e óculos escuros caminha ao lado de um cão-guia preto em uma rua residencial. Ela segura o arreio de trabalho enquanto o cão segue à sua frente, guiando-a durante a travessia entre a calçada e a rua de paralelepípedos. Ao redor, há casas cercadas, carros estacionados e postes de iluminação. A cena mostra a atuação do cão-guia auxiliando a mobilidade e a autonomia da pessoa com deficiência visual em um ambiente urbano.

Quando Olga Solange Herval Souza pega o arreio e chama o labrador Kobe, ele vira outro animal. Um segundo antes, era o cachorro da casa: osso de brinquedo na boca, rabo balançando, focinho enfiado na direção da visita. No instante em que o equipamento que identifica o cão-guia é colocado, ele para e aguarda. “Se eu coloco o arreio, ele já sabe o que vem”, explica Olga. O que vem é trabalho. Há dois anos, Kobe é a visão que ela não tem.

Moradora do bairro Cavalhada, na Zona Sul de Porto Alegre, a professora aposentada, de 66 anos, nasceu com cegueira e há mais de duas décadas divide seus caminhos com cães-guia. Em 2003, recebeu Misty, uma labradora treinada pela Guide Foundation for the Blind, nos Estados Unidos, após três anos na lista de espera. Depois dela, veio Darwin, um flat coat retriever doado pelo Instituto Federal Catarinense (IFC), que ficou ao seu lado por anos, se aposentou e faleceu no início deste ano. Desde 2024, seu companheiro é Kobe, de cinco anos, que também veio do IFC.

Durante o passeio pelo bairro, o labrador caminha à esquerda de Olga, ajustando o passo ao ritmo dela. Perto de obstáculos, como degraus ou buracos, desacelera levemente. Pela guia, a professora percebe o aviso. “Eu tenho que compreender o que ele está me dizendo com seu corpo”, explica.

“É uma relação de amor e cumplicidade, porque ele me cuida e eu cuido dele”,conta.

Com ele, Olga vai ao mercado, farmácia, shopping, restaurantes e utiliza transporte público. Raramente sai sem ele, abre exceção para lugares desconfortáveis ao animal, como shows.

No colete bordado por Olga, um aviso chama atenção: “cão-guia, não distraia, está trabalhando”. Com o equipamento, Kobe precisa manter o foco, já que distrações podem comprometer a condução. Os comandos são simples: “em frente”, “direita”, “esquerda”, “para”, “segue” e “volta”. Fora da guia, volta a ser “filho” e “amor”, apelidos usados por Olga dentro de casa.

Preparação

Antes de chegar até Olga, Kobe passou quase dois anos sendo treinado e acompanhado por várias pessoas. Uma delas foi a coordenadora de desenvolvimento de filhotes, Amanda Massucato, do Centro de Formação de Treinadores e Instrutores de Cães-Guia, vinculado ao IFC, em Camboriú (SC). O local é uma das primeiras iniciativas públicas do país voltadas à formação de treinadores e à entrega de cães de serviço. Foi Amanda quem deu nome ao labrador ainda nos primeiros meses de vida. “Ele era meu filhote preferido daquela ninhada e deu bastante trabalho para as famílias que socializaram ele”, lembra, bem-humorada

Um cão preto de porte médio está deitado sobre uma cama forrada com uma manta rosa, dentro de uma casa. Ele segura um brinquedo vermelho na boca enquanto abana o rabo. Ao redor dele há outros brinquedos espalhados sobre a cama. O ambiente tem piso de madeira e uma parede clara ao fundo.
Quando não está com seu equipamento de trabalho, o labrador adora brincar e chamar a atenção. Foto: Taiana Souza

No IFC, os cães nascem na instituição e passam os primeiros meses aos cuidados de Amanda e sua equipe, onde iniciam a preparação. “Apresentamos diferentes texturas, pessoas, sons e ambientes de forma gradual”, explica. Depois, uma avaliação comportamental define se estão aptos para seguir o treinamento. Sinais de agressividade ou medo intenso são fatores que desqualificam o cão. Os aprovados vão para famílias socializadoras por até 15 meses, com acompanhamento e custeio da instituição. “O papel do socializador é mostrar o mundo para o cão e inclui-lo na rotina”, resume a treinadora.

Após essa fase, o animal retorna para o treinamento específico que, além de comandos, envolve caminhar em linha reta, desviar de obstáculos, parar antes de atravessar ruas, localizar destinos como farmácias, elevadores e portas de ônibus. O aprendizado mais sofisticado, porém, Amanda chama de “desobediência inteligente”, a capacidade do cachorro de recusar uma ordem quando representa perigo. “A pessoa dá o comando ‘em frente’ na calçada. Mas o cão está vendo que tem um carro vindo, então ele não vai”, explica.

Fechado o ciclo de treinamento, começa a adaptação entre cão e usuário. Porte, ritmo de caminhada, rotina e moradia são avaliados antes da definição do tutor. Como Kobe não se adaptou à primeira tutora indicada, Olga foi chamada, que por já depender do cão-guia, tinha prioridade na fila de espera. Foi até Camboriú, passou três semanas no Centro criando vínculos e se adaptando com o labrador.

Uma vez formado, a parceria dura até a aposentadoria do cão, que ocorre entre os oito e dez anos de trabalho. Quando isso acontece, normalmente o animal é adotado oficialmente pelo usuário e segue vivendo com ele, como foi com Darwin, segundo cão de Olga.

Uma mulher de cabelos claros e óculos escuros caminha por uma calçada de pedras acompanhada por um cão-guia preto, que segue à sua esquerda. Ela segura o arreio do animal enquanto percorre uma área arborizada. Ao redor, há gramado, árvores de grande porte e um parque ao ar livre.
Kobe sinaliza meios-fios, degraus e desníveis ao parar por uns segundos diante desses obstáculos. Foto: Taiana Souza

Investimento alto

O processo de formação de um cão-guia é longo, rigoroso e caro devido aos altos custos com alimentação, cuidados veterinários e manutenção da estrutura necessária para o treinamento dos animais. Segundo Amanda, um cão formado custa em torno de R$100 mil, considerando todas as etapas envolvidas desde o nascimento até a entrega. O valor elevado também inclui equipes multidisciplinares e deslocamentos.

Esse investimento ajuda a explicar por que a presença de cães-guia ainda é rara nas ruas brasileiras. Dados preliminares do Censo do IBGE 2022 apontam que cerca de 7,9 milhões de pessoas vivem com alguma limitação visual no país. Em contrapartida, há apenas 220 cães-guia em atividade, segundo estimativas da União Nacional
de Usuários de Cães-Guia.

Os interessados em ter um cão-guia precisam se inscrever através das instituições formadoras e cumprir vários requisitos. Em 2014, o governo federal criou o Cadastro Nacional de Candidatos à Utilização de Cães-Guia para organizar essa demanda, mas não há links ativos para realizar o cadastro em portais públicos atualmente. Hoje, os principais centros públicos de formação em funcionamento estão no IFC, em Camboriú, e no Instituto Federal Goiano, em Urutaí (GO). No país, o acesso a cães-guia ocorre por meio de Instituições especializadas, que treinam e entregam os animais gratuitamente às pessoas com deficiência visual.

Uma mulher de cabelos claros e óculos escuros está sobre uma calçada de pedras em uma área verde. A mulher veste uma calça e uma blusa em tons escuros e está curvada em direção ao seu cão-guia. Ela utiliza as duas mãos para retirar o arreio de trabalho do labrador preto, que permanece parado à sua frente. O cão está com a boca levemente aberta. Ao lado do caminho há gramado, e a cena registra o momento de transição entre o trabalho do cão-guia e o período de descanso.
Há dois anos, Kobe guia Olga em trajetos pela cidade, como idas ao mercado, parques e restaurantes. Foto: Taiana Souza

Voluntariado

Além dos centros públicos, ONGs também passaram a atuar na formação de cães-guia. É o caso do Instituto Iris Cão-Guia, sediado em São Paulo. Desde 2002, o Iris entregou 52 cães e hoje mantém mais de 3 mil pessoas cadastradas em sua lista de espera. Segundo a organização, a procura é diária, mas atualmente apenas dois cães estão em treinamento avançado e outros quatro iniciarão a fase de socialização este ano.

No Rio Grande do Sul, a expansão do projeto ocorre por meio do Cão-Guia Gaúcho, iniciativa vinculada ao Iris e coordenada pela servidora pública Daiane Ferreira. Ela perdeu totalmente a visão há cerca de quatro anos e passou a atuar como voluntária na causa. “Quando comecei a pesquisar sobre cães-guia, descobri o quão difícil era conseguir um no Brasil”, relata. Para ela, o principal obstáculo ainda é a falta de investimento. “Tem demanda, treinadores se especializando e pessoas interessadas, mas manter um projeto assim custa caro”.

Apesar de rara, a parceria entre cãesguia e pessoas com deficiência visual é capaz de transformar rotinas, ampliar autonomias e devolver segurança a quem vive a cidade sem enxergá-la. A exemplo de Olga, que tem no vínculo construído diariamente com Kobe, mais independência e a confiança de um companheiro de pelos escuros e quatro patas para guiar seus passos.

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