No número 327 da Rua Dom Carlos no bairro Primor, em Sapucaia do Sul, o som de violões, vozes e conversas atravessa gerações há mais de quatro décadas. A Sociedade Espírita Dom Tomé é mais do que um espaço de estudos religiosos: é um ponto de encontro onde crianças crescem, famílias se formam e laços de amizade e solidariedade se fortalecem. Fundada em 1982, por João Ferreira, a instituição transformou-se em uma referência afetiva para dezenas de pessoas que encontram ali acolhimento, aprendizado e pertencimento.
Na Dom Tomé, a programação semanal inclui estudos sistematizados da doutrina espírita nas terças e sábados, com base nas cinco obras fundamentais: O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Livro dos Espíritos, A Gênese, O Céu e o Inferno e O Livro dos Médiuns. As reuniões doutrinárias acontecem às terças à tarde e às quintas à noite, reunindo entre 15 e 20 frequentadores cada.

A música ocupa um lugar central na dinâmica da casa. O Grupo Dom, conjunto musical da própria sociedade, embala os encontros com canções de cunho doutrinário. É ao som desse repertório, que inclui composições do Evangelizar e Amar, que crianças e jovens iniciam as atividades da área da infância e juventude. São cerca de 40 participantes, de 0 a 21 anos, divididos por faixas etárias em ciclos, onde estudam temas ligados aos ensinamentos de Jesus, passando por noções de ética, caridade, reencarnação e desencarne. As atividades têm caráter lúdico, com dinâmicas e brincadeiras que ajudam a transmitir os conteúdos de forma acessível tanto para as crianças quanto para os adultos.

É comum que os pais levem os filhos, o que contribui para um ambiente familiar. Aos sábados, uma média de 10 pais frequentam a área da família, e muitas crianças já crescem inseridas nos ciclos da instituição desde cedo. A casa também se destaca como espaço de inclusão: pessoas não alfabetizadas participam das atividades e recebem apoio dos demais frequentadores, sem qualquer distinção.
Para Grasiele Souza dos Santos, vice-presidente e diretora da área da infância e juventude, a Dom Tomé é parte inseparável de sua vida. Ela frequenta o local desde 2002 e o define, em tom pessoal, como “a nossa casinha de amor”. “É a minha segunda casa. É ali que tenho suporte para seguir, é onde aprendo, onde encontro consolo para as dificuldades. A gente entende que não está sozinho”, diz. Ao falar da instituição, Grasiele se refere aos frequentadores e voluntários como “a família Dom Tomé”, expressão que resume o sentimento de pertencimento cultivado ao longo dos anos.

A casa também mantém um programa social que auxilia famílias com cestas básicas mensais. Grasiele ressalta que muitas dessas famílias participam dos estudos e passam a integrar o convívio da sociedade. “Elas estão ali estudando com a gente. Se precisarem de outro auxílio, a gente ajuda, tanto na parte material quanto na espiritual”, explica.

O Brasil é o país com a maior população espírita do mundo. Segundo o censo do IBGE, a doutrina possui cerca de 3,2 milhões de adeptos, o equivalente a 1,8% da população. A maior concentração está na região Sudeste, e o Rio de Janeiro é o estado com a maior proporção de adeptos, representando 3,5% dos habitantes.
Com 41 trabalhadores voluntários, a Sociedade Espírita Dom Tomé segue funcionando na mesma sede onde iniciou suas atividades. Entre estudos, música, atividades para crianças e ações solidárias, a instituição construiu uma trajetória marcada pelo acolhimento e pelo senso de comunidade, características que ajudam a explicar sua permanência na vida de dezenas de famílias ao longo de mais de quatro décadas.
