Usamos cookies para melhorar sua experiência, personalizar conteúdo e exibir anúncios. Também utilizamos cookies de terceiros, como Google Adsense, Google Analytics e YouTube. Ao continuar navegando, você concorda com o uso de cookies. Veja nossa Política de Privacidade.

André Hernandez e os fantasmas de Porto Alegre

Proprietário do Café Mal Assombrado,

A chuva parecia fazer parte do cenário.

Naquela noite, as ruas molhadas do Centro Histórico de Porto Alegre conduziam naturalmente ao Café Mal Assombrado, como se a cidade preparasse sua própria ambientação. Ao chegarmos, subimos para o Teatro dos Vampiros. Sentados sob a luz baixa de um abajur, cercados por sombras que pareciam adequadas ao tema de sua trajetória, ouvimos as histórias de um homem que transformou a cidade em sua principal obra.

Fachada do Café Mal Assombrado, localizado na Rua Cel. Fernando Machado, 513 – Centro Histórico \ Foto: Nathalia Santos

André Hernandez fala de Porto Alegre como quem fala de um amor antigo: com paixão, crítica, admiração e ressentimento. Não há neutralidade em sua relação com a capital gaúcha.

“Eu já briguei mil vezes com Porto Alegre e amo ela”, resume.

A frase poderia ser apenas uma declaração afetiva, mas revela algo mais profundo. Ao longo da conversa, ficou evidente que André não vê Porto Alegre apenas como o lugar onde vive. A cidade é personagem, matéria-prima, inspiração e espelho.

Quando fala sobre bairros, centros urbanos e arquitetura, suas reflexões raramente permanecem no concreto. O mapa da cidade, para ele, é a anatomia de um corpo. Os bairros moldam comportamentos, delimitam rotinas e criam zonas de conforto. Já o Centro Histórico é outra coisa.

“O centro é tudo”, diz.

É ali que ricos e pobres dividem a mesma calçada. Onde ninguém é completamente estranho. Onde a cidade se apresenta em sua forma mais contraditória.

Talvez seja justamente essa contradição que o fascine.

André gosta da melancolia do inverno, das caminhadas sem destino, do crepúsculo que cai sobre os prédios antigos. Fala sobre o hábito de andar pelas ruas como quem descreve um ritual. Acredita que Porto Alegre possui uma vocação rara para a contemplação e que suas quatro estações influenciam diretamente a forma como seus habitantes percebem a si mesmos.

Enquanto algumas cidades oferecem uma única paisagem emocional, Porto Alegre, segundo ele, obriga seus moradores a experimentarem diferentes estados de espírito ao longo do ano. O verão expande. O inverno recolhe. O outono ensina a desapegar. A primavera convida à renovação.

Para André, viver a cidade é também um exercício constante de autoconhecimento.

Essa forma de enxergar Porto Alegre ajudou a construir o Porto Alegre Mal Assombrada, projeto que o tornou conhecido muito além dos círculos culturais da capital. Embora muitos o associem a caminhadas de terror, André rejeita a definição.

O que faz não é turismo convencional, nem teatro, nem uma simples visita guiada. Seu interesse não está nos prédios históricos em si, mas nos vazios, nas ausências e nos lugares onde a história aconteceu.

Ao longo dos anos, conduziu centenas de pessoas por ruas, becos e espaços esquecidos da cidade. Falou sobre crimes, preconceitos, suicídio, racismo, violência e exclusão social. Assuntos difíceis, tratados sem sensacionalismo.

O terror, para ele, nunca foi uma brincadeira.

É uma ferramenta de leitura social.

Por isso, incomoda-se quando vê iniciativas que reproduzem superficialmente a estética do horror sem compreender suas camadas mais profundas. Para André, o gótico não existe para assustar. Existe para revelar.

Durante a conversa, ele cita filmes, livros, mitologias e referências históricas para sustentar uma ideia que retorna diversas vezes: o horror sempre falou sobre aquilo que uma sociedade tenta esconder.

Seu interesse pelos fantasmas não está no sobrenatural, mas nas marcas deixadas pelas pessoas.

Essa percepção também molda o Café Mal Assombrado.

Detalhes que contam as histórias de uma cidade cujas sombras rejeitam o papel de coadjuvantes. / Foto: Nathalia Santos

O espaço não funciona apenas como empreendimento comercial. É palco, centro cultural, ponto de encontro e extensão de sua própria visão de mundo. Ali acontecem shows, saraus, leituras, palestras e apresentações de artistas independentes. Embora pudesse ocupar constantemente o centro da programação, André prefere abrir espaço para outros criadores.

A valorização da cena cultural aparece repetidamente em seu discurso.

Ele fala sobre arte menos como vitrine pessoal e mais como construção coletiva.

Ao mesmo tempo, sua própria trajetória parece saída de uma narrativa improvável.

André nasceu em 1891, mas tem 45 anos. Cresceu no Sarandi. Viveu em ocupações, enfrentou dificuldades financeiras e passou boa parte da juventude observando uma cidade que parecia distante. Lembra da primeira vez em que chegou ao Mercado Público e ficou parado do lado de fora, sem coragem de entrar. Não sabia se era permitido. Não sabia se precisava pagar.

Anos depois, se tornaria uma das figuras mais reconhecidas do Centro Histórico.

O caminho, porém, esteve longe de ser linear.

André experimentou momentos de visibilidade nacional, participou de reality show de gastronomia, alcançou estabilidade financeira e acumulou projetos. Depois vieram as perdas. Problemas financeiros, golpes, separação, depressão e um período em que viveu em uma pensão no centro da cidade.

Sua narrativa não segue o modelo clássico da superação heroica. Ele não romantiza as dificuldades nem tenta transformá-las em lições edificantes.

Conta os fatos como quem observa os movimentos imprevisíveis da vida.

“Hoje estou muito mais com os pés no chão”, reflete.

Talvez por isso o momento atual pareça carregado de significado.

Além da consolidação do Café Mal Assombrado e do lançamento lançamento de seu livro, André assumiu um papel que jamais imaginou ocupar: a gestão de espaços no Viaduto Otávio Rocha.

Quando fala sobre o viaduto, sua empolgação é imediata.

Ele o descreve como uma das obras urbanas mais importantes de Porto Alegre. Um lugar feito para pessoas. Um espaço que conecta mobilidade, comércio e convivência. Uma espécie de coração da cidade.

Há algo simbólico nessa trajetória.

O menino que observava o centro à distância agora participa diretamente da revitalização de um de seus monumentos mais emblemáticos.

Mas, em meio a tantas conquistas, existe uma ferida que atravessa a conversa.

Quando o assunto chega à mãe, diagnosticada com Alzheimer, o tom muda.

As reflexões dão lugar às emoções.

Ele fala sobre a dor de assistir ao apagamento gradual das memórias de alguém que sempre esteve presente. Fala da morte do pai. Das ausências. Do sentimento de impotência diante de algo que não pode ser resolvido.

Ali desaparece o empreendedor cultural, o pesquisador do imaginário urbano e o artista.

Permanece apenas o filho.

Talvez seja justamente essa coexistência entre sombra e afeto que explique André tão bem.

Ao longo de toda a conversa, ele retorna repetidamente à ideia de que cidades, casas e pessoas carregam marcas de suas imperfeições. Nada está completamente pronto. Nada está totalmente resolvido.

Nem Porto Alegre.

Nem ele.

Já perto do fim da noite, depois de uma longa conversa, descemos as escadas do Café Mal Assombrado. Lá fora, a chuva havia diminuído. André se despediu e saiu para caminhar com suas duas cachorrinhas e sua companheira, Martina, presença constante nas histórias que contou ao longo da entrevista.

Enquanto eles desapareciam pela rua úmida do centro, parecia difícil separar onde terminava o homem e começava a cidade.

Talvez porque, depois de tantos anos explorando os fantasmas de Porto Alegre, André tenha se tornado um deles.

Não um fantasma do passado.

Mas uma dessas raras figuras que ajudam uma cidade a lembrar quem ela é.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia também