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Figurinhas da Copa resistem e unem memórias entre gerações

A cada Mundial da Fifa, álbuns movimentam pontos de troca e fortalecem cultura de colecionar

Em uma época marcada pelo consumo rápido de conteúdos digitais, poucas tradições conseguem atravessar gerações mantendo o impacto afetivo que o ato de colecionar deixa — sejam álbuns, fotos, medalhas ou até brinquedos. E nada como um ano de Copa do Mundo para trazer esse costume novamente à tona. Crianças, jovens e adultos, por meio de experiências presenciais, desafiam a lógica da instantaneidade digital e mantêm viva uma tradição baseada no contato humano.

Esse costume ganha um significado ainda mais profundo na vida do aposentado Roberto Montagna, de 73 anos. Para ele, os álbuns, documentos e desenhos não representam apenas um passatempo nostálgico, mas uma forma de preservar memórias e registrar a história do futebol ao longo das décadas. Natural de Porto Alegre, Montagna teve seus primeiros contatos com o desenho ainda muito cedo, aos seis anos de idade. Começou a desenhar lances de futebol na adolescência, inspirado nas ilustrações publicadas no jornal Folha da Tarde. Durante as Eliminatórias da Copa de 1970, chegou a apresentar um de seus desenhos à redação da Zero Hora e seu material impressionou tanto que recebeu um convite para trabalhar no jornal com apenas 15 anos, oportunidade que recusou pela timidez e pouca idade.
 
Desde então, passou décadas registrando os gols em tempo real enquanto assistia aos jogos nos principais estádios da capital, antes o Eucaliptos, do Internacional, e o Olímpico, do Grêmio, mais tarde expandindo seus olhares para jogos internacionais pela TV. Fazia rascunhos rápidos dos lances, da movimentação dos jogadores e da bola, detalhando uniformes, números das camisas, tempo dos gols, arbitragem, estádios e até mesmo as luvas dos goleiros. Inicialmente, utilizava apenas caixas de tinta comuns e pincel, passando a usar caneta nanquim e, hoje em dia, está em constante aprendizado no computador, colorindo e vetorizando uniformes e detalhes.
 
Seu acervo ganha ainda mais relevância histórica pelo fato de que muitos arquivos de imprensa sofreram com incêndios no passado, e as transmissões de TV da época não tinham a reprodução imediata ou preservada. Por conta disso, seus desenhos tornaram-se, possivelmente, os únicos registros visuais detalhados de diversos desses lances históricos: “Quem não assistiu ao jogo na época, não sabe como foi. Eu tenho todos os desenhos, os lances dos gols… Seria ótimo deixar isso em um museu com o meu nome, para ficar na história”, projeta Montagna.
Roberto Montagna guarda álbuns e registros históricos produzidos ao longo de décadas acompanhando o futebol

Ritual com significado

O desejo do colecionador de ver seus itens eternizados contrasta com a grandiosidade e a velocidade do mercado atual de colecionáveis, percebida nos pontos de troca espalhados pela cidade. Principalmente aos finais de semana, os chamados “Panini Points” se transformam em arenas de convivência onde a pressa digital dá lugar ao contato humano. O fluxo intenso de todas as idades revela que o público não busca apenas completar álbuns, mas vivenciar o ritual da troca e da conversa olho no olho, provando que o hábito físico continua sendo um motor de socialização.
 
A necessidade de desacelerar e buscar conexões reais em um ambiente físico é explicada pela psicologia. De acordo com a psicóloga Verônica Diaz, o ambiente digital traz respostas muito imediatas e concretas, eliminando o processo de construção. A figurinha exige o oposto: ela obriga a pessoa a interagir. “Você precisa ir até o ponto, conversar, olhar no olho do outro, ver o que ele tem e negociar. Sentar-se para trocar figurinhas é um momento de conexão presencial e afeto que quebra o automatismo da internet”, analisa a especialista.
 
Além disso, o costume de colecionar e desenhar traz benefícios cognitivos diretos à saúde mental, algo que ficou evidente na própria rotina de Roberto Montagna. Recentemente, o colecionador enfrentou um quadro de encefalite, uma inflamação no cérebro que deixou sequelas em sua memória cotidiana, fazendo-o esquecer palavras simples do dia a dia. Entretanto, diante de seus registros, uma folha de papel e uma partida de futebol, o esquecimento parece ser driblado.
 
A experiência relatada por Montagna revela memórias já consolidadas e esquemas estruturados na mente, conforme a interpretação da psicóloga: “Quando ele assiste ao jogo, não vê apenas pessoas se mexendo: ele reconhece um escanteio, uma jogada tática, um contra-ataque. Esse pano de fundo permite que ele faça associações rápidas e recupere informações que pareciam perdidas. O processo do desenho e do futebol virou algo automático, uma reserva cognitiva ativada pelo afeto”.
 
Portanto, completar um álbum não é necessariamente uma corrida financeira sobre quem tem mais dinheiro para comprar pacotes ou quem vai finalizar o livro primeiro. A graça do colecionismo reside na jornada e nas conexões emocionais que ele desperta. Para quem já perdeu um ente querido, por exemplo, o álbum é uma forma de se conectar com essa ausência através da reconstrução e do afeto. “Organizar uma coleção é colocar ordem nas próprias memórias. Existe uma satisfação psicológica profunda em se colocar uma responsabilidade sutil e, finalmente, conseguir finalizar algo”, conclui Diaz. Em um mundo acelerado, cada quadrado colado no papel ou cada item obtido para qualquer que seja o acervo, explanam a imprescindibilidade humana de ancorar sua própria identidade em algo palpável, criando um refúgio seguro contra a pressa do tempo.
Ilustração do gol da Tchecoslováquia na final da Copa de 1962 integra o acervo histórico produzido por Roberto.

*Fotos: Guilherme Pedroso Alves

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