Com uma trajetória que cruza os bastidores da política gaúcha e do sistema financeiro, Fernando Lemos retornou à presidência do Banrisul em 2023, cargo que já havia ocupado nos governos Germano Rigotto e Yeda Crusius.
À frente da maior empresa de capital aberto com sede no Rio Grande do Sul, ele defende a gestão técnica do banco, afirma que o debate sobre a privatização está superado e avalia que o Brasil enfrenta uma profunda crise de lideranças. Confira os principais trechos da entrevista.
O senhor se considera um técnico ou um político à frente do Banrisul?
O cargo de presidente do banco sempre tem uma escolha política, uma vez que é feita pelo governador em razão de o banco ser controlado pelo Estado do Rio Grande do Sul. Mas o presidente do banco, a partir do momento em que senta na cadeira e passa a exercer a presidência, tem que agir tecnicamente, porque o seu compromisso e a sua obrigação são com a instituição, e não com o governo do Estado. Então a atuação sempre tem que ser técnica. Eu me considero um executivo financeiro na condução dos negócios da instituição.
O debate sobre a privatização do Banrisul está superado?
Com relação à privatização, isso me parece um debate do passado, já que o banco vem, a cada ano, se tornando mais forte, mais competente, mais qualificado e dando resultados bastante expressivos. Portanto, não há isso no horizonte. Embora existam alguns que achem que o Estado não deve ter um banco público, no caso do Banrisul é um pouco diferente, porque o Banrisul é a maior empresa que tem sede no Rio Grande do Sul, inclusive em relação às privadas. É a maior empresa de capital aberto com sede no Estado. Tem resultados muito expressivos, paga dividendos tanto para o Estado quanto para os investidores privados. Não há nenhuma razão para se extinguir uma empresa desta dimensão e com a qualidade de serviços que presta ao Estado.
Um banco público pode ser totalmente blindado de interesses políticos?
No caso do Banrisul, com relação à interferência política, isso é muito difícil. Primeiro porque nós temos acionistas minoritários muito atuantes e expressivos. Então a governança do banco é muito forte. É muito difícil fazer alguma operação ou intervenção fora dos padrões técnicos normais. As operações passam pelos comitês internos do banco e as maiores são deliberadas pela diretoria colegiada, mas todas dentro de uma política definida pelo Conselho de Administração. Ali têm assento o controlador, que é o Estado do Rio Grande do Sul, mas também os minoritários, ou preferencialistas e os conselheiros independentes. A direção do banco não pode atuar fora das políticas traçadas pela alta administração. Isso blinda bastante o banco em relação a qualquer tentativa de abordagem inadequada para a instituição.
Como é sua relação com o governador Eduardo Leite?
É uma relação de confiança. Afinal, foi ele quem me escolheu. É também uma relação profissional do ponto de vista dos negócios da instituição, que ele supervisiona, já que é o controlador do banco. Mas também há uma relação de independência da direção do banco, sobretudo do presidente, em relação ao governo do Estado. É uma relação de confiança que, se quebrada, permite ao governador substituir o presidente a qualquer momento. Mas não há interferência nenhuma na gestão da instituição. Isso é obrigação e cuidado dos diretores, da presidência e da governança do banco como um todo. É por isso que se tem que agir tecnicamente para que as coisas avancem corretamente.
O senhor acredita que a política brasileira vive uma crise de lideranças?
Não só a política brasileira, como a sociedade brasileira como um todo, vive uma crise profunda de lideranças. Não há nenhum grande líder em nenhum setor social do país. Nem no mundo do jornalismo, nem no mundo empresarial, nem no mundo intelectual, nem no mundo universitário. Há uma carência profunda de novas lideranças, lideranças qualificadas. Mas não é só no Brasil. Se olharmos o mundo inteiro, também há uma profunda dificuldade nesse aspecto. Talvez seja pelo novo modelo de sociedade que temos, mas faz falta.
O senhor se vê encerrando a carreira no Banrisul ou ainda tem projetos políticos?
Projeto político efetivo não tenho nenhum para o momento. Mas projetos pessoais sempre se tem. Mesmo que eu encerre minha carreira no Banrisul, não sei quando, espero pelo menos estar lá nos 100 anos da instituição (setembro de 2028). Projetos pessoais a gente sempre precisa ter para construir a vida e enfrentar novos desafios.
