Um “quadrinista fracassado”. É assim que se autodefine Otto Guerra Netto, aos 70 anos de idade. De jeito simples, comunicativo e dono de uma personalidade completamente singular, este arrojado animador gaúcho nunca fez questão de esconder a sua irreverência. O Filho da Puta é o nome do seu último longa-metragem. Apaixonado pela criação artística, ele não nega, entretanto, que toda esta trajetória de sucesso poderia ter sido evitada. “Se o (meu) pai não tivesse perdido toda a grana, eu estaria criando ovelhas até hoje”, comenta Otto, ao relembrar sua infância.
Nascido em Porto Alegre, mas “com um pé lá em Alegrete”, Otto Guerra viveu os primeiros anos de sua vida em uma estância da família — localizada justamente em terras alegretenses. Filho do pecuarista Félix Guerra e da dona de casa Alba Berutti, ele já possuía, de certa forma, a comunicação enraizada em sua árvore genealógica. O avô materno, Heitor Berutti, foi por muitos anos colunista do tradicional jornal Correio do Povo, sob o pseudônimo de ‘Nilo Tapecoara’. Todavia, quando questionado a respeito de seu ambiente familiar, Otto é objetivo ao revelar certas mágoas. “Eu tive uma criação esdrúxula com uma família disruptiva, mas o desenho me salvou”, recorda.
“A (minha) mãe achava que o meu pai era um príncipe, enquanto o meu pai só queria comer a minha mãe. Como é que uma família vai ser fundamentada em cima dessa ignorância?”, questiona Otto, sem poupar palavras. “A minha casa era um inferno, aí eu me fechava no quarto e desenhava. Então, eu obsessivamente desenhei por muitos anos”, completa. Foi nessa época que, ainda de forma amadora, Otto Guerra deu seus primeiros passos no universo criativo, produzindo histórias em quadrinhos. O aventureiro Tintim, personagem criado pelo quadrinista belga Hergé, era a sua grande inspiração.
A mudança para a capital gaúcha ocorreu aos sete anos de idade, momento em que o pequeno Otto ingressou no ensino fundamental. “Eu era um aluno péssimo. Até certo ponto, eu amava o colégio, mas depois comecei a achar estranho. Porra, o que eu tenho a ver com isso? Física, matemática, essas coisas… era muita incomodação”, afirma. Ao longo de sua formação primária, acumulou passagens por diversas escolas — tais como Piratini, Anchieta e Rosário. Para suportar a rotina acadêmica, entretanto, ele seguiu com seu costume de aplicar o desenho como uma espécie de refúgio. “Era uma coisa preocupante para a família também, porque eu não estudava. Só ficava desenhando”, argumenta.
Rabiscos de sobrevivência
Depois de atingir a maioridade, Otto Guerra peregrinou por diversos cursos de graduação, tendo interrompido a maioria. Entre idas e vindas, estudou por algum tempo Arquitetura e Urbanismo na Unisinos e Publicidade e Propaganda na PUCRS, além de ter iniciado o curso de Filosofia na Ulbra e, posteriormente, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Disposto a viver da produção cultural, todavia, o jovem desenhista ingressou, no final dos anos 1970, em uma oficina de animação ministrada pelo argentino Félix Follonier. “Eles (argentinos) trouxeram todo o know how deles para cá. Desde a concepção, roteiro, acetato e revelação até o produto final, que era o filme”, explica Otto, que acabou se apaixonando pela arte de animar.
Foi justamente na agência de Félix Follonier que Otto Guerra conseguiu seu primeiro emprego na área da animação, tendo trabalhado por lá durante aproximadamente um ano. “O primeiro filme que eu animei foi Luigi, o Sorvete. Era uma casquinha caminhando com um cara na sombra, aí o sol abre as palmeiras e lambe”, relembra. Vale ressaltar que, naquela época, os recursos utilizados pelos animadores passavam longe das modernas tecnologias atuais. O principal método utilizado era conhecido como “animação por celulóide”, que consistia em fazer desenhos pintados à mão em folhas de acetato (que são transparentes). Eles eram sobrepostos em um fundo estático e fotografados quadro a quadro, para gerar a sensação de movimento.

Em 1978, cativado pelas técnicas que havia aprendido e cada vez mais determinado em fazer daquilo o seu ganha-pão, Otto Guerra — então com 22 anos de idade — decidiu fundar sua própria produtora. Surge assim a Otto Desenhos Animados, que permanece ativa em Porto Alegre até os dias atuais. “Eu falei: ‘Pô, já estou trabalhando’. E eu sabia que o desenho, ao mesmo tempo que iria me causar prazer, ia me sustentar. Porra, junção perfeita. Fazer o que tu é apaixonado e ainda conseguir com que isso renda grana”, explica o animador. O começo, entretanto, foi complicado e recheado de improvisos, os quais Otto costuma chamar de “gambiarras”. “Eu não tinha dinheiro, mas eu sabia fazer. Aí fiz um acordo operacional com uma empresa de Florianópolis, que tinha o equipamento”, destaca.
“Eu ia duas, três vezes por mês a Florianópolis para filmar lá, com um pacote com os acetatos. Ia de ônibus ainda. Saía daqui às onze e meia da noite e chegava lá às sete, oito horas da manhã. Fiz isso durante um ano. Porra, foi foda aquilo”, rememora. “Um filme de 30 segundos tem 1440 fotogramas. A gente fotografava duas vezes cada desenho e repetia alguns, então tinha que ter em média uns 400 ou 500 desenhos para fazer um filme de 30 segundos. E tinha que desenhar um por um”, complementa Otto, sobre as dificuldades enfrentadas no início da carreira. O primeiro curta-metragem assinado pela nova produtora foi O Natal do Burrinho, lançado em 1984, que já naquele ano recebeu o prêmio de Melhor Curta Gaúcho no Festival de Cinema de Gramado.
Um gênio difícil de aturar
Foi na oficina de Félix Follonier que Otto Guerra conheceu José Maia, outro entusiasta da criação artística. “Na época, eram cerca de 300 alunos. De todos esses, somente eu e o Otto continuamos como animadores até hoje”, cita Maia, aos 68 anos de idade. “Eu não tinha com quem falar sobre animação, mas era uma coisa pela qual eu era apaixonado. Quando eu e o Otto nos encontramos, eram duas pessoas falando sobre a mesma coisa, então foi tipo queijo com goiabada”, recorda ele, a respeito do começo da parceria.
Além de colegas no curso de Félix Follonier, Otto Guerra e José Maia também trabalharam juntos na agência do argentino, o que estreitou ainda mais os laços entre eles. “A gente tentava vender nosso trabalho para a publicidade, mas sempre a coisa da propaganda mesmo. Não existia ainda o cinema nesse momento. Só que a gente era muito apaixonado, então decidimos tocar e criar nossa própria produtora”, afirma Maia, que foi sócio da Otto Desenhos Animados no início do empreendimento — tendo permanecido nesta posição por aproximadamente 10 anos. Abandonou a sociedade no início dos anos 1990, retornando à empresa como funcionário em 2001, onde segue trabalhando.

“O Otto é um amigo de uma vida inteira. Lá no início da produtora, quando estávamos com muito trabalho, a gente sentava para desenhar e virava a noite. Íamos no caixa e tinha tipo, R$ 20, aí pegávamos R$ 10 cada um. Então é um cara com quem eu sempre pude contar”, destaca Maia acerca de sua relação com Otto Guerra, por quem nutre enorme respeito. Ainda assim, ele reconhece alguns contratempos na rotina junto ao parceiro. “O dia a dia com ele é o céu e o inferno. Às vezes, tá tudo certo, mas quando tem problema no trabalho vira um caos. Tem horas que o Otto… o gênio dele fica insuportável. Mas eu aprendi a lidar com isso, a gente sempre se acerta”, declara.
José Maia pontua ainda algumas características importantes da personalidade de Otto Guerra. “Ele é um cara muito inteligente e extremamente criativo”, atesta. “Também é muito observador. Ele fica analisando o trabalho de uma posição mais afastada e sempre percebe quando tem algum problema, aí ele alerta a gente”, adiciona. Atualmente, Maia está dirigindo um filme infantil denominado Joe e o Vale Vazio, além de coordenar outro projeto cinematográfico que carrega o nome de Ai Que Preguiça.
“Fracassado” de sucesso
Ao longo de suas quase cinco décadas de existência, a Otto Desenhos Animados estabeleceu-se como uma das principais produtoras de animação em território brasileiro. Além dos mais de 600 comerciais (de acordo com estimativa feita pelo próprio Otto Guerra), na filmografia do site oficial da empresa constam ainda 12 curtas e oito longas-metragens — sendo cinco concluídos e três em andamento. De todos estes, talvez aquele que tenha atingido maior popularidade seja o célebre Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock n’ Roll, lançado em 2006. Amplamente premiado, o filme contou ainda com a participação de figuras conhecidas na produção, como Rita Lee e Tom Zé.
Com um currículo tão extenso, Otto Guerra expõe que possui dificuldade em escolher qual é a sua produção favorita. “Nesse último filme que a gente fez… O Filho da Puta é o nome, digamos que eu saí da adolescência aos 55 anos de idade. Mas eu gosto muito de todos os filmes. O Natal do Burrinho também é genial. Os filmes, em geral, são muito bons”, declara. Em 2020, ele tornou-se membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, o que lhe concede anualmente o direito de votar na premiação do Oscar — a mais importante do cinema internacional — nas categorias de Melhor Animação e Melhor Curta de Animação. “O cara me ligou no meio da pandemia e disse: ‘Tu tá na academia’. Eu falei: ‘É pegadinha, né?’. Mas não. Eu voto no Oscar”, afirma.

Em paralelo aos estúdios e as rotinas de animação, Otto Guerra destaca um apreço especial por sua família. Casado com Letícia Duarte Jacobsen, ele é pai de dois filhos: Hugo, de dois anos, e Rita, de seis meses. “Eu estou apaixonado por ser pai. Eu não fazia ideia de como era criar um ser humano, mas tu vê ele crescendo e… puta que pariu! Que troço absurdo”, exclama. Questionado a respeito de seus hobbies, o animador é direto na resposta: “Cinema, sexo, bebida e amigos. Ah, e quadrinhos também. É um mundo que eu gosto”, pontua.
Autodeclarado agnóstico, ele explica ainda a sua relação com a religiosidade. “Não existe nada físico, tudo é energia. Então não está errado acreditar que existe uma força superior a alguém. Mas essa ideia, geralmente da religião, é utilizada há muitos anos para manipular a população, né?”, argumenta.“O bem e o mal estão em nós. Existe uma lenda indígena que fala que eles são dois lobos em constante luta. Mas qual ganha? Aquele que tu alimenta mais. E a gente tem essa ideia de que o mal são os outros, né? A religião se aproveita disso”, finaliza.
Outro personagem citado por Otto em sua fala foi o irmão Jorge Berutti Guerra, que é médico pneumologista. “Um cara extremamente inteligente. Um cara que passou no vestibular de Medicina da UFRGS, que é difícil pra caralho. Depois ele foi estudar o pulmão, aí fez mestrado, doutorado… um gênio total”, declara. “Um dia, ele me chamou para falar comigo e disse: ‘Porra Otto, eu cheguei no limite do conhecimento orgânico, biológico, químico e físico do pulmão’. Respondi: ‘Parabéns… muito bom, né, cara’. Aí ele me fala: ‘O problema é que… não faz o menor sentido”, acrescenta.
Atualmente, Otto Guerra segue em atividade, trabalhando diariamente na Otto Desenhos Animados. A produtora fica localizada em Porto Alegre, na rua Álvares Machado 290, bairro Petrópolis.
