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Geração Z transforma relações e expectativas no mercado de trabalho

Jovens entram no cenário profissional em busca de oportunidades, mas também de propósito e maior flexibilidade

A entrada da Geração Z no mercado de trabalho tem provocado mudanças nas relações entre funcionários, gestores e empresas. Mais do que uma diferença de idade, o encontro entre gerações envolve diferentes expectativas sobre carreira, hierarquia, flexibilidade e vida pessoal. Para quem está chegando ao mercado, trabalhar não significa necessariamente seguir os mesmos modelos das gerações anteriores.

No Brasil, em 2024, o IBGE registrou 48 milhões de pessoas entre 15 e 29 anos. Entre os jovens de 18 a 24 anos, 39,8% apenas trabalhavam. Já entre aqueles de 25 a 29 anos, esse percentual chegava a 59,7%. Os números mostram que uma parcela significativa dos jovens está inserida no mercado de trabalho, especialmente conforme avança a idade.

Na prática, essas diferenças aparecem no cotidiano. É o que percebeu Bárbara Sandra Medeiros e Souza, 62 anos, proprietária da Black Forest, loja de relógios cuco e decoração de Gramado. Ao contratar a agência Join, formada majoritariamente por profissionais da Geração Z, precisou lidar com expectativas diferentes das que conhecia. “Eu me abri para isso, porque é a atualidade, é o que temos, mas a gente precisa aprender a conviver com essa geração.”

Entre ursos, Papais Noéis e miniaturas decorativas, Bárbara Sandra Medeiros e Souza apresenta parte do acervo natalino da Black Forest – JOÃO PEDRO BOCH/BETA REDAÇÃO

A decisão não veio sem receios. Antes da contratação, Bárbara conta que tinha preconceitos relacionados à idade dos profissionais e à dificuldade de adaptação entre gerações. O contato com a equipe, porém, fez com que parte dessas percepções mudasse. “Eu acho que o meu grande medo era não conseguir falar a mesma linguagem que eles, e não falando a mesma linguagem, eu não ia ter o mesmo resultado”.

Um jeito diferente de enxergar o trabalho

Na outra ponta dessa relação está Katiele Scherer, 26 anos, publicitária e proprietária da Join. Integrante da própria Geração Z, ela começou a liderar a agência aos 22 anos e percebe diferenças importantes na relação entre liderança e funcionários. “A nossa geração vê a hierarquia empresarial como algo muito mais horizontal do que as outras gerações. Então eu estou aqui com a minha equipe e ao mesmo tempo que estou nesse lugar de liderança, a gente também ocupa lugares muito lado a lado.”

À frente da Join desde os 22 anos, Katiele Scherer aparece junto à identidade visual da agência que lidera – JOÃO PEDRO BOCH/BETA REDAÇÃO

Para Katiele, essa mudança não significa falta de comprometimento. Ela contesta a ideia de que pessoas mais novas não se importam com o trabalho e destaca a relevância dada à vida fora do ambiente profissional. “Eu acho que a gente se importa bastante com o trabalho, mas a gente também se preocupa com a saúde mental e do corpo”. A busca também é por um trabalho que tenha significado. “A geração Z quer estar fazendo alguma coisa que faça sentido e não só entregando porque tem que ser entregue”, complementa.

Já para Nicole Bonetti, 40 anos, psicóloga e consultora de gestão de pessoas, os jovens chegam ao mercado mais conscientes sobre propósito, questionando processos e valorizando ambientes colaborativos. “Questionam mais, querem entender o porquê das coisas e valorizam ambientes mais colaborativos.”

Integrantes da equipe da Join dividem a mesa de trabalho durante a rotina da agência, em Gramado – JOÃO PEDRO BOCH/BETA REDAÇÃO

A especialista também identifica uma mudança na relação com a autoridade. Segundo Nicole, o respeito tende a estar menos ligado ao cargo e mais à maneira como o líder conduz a equipe. “É uma relação menos baseada no cargo e mais na legitimidade. Eles tendem a respeitar a liderança quando percebem coerência, competência, abertura para o diálogo e uma forma de comandar que faça sentido”, afirma.

O conflito entre expectativa e realidade

Se, de um lado, a Geração Z chega ao mercado com novas expectativas, de outro, as empresas nem sempre conseguem oferecer tudo o que esses profissionais procuram. Katiele reconhece esse choque entre desejo e realidade. “São poucas as empresas que hoje conseguem oferecer tudo que existe na expectativa”, contesta.

Entre computadores e conversas, profissionais da Join desenvolvem atividades em conjunto no escritório da agência – JOÃO PEDRO BOCH/BETA REDAÇÃO

Para ela, fatores econômicos também interferem na capacidade das organizações de oferecer flexibilidade, benefícios, desenvolvimento profissional e qualidade de vida. A questão, portanto, não se resume à disposição dos gestores, mas também às condições para manter um negócio.

O conflito também aparece quando jovens profissionais precisam prestar serviços para empresas mais tradicionais. A própria Join atende marcas consolidadas, algumas com décadas de atuação. Katiele define a juventude da agência como, ao mesmo tempo, sua força e sua dificuldade. “A nossa maior dificuldade para lidar com empresas tão consolidadas é o mesmo ponto que a nossa maior força, que é a nossa jovialidade.”

A diferença de gerações pode gerar divergências sobre os caminhos a seguir, especialmente quando profissionais jovens precisam defender suas decisões diante de empresários com décadas de experiência. Ainda assim, Katiele afirma que a agência procura equilibrar a defesa de suas ideias com o respeito pela trajetória dos clientes.

Entre aprender e ensinar

A experiência da Black Forest mostra que a adaptação não acontece apenas de um lado. Barbara reconhece que também precisou rever algumas de suas próprias concepções sobre os profissionais mais jovens. “A geração Z está nos mostrando que existem outras formas, e a gente tem que se abrir para isso. Eu acho muito importante para que isso nos aproxime e não nos distancie.”

Bárbara Sandra Medeiros e Souza, proprietária da Black Forest, posa entre relógios cuco expostos na loja, em Gramado – JOÃO PEDRO BOCH/BETA REDAÇÃO

Para ela, a convivência entre gerações pode ser também uma oportunidade de aprendizado. A empresária cita, inclusive, preocupações relacionadas à sustentabilidade, à natureza e aos animais como aspectos que os profissionais mais jovens ajudam as gerações anteriores a enxergar de outra maneira.

A especialista em gestão de pessoas também não coloca a adaptação como uma responsabilidade exclusiva dos jovens ou das empresas. Para Nicole, o desafio está justamente na construção de uma relação de mão dupla. “O desafio não é fazer a empresa se adaptar à Geração Z ou a Geração Z se adaptar à empresa. É criar espaços em que diferentes gerações possam aprender umas com as outras.”

A rotina de trabalho da Join reúne jovens profissionais em atividades realizadas de forma compartilhada no escritório – JOÃO PEDRO BOCH/BETA REDAÇÃO

No cotidiano da Join, essa convivência ainda está sendo construída. Katiele reconhece que ocupar uma posição de liderança tão jovem não é simples, mas também vê potencial na geração que representa. Para ela, compreender esse novo profissional é parte do trabalho das lideranças. “A nossa geração, ela é sim muito dedicada e trabalhadora e que busca atingir coisas na vida. Eu acho que só basta as lideranças atuais conseguirem extrair isso, entenderem como a gente funciona, o que buscamos e aproveitar esse potencial”, finaliza.

As diferenças aparecem no cotidiano, seja na relação com a liderança, na cobrança por resultados, na flexibilidade e na expectativa de crescimento. Não existe uma fórmula única para essa convivência. Ambos seguem aprendendo a coexistir e tirar o melhor de cada um.

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