No final de 2022, a vida resolveu mudar de assunto sem me consultar. Fui diagnosticado com Linfoma Não Hodgkin na região cervical. De repente, palavras que antes pareciam distantes passaram a fazer parte da minha rotina: quimioterapia, terapia, fonoaudiologia, consultas, exames, espera.
Uma rotina que ninguém escolhe, mas que, quando chega, é preciso atravessar.
E eu atravessei. Não sozinho, é claro!
Tive amigos, familiares e colegas de trabalho ao meu lado. Pessoas que, naquele período, deixaram de ser apenas colegas e passaram a ocupar um lugar diferente na minha vida.
Foi também nesse período que surgiu um pequeno grande grupo.
Pequeno pela quantidade de pessoas que conseguem estar presentes nas reuniões online das quintas-feiras. Cada um tem sua vida, seu trabalho, seus estudos, seus problemas e seus boletos.
Mas, naquela noite da semana, sempre existe espaço para falar sobre a vida. Às vezes muito, às vezes pouco. Por vezes me cabe “apenas” ouvir, pois aprendo muito. A gente conversa, ri, reclama, escuta.
Um grupo pequeno em quantidade, mas enorme em acolhimento, carinho e respeito.
Resumindo: um grupo de amor.
Antes da doença, as dificuldades do cotidiano tinham outra proporção. As semanas pareciam mais longas, os boletos mais caros e alguns problemas do trabalho pareciam grandes demais.
Hoje, os boletos continuam chegando. O trabalho continua tendo seus problemas. Algumas coisas ainda incomodam.
Mas alguma coisa mudou.
Talvez não tenha mudado a vida. Talvez tenha mudado o meu olhar para ela.
Em uma dessas quintas-feiras, conversávamos justamente sobre isso. Foi quando alguém comentou que eu poderia estar vivendo aquele estágio “ilusório” do pós-tratamento: a comparação inevitável entre a vida antes e depois da doença.
Talvez seja verdade.
Quando existe a possibilidade real de não estar mais aqui, estar aqui passa a ter outro significado.
Foi então que pensei: “Agora parece tudo muito bom”.
Não porque tudo esteja bom. Não está.
Ainda existem dias ruins, preocupações, cansaço, frustrações e problemas que eu gostaria que fossem diferentes.
Mas agora sei que o tempo é finito.
E talvez a gente só perceba o valor de algumas coisas quando entende que elas podem acabar: uma conversa, um abraço, um encontro, uma quinta-feira com amigos.
Por isso, hoje tento escolher melhor onde coloco minha energia. Tento estar mais presente, valorizar meu tempo e, principalmente, o tempo de quem está comigo.
Não sei se estou vivendo um estágio ilusório do pós-tratamento.
Talvez esteja.
Mas, se estiver, quero aproveitá-lo.
Porque agora entendo que a vida não precisa estar perfeita para ser boa.
Às vezes, basta estar aqui.
E agora, estar aqui parece tudo muito bom.
