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Tecnologia como forma de resistência contra o etarismo

Capacitação do Senac em Porto Alegre oferece conhecimento para pessoas 60+ sobre como se proteger de riscos da Internet  

Olhos atentos, muita curiosidade e vontade de aprender. Esses são os elementos encontrados entre os alunos do curso de “Informática e Interação com Smartphones para a Maior Idade”, do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), em Porto Alegre. Na turma composta por oito pessoas – sete mulheres e um homem – a conversa não se resume a dúvidas sobre tecnologia. Muito pelo contrário: o que pode parecer uma simples reunião de pessoas 60+ em uma ensolarada tarde de quarta-feira, acaba se tornando um espaço de resistência diante de uma sociedade que lhes apresenta inúmeras armadilhas, sobretudo no ambiente virtual.

Os mais habituados com tecnologia talvez tratem os perigos da internet com desdém. Nada mais característico para uma geração que nasceu e cresceu lidando com computadores e celulares, por exemplo. Para estes, segurança na internet é assunto supostamente dominado, embora muitas vezes se enganem e sejam vítimas da própria displicência com o assunto. Para os alunos do curso, no entanto, os riscos não apenas fazem parte da rotina, como também geram insegurança até mesmo na hora de aprender a se defender. “Eles têm medo de fazer alguma coisa e não saber desfazer”, conta o professor Luiz Filipe Licidonio.

O sentimento é notável nas entrelinhas das perguntas e das ações dos presentes na sala. Expressões sérias, concentração máxima. Anotações para não esquecer nada importante. Dúvidas, muitas dúvidas, buscando saciar a curiosidade e garantir que absolutamente nada fique mal explicado ou mal entendido. Entretanto, apesar do receio, outra palavra com “R” também é encontrada na turma, de forma bem mais evidente.

Olhares atentos, concentração e anotações frequentes para que nada passe despercebido são algumas das características dos frequentadores das aulas. (Foto: Rafael Luz/Beta Redação)

Resistência

Entre os oito integrantes, são comuns as histórias de quem buscou o curso para reforçar a sua “independência tecnológica” e se livrar da necessidade de recorrer aos mais jovens – nem sempre tão compreensivos e disponíveis a ensinar – caso algum obstáculo apareça. Essa vontade não é mero capricho ou para alimentar egos, mas sim para assegurar uma outra palavra com “R” que nem sempre é garantida às pessoas mais velhas: o respeito. “Eu venho aqui porque, como a minha filha trabalha, eu fico receosa de incomodar ela, então eu vim incomodar ele (o professor) aqui”, brinca a dentista Sheila Perrot, 78 anos.

O maior motivo de procura do curso é o cansaço de pedir ajuda em casa, aliado com o desejo de autossuficiência no ambiente digital e também com o fato de estarem recebendo ajuda profissional, conforme explica o professor Luiz Felipe: “As maiores dificuldades, normalmente, vão ao encontro do que a Sheila falou. Os filhos, os netos, não têm paciência para explicar, para ensinar, para fazer um procedimento passo-a-passo, praticar, repetir”.

Contrastando com o ambiente doméstico relatado, os alunos encontram ali na sala de aula um espaço onde são ouvidos com atenção e leveza, e onde também escutam as histórias do professor, responsável por guiar o próprio pai no uso da tecnologia, longe das salas do Senac.

Vencendo medos

Além de buscar facilitar o aprendizado e acolher a população 60+, o ambiente do curso também tem como objetivo aplacar inseguranças e vulnerabilidades. Entre os alunos, moradores do estado com mais idosos no país, conforme dados do Censo 2022, são comuns as histórias de terem caído em golpes ou até mesmo de conhecerem vítimas. “Eu não me sinto seguro (ao usar a internet) e justamente por não me sentir seguro, me retraio”, conta o aposentado Hélio Martins, 76 anos.

Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP-RS), obtidos via Lei de Acesso à Informação, foram 12,3 mil casos registrados de fraudes eletrônicas contra pessoas 60+ desde 2021, aumentando a cada ano desde então. Somente nos quatro primeiros meses de 2026, foram registradas aproximadamente 3 mil ocorrências, pouco menos da metade do ano passado: 6,5 mil, o maior número registrado nesta série histórica.

Na opinião do professor, este é justamente o maior desafio dos alunos, mais até do que a dificuldade natural em lidar com a tecnologia. “Tem como a gente se sentir seguro? Não, totalmente seguro, não tem”, opina o professor. “Às vezes a gente sente mais medo do que o necessário, e o medo excessivo prejudica no aprendizado”, conclui.

A unidade visitada durante a reportagem é a do Senac Tech, localizada na av. Venâncio Aires, 93 – bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre. Mais informações sobre o curso nesta unidade específica podem ser obtidas pelo telefone (51) 3288-7750 ou de forma presencial, de segunda à sexta, das 8h30 às 20h. Informações sobre disponibilidade de matrículas em outras unidades podem ser consultadas no site senacrs.com.br.

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