Referida em tom negativo, a palavra cópia é sinônimo de imitação, mas não necessariamente carrega um significado pejorativo. A cultura é o palanque dessa tese, vide a espiral de revisitação e referenciação que a sustenta. Vale Tudo, que estreou em 2025, que reconta a história de mesmo nome, novela hit dos anos 1980, até a sequência de O Diabo Veste Prada, lançado mundialmente em 2026, são exemplos dessa afirmativa. Assim, seja através da música, do audiovisual ou de festas temáticas, revisitar jamais foi um demérito.
Retomar ou relançar histórias já conhecidas pelo público possui um peso igual ou maior do que um produto dito como novo, visto que o apego emocional é o condutor das expectativas dos consumidores. Uma situação recente foi a aversão do público ao remake de Vale Tudo, mesmo antes da estreia da trama no horário nobre. O mistério por trás do assassino de Odete Roitman, que desencadeou dúvidas e gerou debates nos pontos de ônibus e reuniões familiares em 1988, em 2025 já não teve a mesma repercussão, mesmo considerando a era digital. O que na versão original foi curiosidade e bolão, no remake foram alguns comentários nas redes sociais e uma enxurrada de memes quando o nome do criminoso foi revelado.

Mas o contrário também acontece
Em 2006, baseado no livro de mesmo nome — escrito por uma ex-assistente da Anna Wintour, Diretora Editorial Global da Vogue — o Diabo Veste Prada estreou nos cinemas mundiais e contou a história de uma jornalista recém-formada sobrevivendo a uma rotina intensa no trabalho e ao temperamento difícil da chefe.
Vinte anos depois, Andy, Miranda, Nigel e Emily retornam para mostrar como a indústria da moda e da comunicação têm feito para se manter relevante na era da hiperconectividade, cultura woke e uso de inteligência artificial. Ainda, com base no popular site de críticas de cinema, o Rotten Tomatoes, a sequência superou o primeiro filme em aprovação do público: 87% contra 76%.
Viagem ao passado



Voltar no tempo é uma possibilidade reservada apenas às obras futuristas produzidas para as telas e em palcos de teatro, mas alguns bares de Porto Alegre vêm tentando reproduzir e resgatar os visuais de diferentes épocas.
É o caso do Bar Que Eu Gosto, bar localizado na Cidade Baixa e idealizado por Pietro Vlacic e Keity Marinho. Com a essência dos anos 2000 — que se revela nos jogos de cartas, nas cores vibrantes, nas músicas, nos televisores de tubo, nos celulares anteriores à era touchscreen, no repertório das bandas que costumam tocar no local e no karaokê, liberado para quem se arriscar a soltar a voz — o espaço cativa não só aqueles que foram adolescentes na época em que Britney Spears dominava as rádios, mas também os últimos e os primeiros integrantes da geração Z e Alpha, respectivamente.
Pietro afirma que a nostalgia é o chamariz do bar. “Têm algumas pessoas da nossa idade, que pegam um pouco as ‘refs’, já sabem de onde vem e têm o público mais jovem que não viveu, mas gosta dessa estética, da música”, pontua.
A inspiração para tantos elementos foi, justamente, a vivência dos idealizadores. “O bar é um processo de toda a vida dele, de todas as referências que ele foi pegando ao longo da vida, então é óbvio que essas ideias vêm de trás”, conta Keity, que coloca Pietro como o centro criativo da sociedade.
Ainda, com entusiasmo, os idealizadores contam que o bar teve sua primeira expansão após os cinco meses de existência, com a abertura do Lado B, que fica ao lado do Bar que eu Gosto e acompanha a estética e possibilita atender um número maior de pessoas. “A gente tá montando cardápio, novos drinks também, pois estamos com mais espaço no estoque”, detalha Keity.
Logo, diante do questionamento acerca do futuro, Pietro e Keity afirmam querer curtir cada fase do projeto. “As coisas vão nascendo naturalmente”, afirmam.
Nada se cria, tudo se copia

Por fim, é possível afirmar que não há um prazo no senso comum quanto ao período a se respeitar para fazer uma releitura, dar continuidade a um clássico ou expandir um bar nascido das experiências e gostos da adolescência dos proprietários. O que existe é a certeza de que, em algum momento, revisitar momentos marcantes para a cultura será inevitável, assim reafirmando a existência da cópia enquanto conceito positivo que integra as bases dessa corrente que é cíclica.
