Aviso de gatilho: Esta resenha abordará termos referentes a transtornos alimentares (T.A).
Contém spoiler!
To the bone, lançado no Brasil com o título O mínimo para viver, dirigido por Marti Noxon, é um filme que trabalha uma pauta extremamente atual, a magreza extrema. Com a alta tendência de canetas emagrecedoras e métodos de perda de peso, pessoas perdem suas vidas em busca de um padrão de beleza muitas vezes mortal. Portanto, mesmo que tenha sido lançado em 2017, To the bone traz uma temática que não perde a atualidade, já que descreve uma realidade que ainda estamos vivendo.
Lily Collins dá vida à protagonista Ellen, uma jovem de 20 anos que sofre de anorexia severa. No filme, entendemos que Ellen já passou por diversas intervenções hospitalares e que sua família vive o constante medo de sua morte. Ellen, por sua vez, é relutante quanto ao tratamento, um tanto quanto rebelde. No entanto, essa rebeldia da personagem deve ser vista com empatia, pois não se trata de falta de vontade, mas sim de cansaço.
Ao longo do filme, Ellen inicia um novo tratamento terapêutico e psiquiátrico, tornando-se paciente do Dr. William Beckham, interpretado por Keanu Reeves. Para iniciar o tratamento, ela passa a morar em uma casa supervisionada pelo Dr. Beckham, onde residem outros jovens que também sofrem com transtornos alimentares (T.A).

É interessante citar que a atriz Lily Collins realmente possui o transtorno da anorexia nervosa. Ainda que esteja “recuperada”, um transtorno sempre estará presente na mente de quem o porta. Em entrevista à Refinery29, Lily afirma que dar vida a um papel que exigiu que ela perdesse tanto peso foi “um processo assustador”. Já em uma entrevista à revista The Edit, Lily relatou que durante seu processo de perda de peso foi elogiada por uma amiga. Após explicar que o emagrecimento se tratava da preparação para um papel de alguém com anorexia, a amiga seguiu tecendo elogios. “É por isso que esse problema existe”, diz a atriz.
Sem diminuir o papel de Lily Collins em outros filmes, ouso dizer que sua experiência pessoal funcionou como uma espécie de “coringa” para sua atuação impecável nesta obra. A cada cena percebemos não somente o olhar de uma personagem, mas o olhar de dor de uma pessoa real que vive com esse transtorno. Lily precisou retornar às lembranças de comportamentos obsessivos. Além da perda de peso, ela reabriu feridas que levam anos de terapia para serem fechadas.

A obra capta minuciosamente cada comportamento obsessivo de uma pessoa com anorexia nervosa, incluindo o falso sentimento de controle. Para conectar o espectador ao universo do transtorno, o filme utiliza comentários específicos que revelam como funciona a mente de uma pessoa com T.A. Por exemplo, Ellen (a jovem com anorexia) leva sua irmã, Kelly, para ver as estrelas do topo de uma colina. Em determinado momento, Kelly pergunta se Ellen não a estaria levando até lá apenas como uma desculpa para caminhar e queimar calorias. Esse comentário, por mais curto que seja, é genial. A diretora poderia ter deixado a cena das duas caminhando somente como uma continuidade narrativa, para indicar como chegaram à colina; no entanto, opta por inserir pequenas frases que situam o espectador neste mundo doentio, onde tudo parece possuir um objetivo por trás – perder peso.
Kelly, diferentemente da família, nunca busca um culpado para a situação de sua irmã – ela realmente se preocupa com Ellen. Esse medo de perder a irmã é retratado em todas as vezes que ela aparece, mas, uma cena marcante, é ainda no topo da colina. Ellen diz que tem “tudo sob controle” e Kelly responde: “Quantas pessoas você acha que tem lá embaixo? Dois milhões? Aposto que muitos que estão para morrer disseram a mesma coisa”.

Muitas obras que retratam transtornos alimentares acabam romantizando a doença, sendo comum a associação da anorexia à ideia de disciplina e controle. To the bone, no entanto, foge dessa perspectiva. Embora seja um filme capaz de gerar gatilhos em pessoas com algum transtorno alimentar, ele expõe a realidade miserável de quem vive com essa doença – não somente na vida do paciente, mas também na daqueles que convivem com ele. Kelly, por exemplo, evidencia que, nos momentos mais importantes de sua vida, sua irmã não pôde estar presente, pois estava internada em um hospital, revelando a dor de ver um ente querido sendo consumido por esse transtorno.
O filme também busca desconstruir a ideia de que um transtorno alimentar se resume à anorexia e pessoas magras. Na casa onde Ellen é internada, são apresentados diversos perfis: uma mulher gorda, evidenciando que o T.A não é magro; um homem, mostrando que não é um transtorno das mulheres; duas meninas jovens, demonstrando que crianças também podem ser afetadas; uma menina entubada e com pouco cabelo, desromantizando a aparência da mulher magra; e uma mulher adulta que perde seu bebê, evidenciando que a desnutrição pode comprometer a capacidade de gerar filhos. Esse último caso, inclusive, alerta meninas mais jovens sobre uma das possíveis consequências de estar abaixo do peso: a infertilidade.
Cada passo desta obra é muito bem articulado. Pequenos sinais – como as trocas de olhares durante as refeições, medições corporais, a forma que cada personagem senta na cadeira, comentários, exercícios feitos às escondidas – auxiliam o espectador a compreender um pouco do funcionamento da mente de alguém com T.A. Esse, certamente, é um dos principais objetivos do filme.
Encaminhando-se para o final, Ellen compreende a vida que está perdendo e decide voltar a lutar contra esta maré que é a anorexia.
Uma cena que provocou estranheza em alguns fãs é o momento em que a mãe de Ellen leva uma mamadeira para a filha, buscando tornar a alimentação um pouco mais fácil. Ellen, com angústia, pede que a mãe a amamente, deitando-se em seu colo e recebendo a mamadeira. Embora muitos possam considerar a cena bizarra, ela carrega múltiplos significados: Ellen está cansada, com medo, sabe que pode morrer e mesmo assim, compreende que não é capaz de alimentar-se sozinha, pois existe uma voz mais forte que a impede de respeitar sinais vitais do seu corpo, como a fome. Enquanto é amamentada pela mãe, Ellen chora – chora por desobedecer um transtorno, chora por finalmente adquirir um pouco de proteção, chora por sentir-se vulnerável e fora de controle sobre si mesma.

O final em aberto mostra Ellen retornando à casa com os outros jovens – de onde ela havia se retirado. Infelizmente não somos agraciados com um desfecho onde a protagonista se encontre recuperada. A falta de um “final feliz” ressalta que a luta não será fácil, assim como não é para nenhum paciente – seja abaixo do peso ou não; homem ou mulher; criança ou adulto, não importa. Trata-se de um transtorno agressivo e cruel.
Segundo Mara Maranhão, psiquiatra especialista em transtornos alimentares da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), a anorexia é o transtorno mental com a maior taxa de mortalidade registrada por complicações clínicas, além do suicídio – portanto, tratar deste tema sem romantizá-lo é fundamental. Mas, infelizmente, muitos vídeos divulgados nas redes sociais tentam convencer pessoas de que se trata de um universo atraente.
To the Bone conseguiu atingir o cerne da doença, isso o torna uma obra importante – pois de nada adiantam filmes que romantizam transtornos para que mais jovens os admirem. É necessário mostrar o lado mais sujo, real, triste, e degradante daquilo que deve ser evitado.
