Num levantamento com base no Mapa do Feminicídio de 2020 até 2025, os dados indicam que, em média, 87 casos são consumados no Rio Grande do Sul anualmente. Em 2026, até o momento, o Estado já totaliza 28 casos. Em meio a este cenário, uma exposição fotográfica em Gravataí propõe um olhar urgente sobre os sinais que antecedem esse tipo de violência.
Intitulado O início antes do fim, o projeto é proposto pelo ColetiveArts e contemplado pelo Edital Portas Abertas, política pública da Secretaria Municipal de Cultura. Ao invés de registrar apenas a violência física, a narrativa que acompanha as fotografias busca evidenciar comportamentos que, embora frequentemente naturalizados, fazem parte do ciclo que culmina no feminicídio.
Isab-El Cristina, diretora de cultura e idealizadora da exposição, comenta que criou a narrativa do projeto a partir de uma junção de momentos pessoais, relatos de conhecidas e notícias que circulam na mídia. “Eu estava em casa, perto do Dia Internacional da Mulher, quando vi sobre mais um caso de feminicídio e pensei: ‘Tenho que produzir algo que denuncie isso’.” A ideia original, uma pequena crônica, tornou-se um trabalho que mistura escrita e fotografia, e que circulou em Gravataí em diversos espaços, como a Biblioteca Pública e a Câmara Municipal.
Os custos foram providenciados pela própria Isab-El e sua equipe. Além disso, a exposição não tem nenhum retorno financeiro, tendo entrada sempre gratuita. Para a artista, o pagamento vem em outro tipo de valor: “Um homem chegou em mim esses dias e disse que, através deste trabalho, ele percebeu que tomava essas atitudes que julgava natural e que ia mudar”, comenta Isab-El, “Quando eu ouvi isso, senti que estava atingindo o que eu queria, e isso é maior que qualquer outra coisa.”
O relato é um exemplo do objetivo que a equipe tem por trás da exposição: ajudar pessoas, sejam mulheres ou homens, jovens ou adultos, a entenderem quando relações deixam de serem saudáveis, para solucionar o problema antes que ele custe uma vida. Édina Santos, coordenadora cultural e parceira de Isab-El, complementa: “Muitas vezes, por se tratar de um tema de feminicídio, a gente se restringe a ter uma orientação para as mulheres, sendo que quem mais precisaria dessa orientação são os homens, justamente.”

Entre riscos e prevenções
Atualmente, as bolhas digitais se tornaram campos fomentadores para a misoginia, especialmente entre jovens, que encontram nas redes sociais e fóruns on-line espaços de reforço dessas ideias. Para Édina, esse problema não se restringe a apenas garotos, jovens ou ao presente: “A gente ainda tem muitas mulheres machistas, porque foram criadas assim, que levam isso para os filhos”, afirma.
Segundo ela, esse processo contribui para a reprodução de comportamentos e ideias de masculinidade que não acompanham a autonomia conquistada pelas mulheres. “E isso é um prato cheio para movimentos como o redpill”, analisa a coordenadora cultural. “Os homens se infantilizam e interiorizam tudo, o que dificulta o crescimento como indivíduos e como pares. A internet fomenta isso, e o que deveria ser um meio de desenvolvimento gera retrocesso”, completa.
A prevenção contra o feminicídio começa desde cedo. Isab-El esclarece que a forma como a violência é vivenciada na infância pode influenciar nos comportamentos ao longo da vida. Ao ver uma situação como essa, a criança pode interpretar como se fosse algo natural, “por isso que é importante chegar na primeira infância, chegar nas escolas desde o fundamental, para que comece a fazer uma conscientização a partir daí”, pontua a diretora.
O silêncio ainda é um dos elementos mais perigosos no contexto do feminicídio. A Fundação Perseu Abramo (FPA) divulgou um relatório no final de 2025, em que é apontado que 70% das mulheres vítimas de violência doméstica não denunciam os agressores. Na exposição, a própria Isab-El encena as imagens, “porque no final, o estigma fica com a mulher que é violentada em vez do homem que pratica a violência”, pontua, “por isso eu fico feliz, não pelas fotos em si, porque elas são chocantes, mas em poder pôr a minha cara para alguma coisa que podia auxiliar outras pessoas que têm receio”.
Sobre como enxergam o papel da arte em romper essa naturalização da violência contra a mulher, a dupla é direta: “Essa é a função da arte, incomodar. Um pônei cor-de-rosa não incomoda, isso sim.” diz Isab-El. “Se não for para incomodar, eu nem saio de casa” acrescenta Édina.
Atualmente, a mostra está exposta no Quiosque da Cultura, no centro de Gravataí. O espaço funciona de segunda a sexta, das 9h às 17h, com entrada gratuita. O início antes do fim ficará no centro cultural até o dia 30 de abril, propondo aos visitantes um momento de reflexão e incômodo.
