Quem anda pelo centro de Porto Alegre, próximo ao Mercado Público, encontra a sede da Ocupação Maria da Conceição Tavares, e uma cena chama atenção: diversas peças de roupas pintadas de vermelho expostas nas janelas, denunciando o alto número de vítimas de feminicídio no Rio Grande do Sul.
Com o aumento dos casos de feminicídio no estado, a organização trouxe uma forma de expressar o alto número de vítimas. Na época, havia 1.568 mulheres assassinadas, além de diversas famílias devastadas e crianças órfãs. A manifestação surge como uma iniciativa para dar dimensão a esse número.
Cada janela tem três ou quatro peças penduradas para completar o número total. Algumas peças foram doadas, outras vieram de brechó e algumas foram manchadas de vermelho para intensificar o impacto da manifestação. “Foi muito interessante que, ao ponto que a gente ia construindo essa ação, nós, as mulheres aqui da Tavares e toda a militância, fomos refletindo sobre. Então, parece que deu uma virada de chave em algumas mulheres, né? Poxa, eu poderia ser uma camiseta representada aqui”, relata Glória Machado, militante do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST).

Dentro da ocupação, nenhuma ação de violência é tolerada. Existe uma roda de mulheres que surge justamente por conta da violência doméstica, que acaba se expressando internamente. Uma das regras é a não tolerância a qualquer tipo de violência, principalmente contra mulheres, crianças, idosos e pessoas com deficiência.
Na Tavares, os cadastros são realizados em nome das mulheres da família, visto que, quando são expressadas atitudes de violência, muitas mulheres acabam se omitindo ou vão embora com o companheiro. Para aquelas que optam por permanecer, foi criado um espaço de acolhimento, apoio e debate, com rodas de conversa realizadas semanalmente no local.

A realidade vivida pelas mulheres dentro da ocupação está diretamente ligada à origem do espaço. A ocupação surge no contexto da enchente enfrentada pela cidade no ano de 2024, como relata Juanita Oliveira, coordenadora do MTST-RS. O movimento atuava na cozinha solidária localizada no bairro Azenha, onde eles observaram que a maioria das pessoas que estavam ajudando no local eram as próprias vítimas das enchentes.
Como a maioria da população não tinha um local apropriado para morar, “nós, como um movimento de luta por moradia, concluímos que não é possível que a cidade, que tem alto déficit habitacional, não tenha condições de transformar o que está ocioso em moradia”, relata Juanita.

Espaços como a Ocupação Tavares têm um papel importante na sociedade quando as políticas públicas falham. Em situações como casos de violência contra a mulher, a vítima se encontra em um cenário de vulnerabilidade, agravado pela falta de moradia, o que se conecta ao objetivo principal da organização: oferecer habitação para quem precisa.
A relação entre moradia e violência contra a mulher é direta. Em muitos casos, a falta de um espaço seguro impede que as vítimas consigam romper ciclos de abuso. Sem alternativas, as mulheres permanecem em ambientes violentos por não terem para onde ir. Nesse contexto, iniciativas como a Ocupação Tavares têm o papel de suprir o vazio deixado pelo poder público.
Segundo as lideranças do movimento, há pouca atuação do poder público na garantia do direito à moradia. A ausência de políticas efetivas, somada à criminalização das ocupações, expõe um cenário em que movimentos sociais assumem funções que deveriam ser garantidas pelo Estado.
Muitas pessoas olham a ocupação com maus olhos, acreditam que não há organização interna e criminalizam o ato. Diariamente, os moradores sofrem ataques verbais de quem passa pelo local, que acredita se tratar de uma invasão. Muito pelo contrário, a Tavares possui regras estruturadas de manutenção e convivência bem claras para quem está morando no local.
As roupas seguem expostas nas janelas como uma forma de mostrar que a luta continua. O objetivo é manter a denúncia ativa, tanto para quem segue na luta por uma moradia digna quanto pelo enfrentamento ao crescente número de casos de feminicídio no estado, como comentam Glória e Juanita: “Faltam janelas para tantos casos que estão ocorrendo”.

i
