Um sonho de ser redatora que nasceu ainda no ensino médio, sendo moldado para o campo da publicidade e, já aos 18 anos, levando a São Paulo, onde portas se abriram em agências na área. Contudo, após algum tempo de experiência, a publicidade acabou perdendo seu glamour, e a jovem se voltou para as artes visuais.
Aos 16, ela já havia conhecido o teatro, mas foi apenas quando estava em São Paulo que passou a realizar espetáculos ao lado de artistas renomados da época. Ainda assim, o teatro, guiado por temporadas finitas, também não preencheu os desejos de Katia Suman. Ela queria uma coisa mais estável.
Foi então que, em meio a uma crise pessoal, Katia Suman retornou a Porto Alegre. Nesse período, conheceu a Bandeirantes FM, que posteriormente viria a se chamar Ipanema FM, onde permaneceu por quase 20 anos, nas décadas de 1980 e 90. “A Bandeirantes foi a experiência profissional mais importante da minha vida”, enfatiza. Após essa experiência, a profissional passou por diversos locais, como a Rádio Unisinos, a Felusp, a TVCOM e a TVE, permanecendo cerca de três anos em cada emissora. Conheça mais sobre a história da comunicadora e seus projetos na entrevista a seguir.
Como você enxerga o impacto cultural e musical da Rádio Ipanema na sua vida?
Na minha vida e na vida de todo mundo que viveu aquele momento. Porque não havia internet, celular e telefone fixo era artigo de luxo, então a informação não circulava como circula hoje, tudo ao alcance de um clique. Mesmo os discos não chegavam em Porto Alegre. As notícias, a gente tinha pelos jornais e revistas de Rio de Janeiro e São Paulo, também revistas internacionais, então estavamos muito conectados com o que acontecia no mundo. A Ipanema foi, digamos, um letramento musical. E não só musical, porque a rádio, apesar de ser voltada para um público jovem, era política. Ela fez campanhas incríveis, como a do Araújo Vianna, que reabriu por uma campanha que a Ipanema fez junto com os ouvintes. Ela era uma rádio de posicionamento político muito claro, porque naquele momento histórico havia apenas duas opções: ou tu era pela ditadura, ou pela democracia. E a gente era pela democracia. Na primeira eleição para prefeito de Porto Alegre, Olívio Dutra ganhou, e a gente fez cobertura da festa da vitória. Nós entrevistamos pessoas ligadas ao movimento de preservação ambiental. A gente tinha uma certa militância anti-homofóbica e feminista, já que éramos três mulheres no ar. Então, a gente foi decisivo.
Você já era voltada para questões urbanas e ativistas ou foi por meio do trabalho?
Não, isso que era legal naquela época, a gente tinha a mesma idade dos ouvintes e íamos descobrindo o mundo junto com eles. Recebemos muitos convidados, como membros da Agapan, políticos e pessoas ligadas aos movimentos sociais. Nós abríamos espaço para eles na rádio, para falarem, então a gente aprendia juntos.
Como o projeto Sarau Elétrico surgiu?
O Sarau surgiu de uma inquietação minha, queria criar um ambiente, um evento de leituras. Há pouco havia conhecido o professor de literatura na UFRGS, Luís Augusto Fischer, que é o autor do dicionário porto-alegreês, que na época estava sendo escrito, e eu convidei o Fischer, ele topou o convite na hora. Então convidei o Frank Jorge, que é um músico, e a gente começou em 1999. O Sarau faz 27 anos agora, em julho. A gente faz esse evento toda terça-feira, no Bar Ocidente. Ele é o evento de literatura regular mais antigo do Brasil, mais longevo. Cada semana tem um tema, fazemos leituras e o público gosta. Não paramos nem na pandemia, a gente continuou online. E é um evento do qual eu me orgulho muito.
E a Rádio Elétrica, como você teve a ideia desse projeto?
A Rádio Elétrica eu criei em 2009, quando vi que não tinha mais rádio para mim e eu fiz uma seleção musical muito parecida com a diversidade das músicas que tocavam na Ipanema, que não se restringia a um tipo de som. Todo dia fico um pouco em cima da rádio para não ficar repetitiva. Teve um momento que eu falei assim, vou ter que parar a rádio porque ela tem um custo. Eu tenho que pagar um bom streaming, tenho que pagar um bom hospedador e tenho um trabalho meu envolvido, porque sempre atualizo as músicas. E quando falei para um amigo que ia fechar, ele falou: “Não! Faz uma apoia-se, pede para as pessoas”. E eu fiz. E desde então, os ouvintes me pagam para fazer a rádio elétrica. Não é uma fortuna, mas eu não tenho custos com a rádio e ainda me sobra um pouquinho, então está ótimo.
Tem também o Baila Comigo, conte um pouco dessa história.
Eu tinha vontade de sair para dançar, e tinha algumas festas que queria conhecer, mas todas começavam meia-noite. Eles marcam onze horas, mas nesse horário não tem ninguém. As pessoas começam a chegar às onze e meia, quinze para meia-noite, e a coisa começa a engrenar realmente uma da manhã. E eu já tenho uma certa idade, meia-noite quero voltar para casa, e não sair de casa. Estive na Alemanha alguns anos atrás, e fui em um lugar que era uma espécie de cervejaria. Tinha uma área externa cheia de mesas e uma área interna que era como um salão de festas. E esse salão começava por volta das seis da tarde, e às vezes tinha bandas tocando, música pop, rock e DJ. Era incrível ver o público dançando, gente de todas as idades. Eu propus para o Fiap, que é o dono do Ocidente, ele ficou me cozinhando alguns meses, até que definimos um sábado para começar, que seria em março, o quarto sábado de cada mês ficou reservado para o Baila. Desde a primeira edição é um sucesso. Às seis e meia tem fila, às sete horas já está cheio, sete e meia, a pista tá bombada. Eu faço com meu filho, que é de outra geração, então são duas pistas, e quando vemos, tem gente de todas as idades que gostam da música que a gente toca, que gostam do horário.
Olhando para esses dois anos do Baila Comigo, tem algum momento ou acontecimento que foi muito marcante para você?
Eu falo no microfone durante a festa, o que também não era comum, isso era uma coisa que a gente fazia nos anos 80. Um dia falei assim: “eu vou tocar uma música que é meio ruim de dançar, mas ela é boa para cantar”. Toquei a música interpretada pela Elis Regina “Como nossos pais”, e as pessoas enlouqueceram e gritaram. E outra coisa que acontece é, quando acaba alguma música que as pessoas gostaram muito, elas aplaudem como se estivessem num show. Eu nunca tinha visto isso acontecer em uma festa.
Você é uma pessoa muito influente que já passou por diversas áreas dentro da comunicação e das ciências sociais, como você ainda se mantém engajada?
Vontade de viver. É isso que me move. Eu gosto de estar viva e tenho dois projetos em vista agora. Em todos os meus projetos, o Sarau, por exemplo, ele dá certo porque a gente não faz por grana. Então, se a gente fizesse por dinheiro, já teria acabado. Eu faço por prazer mesmo.
*Foto: Pamela Nunes/Instagram @katiasuman
