A amizade entre Eduardo e Guilherme começou muito antes dos palcos, dos estúdios e das plataformas musicais. Crescidos nas mesmas ruas de São Leopoldo, os dois compartilham uma trajetória que se confunde com a própria descoberta do rap e da cultura das batalhas de rima, movimento que ganhou força entre jovens brasileiros na segunda metade da década de 2010.
Enquanto vídeos de improviso viralizaram nas redes sociais e transformavam MCs em fenômenos nacionais, os dois adolescentes acompanhavam tudo à distância, atentos ao que acontecia nas praças de São Paulo, Rio de Janeiro e, aos poucos, também na Região Metropolitana de Porto Alegre.
“Nós começamos a acompanhar o rap por páginas do Facebook. Ficava impressionado com a rapidez de raciocínio e a criatividade dos MCs. Aos poucos fui conhecendo mais artistas e me aproximando desse universo”, relembra Eduardo.
A admiração logo deixou de ser apenas virtual. Nos intervalos da escola, as rodas de rima improvisadas entre colegas se transformaram em um laboratório para os amigos. Ali, entre provocações, risadas e versos improvisados, eles descobriram que tinham habilidade para rimar.
“Começamos com 15 ou 16 anos nas rodinhas de rima que o pessoal fazia no recreio. A gente viu que tinha habilidade e acabamos ficando viciados naquilo”, conta Guilherme, aos risos.
O que começou como brincadeira rapidamente se tornou compromisso. Adotando os vulgos Gui Christ e DLP, os dois passaram a frequentar batalhas da região e conhecer outros nomes da cena local. Entre elas estava a Batalha São Hell, uma das mais tradicionais do Vale dos Sinos.
A estreia em uma competição de maior porte não terminou com troféus. Eliminados logo na primeira fase de uma disputa em trio, eles dividiram espaço com MCs mais experientes, como Zandrio, que já havia disputado o Duelo Nacional de MCs, que reúne os melhores improvisadores de cada região do país, e um então desconhecido Xamuel, ainda no início da adolescência.
“A gente perdeu cedo, mas aquele dia foi importante porque o Zandrio falou para mim continuar com o rap. Para mim, que estáva começando na cena, ouvir isso de alguém que já era referência fez muita diferença”, recorda Guilherme.
A partir dali, o rap passou a ocupar cada vez mais espaço na rotina dos amigos. Nos tempos livres, caminhavam pelas ruas de São Leopoldo rimando e testando ideias. O hábito era tão frequente que acabou inspirando uma iniciativa própria: a criação da Batalha dos Bruxos, realizada em uma praça da cidade e organizada junto de outros jovens da região.
Mais do que competir, eles queriam entender a cultura da qual estavam começando a fazer parte.
Já relativamente experientes e imerços no mundo das batalhas por volta de 2018/2019, os dois mergulharam na história do gênero. Buscaram conhecer artistas que consideram fundamentais para qualquer pessoa interessada em fazer rap, ouviram discos clássicos e passaram a estudar com mais atenção a construção das letras.
“Foi uma época em que a gente começou a entender que existia muito mais coisa além das batalhas. Fomos atrás dos clássicos, escutamos muita música e começamos a enxergar o rap de outra forma”, diz Guilherme.
O isolamento da pandemia também marcou uma mudança importante. Depois de anos improvisando versos para o público das batalhas, os amigos decidiram dar forma às próprias músicas. Começaram a escrever letras, gravar prévias e compartilhar as primeiras composições apenas entre amigos próximos.
Após tantos anos caminhando juntos, estavam dando os primeiros passos para transformar uma amizade consolidada, entre muitas coisas, no rap, em um projeto musical de fato.
A transformação das composições em um projeto musical ganhou força a partir da parceria com o produtor e DJ Barth. Foi na casa dele que as primeiras músicas da dupla começaram a tomar forma, enquanto Eduardo e Guilherme davam os primeiros passos para além das batalhas de rima.

Em agosto de 2020, com a ajuda de um amigo que cursava Design, os dois desenvolveram a primeira identidade visual do projeto. Pouco tempo depois, veio o lançamento de Rumo ao Estrelato, música que marcou o início da Rover Records. A expectativa era alcançar cerca de 200 visualizações no primeiro dia, mas o resultado ultrapassou mil acessos em poucas horas. “Lembro que ficamos com o computador e o YouTube abertos, atualizando toda hora”, recorda Eduardo.
A repercussão surpreendeu a dupla e reforçou a ideia de que o projeto poderia alcançar públicos além do círculo de amigos. Ao mesmo tempo, os artistas buscavam construir uma identidade própria dentro da cena gaúcha. “Sempre tivemos consciência do nosso lugar nesse quebra-cabeça que é o hip-hop gaúcho”, afirma Guilherme. Segundo ele, a preocupação em retratar vivências reais sempre foi um dos pilares das composições da dupla.
O crescimento do projeto, entretanto, encontrou desafios comuns à realidade de artistas independentes. Apesar da vontade de produzir novas músicas, os custos envolvidos na gravação e divulgação acabaram limitando os lançamentos. Em meados de 2022, a Rover Records entrou em hiato. Trabalho, estudos e responsabilidades financeiras passaram a ocupar uma parcela maior da rotina dos dois artistas, que precisaram conciliar a música com outras prioridades.
Mesmo durante os períodos de pausa, a relação com o público continuou sendo uma das principais motivações da dupla. Em 2023, eles lançaram Jardins, primeira love song do projeto e trabalho que consideram seu melhor videoclipe. Gravado na Serra Gaúcha, o lançamento foi bem recebido pelos ouvintes, mas acabou sendo seguido por um novo hiato, desta vez motivado por divergências criativas e pela necessidade de repensar os rumos do projeto.
A retomada veio com São Hell Fire, trabalho que marcou uma nova fase para a dupla. Além de produzir as próprias músicas, Eduardo e Guilherme passaram a buscar formas de fortalecer a cena local, criando oportunidades para artistas e produtores de São Leopoldo terem contato com processos de gravação e produção musical.
Entre as conquistas mais marcantes dessa trajetória está a parceria com o rapper e trapper carioca Sos. O contato surgiu a partir de uma publicação nas redes sociais e resultou em uma colaboração que levou a dupla a gravar no Verse, um dos estúdios mais reconhecidos do Rio Grande do Sul. Para Eduardo, experiências como essa mostram o quanto o caminho percorrido valeu a pena. “Já realizamos muitos sonhos, mas estamos trabalhando por mais”, resume.
É impossível falar de Eduardo sem mencionar Guilherme, e vice-versa. Depois de anos sendo dupla em batalhas, composições e projetos, hoje vivem uma nova fase. Com a mudança de Eduardo para Porto Alegre, os encontros se tornaram menos frequentes e os caminhos artísticos passaram a seguir direções distintas, ao menos por enquanto.
Guilherme está finalizando um EP que deve ser lançado nos próximos meses, reunindo músicas com uma proposta mais leve e descontraída. Eduardo, por sua vez, cultiva a ideia de transformar em música as experiências acumuladas nos trajetos diários entre Porto Alegre e a Região Metropolitana, projeto que pretende desenvolver no futuro em formato de álbum.
A distância, no entanto, não diminuiu a parceria construída ao longo dos anos. Com conversas, trocas de referências e planos compartilhados, os dois seguem acompanhando de perto os passos um do outro. Os projetos individuais ocupam o presente, mas a possibilidade de novas colaborações continua fazendo parte dos planos. Afinal, para quem descobriu o rap junto em rodas de rima no intervalo da escola, a amizade segue sendo o elo que conecta os sonhos da dupla.

