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O mão de pilão

Um resgate da história e das memórias do ex-jogador de vôlei Gilson Bernardo, mineiro de nascimento, gaúcho de coração

Um clima típico de maio marcava a sexta-feira do oitavo dia daquele mês. O calor do meio-dia logo saudava o vento frio que soprava naquela tarde, no município de Novo Hamburgo, a cerca de 44 quilômetros de Porto Alegre. A cidade que é conhecida pelo forte setor calçadista, também é recinto de uma grande instituição esportiva, que, em especial, tem como o voleibol uma das modalidades mais praticadas. Na Sociedade Ginástica de Novo Hamburgo, antes de eu adentrar ao ginásio, era possível ouvir o ruído da batida da mão em contato com a bola de vôlei. Milésimos de segundos se passavam, e essa bola se explodia contra o solo. Solo esse feito com tábuas de madeira que ressoavam após colisão, causando gritos de comemoração da equipe que marcava o ponto, efusão da torcida presente, e cobranças da equipe que sofria. O som clássico de uma partida de voleibol. 

Naquela semana acontecia o 27º Festival Mercosul de Voleibol, uma das competições mais tradicionais de base do vôlei brasileiro. Na cabine de transmissão dos jogos, um velho conhecido do clube, Gilson Bernardo. Ou melhor, “Gilsão, Mão de Pilão”, um dos maiores atletas que já atuou por uma equipe gaúcha de voleibol.

O apelido veio em uma transmissão da TV Bandeirantes, em uma partida da seleção ainda nos anos 1990.

“O saudoso Marco Antônio, que depois virou um grande amigo, que me chamou assim pela primeira vez. O apelido pegou e dali em diante ninguém mais me chamava de Gilson, só de Mão de Pilão”, comenta. 

Catia Bandeira lembra bem dessa época, já que trabalhava no jornal Zero Hora nos anos 1990, na editoria de esportes. “Virou marca das transmissões dos anos 90 e poderia até ter sido incorporado ao nome de batismo de Gilson. Acabou se tornando inseparável da imagem do jogador, o que não poderia ser mais certeiro, já que remetia à força de Gilson, comparável a um pilão”, explica a jornalista.

Nascido em 1968 na cidade de Contagem, em Minas Gerais, Gilson é o quarto dos seis filhos que o casal Juarez e Delza tiveram. O pai era metalúrgico, e um cara bastante duro na educação dos filhos. Já falecido, o filho lembra de como o preconceito rodeava a relação do pai com o esporte. “Meu pai era puro futebol, vôlei era coisa de menina. Quando eu comecei a treinar de verdade, era escondido, depois que fui falar”, lembra. Apesar disso, os ensinamentos do seu Juarez são a base que hoje Gilson replica, fundamentados no respeito e a educação. “Ele ficava preocupado com meu futuro. Pagou para mim um curso técnico em eletrônica, antes de virar jogador eu já era formado”. Já da mãe, Delza, ele tem memórias da relação afetiva que tinham. Para ele, a grande motivação quando jovem, era poder ajudar financeiramente a sua família.

A infância do mineiro não foi fácil, mas foi forjadora de tudo que conquistou, como descreve. Gilson jogava vôlei com o irmão mais velho, Gerson, nas ruas de Contagem. “Usávamos estopa de cebola como rede”. Um homem que foi criado no chão batido das vilas entende como as dificuldades são parte da sua formação para além de atleta. “Esses meninos e meninas que estão jogando hoje aqui são privilegiados. Eu não tinha nem tênis adequado para jogar. Isso não quer dizer que sou mais merecedor que eles, mas com certeza as dificuldades me fizeram chegar aonde cheguei. Em quadra, ninguém queria mais que eu”, afirma, enquanto observava as quatro quadras que recebiam as partidas no ginásio.

Nos sentamos no último degrau da arquibancada, bem acima de todos, no concreto gelado. Gilson não fez cerimônia, sentou ao meu lado e me atendeu como quem estivesse com horas sobrando. Alto, careca e barba feitas, usava um casaco que o credenciava como merecia: “embaixador do vôlei gaúcho” escrito nas costas. Nos pés, um par de tênis azuis para a prática esportiva. Se precisasse, era só tirar o casaco e entrar na quadra. Por debaixo desse mesmo agasalho, uma camiseta com o nome do clube que deu ao atleta um dos títulos mais importantes da sua carreira.

De renegado a ovacionado

Gilson “Mão de Pilão” vestindo a camiseta do Suntory Sunbirds, do Japão. Foto: Reprodução

O mineiro veio parar em solo gaúcho em 1988, de penetra. “Não me queriam aqui”, lembra. Acontece que o diretor da equipe esportiva da Frangosul, Adriano Oliveira, foi até Minas Gerais observar um outro jogador do mesmo clube que Gilson treinava, o Olympico Club, de Belo Horizonte. O então técnico da equipe, Marcos Lerbach, disse à Adriano que só poderia levar o atleta se levasse Gilson para o Rio Grande do Sul também. De mãos atadas, Adriano precisou trazer ambos a contragosto para Montenegro, onde a equipe ficava sediada.

“Pegamos 32 horas de ônibus até Porto Alegre e, depois, mais 1 hora e meia até Montenegro. O maior frio que eu já tinha passado era de 16 graus, quando chegamos aqui estava oito. A gente precisou vestir as malas”, ri. O mineiro é bom de contar histórias: gesticula, faz caras engraçadas, é extrovertido. Ele comenta que sua relação com os companheiros de clube era sempre de amizade e boas risadas. 

Para o ex-técnico do atleta, Gilson sempre foi um guri bom. “Essa alegria e descontração facilitava a sua adaptação à equipe. Sempre vou ter saudades dele”, lembra Jorge Schmidt, o Jorginho, ex-técnico campeão com a Frangosul/Ginástica e com Ulbra, nos anos 90. “Um gentleman, um querido, sempre tranquilo e acessível. Em uma década de convivência, nunca o vi mal-humorado ou agressivo por qualquer motivo, um brincalhão”, completa Bandeira.

No mesmo dia em que chegou de viagem, Gilson já participou do seu primeiro treino. Atrasado em função da exaustão causada pelo longo trajeto, ele encena o momento em que pisou na quadra pela primeira vez: “Logo de cara nos falaram: ‘se chegar atrasado de novo terão desconto nos salários’. Eu nem sabia que ia receber salário, olhei pro meu amigo Paulo e falei ‘tamo’ rico!”, relembra. Após três meses, o mineiro era titular incontestável da equipe gaúcha.

Claúdia Coutinho era setorista de voleibol pela Zero Hora. Entre idas e vindas, ela e Gilson acabaram trabalhando juntos depois, tanto na Frangosul/Ginástica como no Voleisul. “Desde que ele chegou aqui no Rio Grande do Sul, sempre se mostrou um atleta muito diferenciado, não só pela qualidade técnica, mas pelo profissionalismo. Ele era um daqueles caras que se dedicavam, treinavam, e não faziam corpo mole”, descreve a jornalista. 

Durante sua passagem pela Frangosul de Montenegro, Gilson e companhia chegaram a disputar a final da Liga Nacional diante do Suzano/SP, em 1992. Para ele, a derrota na final, apesar de dolorosa, ensinou muitas coisas que o ajudaram a amadurecer. O ex-técnico Cilon Orth, falecido em 2020 aos 75 anos, foi o primeiro nome como quem trabalhou no Rio Grande do Sul, sendo parte da memória do jogador naquela passagem por Montenegro. 

“O Cilon era demais. Eu sempre fui movido a desafios, e ele me desafiava de fato. Comecei a sacar viagem porque ele disse que não era pra mim”, conta o oposto que, segundo ele, ficava 2 horas depois dos treinamentos praticando o lançamento para o novo estilo de saque na época.

Em 1993, Gilson se apresentou para o time do Palmeiras, que na época tinha como comandante outro gaúcho: Renan Dal Zotto. Para o mineiro, Renan foi crucial na sua formação como atleta. “Ele me ensinou coisas que, em 20 anos, ninguém havia me ensinado”, afirma. Neste mesmo ano, ele foi convocado para a seleção brasileira de novos, composta apenas por jovens atletas e revelações, para a disputa da primeira edição da Copa dos Campeões de Voleibol, no Japão. A seleção brasileira chegou até a final e acabou sendo derrotada pelo conjunto italiano. Apesar do resultado, o “Mão de Pilão” foi considerado o melhor jogador da competição.

Títulos de um campeão

Campeão com a Frangosul/Ginástica de Novo Hamburgo, Gilson Bernardo se consagrou como um dos maiores nomes do clube. Foto: Tobias Araújo/BETA REDAÇÃO

Após essa passagem pela seleção, Gilson recebe um novo convite para voltar ao Rio Grande do Sul, em 1994. Desta vez, para compor a nova equipe sediada na cidade de Novo Hamburgo,  a Frangosul/Ginástica. Naquele ano, os gaúchos montaram um grande elenco que terminou sagrando-se campeão da primeira edição do inédito campeonato da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), a Superliga.

“O Gilson sempre foi um jogador de força e velocidade, e acabou se encaixando na equipe com muita facilidade. Ele se adaptou fácil com o estilo de levantamento do Roese”, lembra o ex-técnico Jorginho. 

Os dois formaram uma dupla vitoriosa. São três títulos de Superliga juntos. Para Jorge Schmidt, o ex-jogador será sempre um grande amigo. “É uma pessoa do bem e terá em mim um grande admirador”, enfatiza. 

Além da Frangosul/Ginástica, eles também trabalharam juntos na Ulbra, de Canoas, equipe bicampeã da Superliga nas temporadas 97/98 e 98/99. Gilson relata uma relação de amor e ódio com o ex-treinador, mas sempre que pode, enaltece Schmidt. Já o técnico não esconde que tiveram desavenças durante um período, mas que sempre mantiveram muito respeito um pelo outro. “Tivemos um desentendimento bem forte. Ele me conhecia, conversamos e ficou tudo certo. Havia muito carinho e respeito”, explica o ex-técnico.

Gilson rodou o Brasil, jogou em diversos outros clubes no país e no exterior. Em 1999 se transferiu ao voleibol japonês para disputar a Liga Japonesa, pelo Suntory Sunbirds. Durante cinco temporadas consecutivas, sagrou-se campeão da competição e foi eleito cinco anos consecutivos como o Jogador Mais Valioso (MVP). Em 2010, encerrou a carreira como atleta em solo gaúcho, na Ulbra, sendo gestor e jogador ao mesmo tempo. “Eu fazia tudo”, exclama. Um dos grandes nomes do voleibol, pendurou as joelheiras para poder iniciar uma nova etapa na sua vida.

Fora das quatro linhas

Gilson ao lado da filha mais nova, Kimberly, e da esposa Pollyana. Foto: Pollyana Morbach/Arquivo Pessoal

Formado em Gestão Aplicada no Esporte pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), hoje o “Mão de Pilão” dá palestras sobre esporte em escolas, empresas e universidades. Ele já liderou projetos sociais relacionados ao desporto e paradesporto. Em 2014 foi técnico do Voleisul, uma sequência da Sociedade Ginástica de Novo Hamburgo, que buscava reerguer o time dos anos 90, e acabou não se concretizando.

Fora dos holofotes da grande mídia, ele não esconde que prefere levar uma vida tranquila. “Gosto de cozinhar”, dá, logo de cara, a resposta para a indagação que faço. “Estou em uma fase da vida em que gosto de ficar em casa”, complementa. Aos 58 anos, Gilson reside em Estância Velha (RS) ao lado da esposa, Pollyana, e da filha, Kimberly, de 8 anos. Para ele, a família é como uma equipe, onde o principal é a cooperação e o respeito. “Sou bem ‘das antigas’, prezo muito pelo respeito em casa”. Além da filha que vive com o pai, Gilson tem dois filhos de outro casamento que residem na Austrália: Rafael e Alice, de 24 e 21 anos, respectivamente.

Para a jornalista, empresária e pastora Pollyana Morbach, o marido tem um grande coração, não só em casa, mas com todos à sua volta. “Ele é capaz de tirar o que tem, para dar a quem não tem. Um coração generoso e abençoado”, afirma. Além de marido e amigo, a esposa não mede elogios para falar da relação de pai e filha: “Eles se reconhecem na diversão, estão sempre dando gargalhadas”, confessa a mãe. Pergunto a Pollyana se ele sente falta das quadras, visto que sempre está muito envolvido com o voleibol. Ela me diz que falta não seria a palavra exata, mas sim a alegria de lembrar dos bons momentos. “Gilson continua um legado fora das quadras, com ações sociais e projetos. Na época, foi uma decisão dele ter se retirado”, conta.

Sobre a religião, esse é um dos pilares da família. Para Gilson e Pollyana, acreditar na palavra de Deus traz paz e o amor real para o lar. “O Senhor é o centro da nossa vida”, resumem. 

Um legado para as novas gerações

Com preocupação sobre o futuro das novas gerações de atletas, o ex-jogador busca incentivar os jovens através de palestras. Foto: Tobias Araújo/BETA REDAÇÃO

A partida que ocupava a quadra principal daquela tarde no ginásio da Sociedade Ginástica era digna de atenção aos detalhes. Um vôlei de alto nível, que não nos acostumamos a ver fora da televisão. Os fundamentos bem trabalhados: defesas firmes, toques suaves e ataques potentes. “E o futuro?” , pergunto para o ex-atleta que, assim como os adolescentes que estavam em quadra, também já teve a sua juventude. “Qual o tamanho da vontade deles? Essa é a diferença entre as nossas gerações”, responde. Para o mineiro, a diferença não é na técnica ou habilidades, mas sim na relação com as pessoas em volta e com as dedicações. “Sem pessoas não vai ter bola, não vai ter grito, não vai ter quadra. Isso vale pra vida, a relação humana”, explica. “Se serão ou não profissionais, isso depende do quanto os outros vão ver da tua dedicação, tanto dentro como fora de quadra. Eu me preocupo muito com os futuros jogadores, esse é um dos assuntos que falo nas minhas palestras”, reflete.

Gilson Bernardo, “Gilsão, Mão de Pilão”, pai, marido, amigo. Um homem com tantas alcunhas diferentes para tantas pessoas diferentes, mas todas elas têm algo em comum ao lembrar do nome dele: a positividade. Gilson Bernardo marcou uma geração de aficionados do vôlei nos anos 90, sejam mineiros ou gaúchos. Nas quadras, é um daqueles amigos que ex-companheiros de clube sempre guardam recordações com carinho. Fora das quadras, por meio de projetos sociais e palestras educativas, marca uma geração de jovens que veem no esporte um futuro promissor. Gilson me marcou. Receptivo, parceiro, interessado na entrevista. Gilson marca quem passa por ele. E quem sabe, marque você nesta reportagem. 

“Eu só tenho gratidão de ter conhecido ele”.

Resume Cláudia Coutinho, o sentimento de todos que tiveram a oportunidade de terem vivido momentos com o Mão de Pilão.

Ensaio fotográfico

Foto: Tobias Araújo/BETA REDAÇÃO
Foto: Tobias Araújo/BETA REDAÇÃO
Foto: Tobias Araújo/BETA REDAÇÃO
Foto: Tobias Araújo/BETA REDAÇÃO
Foto: Tobias Araújo/BETA REDAÇÃO
Foto: Tobias Araújo/BETA REDAÇÃO
Foto: Tobias Araújo/BETA REDAÇÃO
Foto: Tobias Araújo/BETA REDAÇÃO

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