Erguer um castelo à beira do mar parece coisa de conto de fadas. Mas em Imbé, litoral norte do Rio Grande do Sul, esse sonho se tornou realidade pelas mãos de um professor de desenho que deixou um legado de pedra que resiste ao tempo e ao vento constante da praia. O Castelinho, como é carinhosamente conhecido, não é apenas um cartão-postal da cidade, e sim um testemunho da história local e, hoje, como centro cultural que abre suas portas para arte, música, teatro e encontros literários.
A história começa com Walmyr Roszanyi, falecido há 30 anos, professor de artes de Santo Antônio da Patrulha, que entre 1950 e 1956 começou a construir aquela que seria sua casa de veraneio. “Ele se confunde um pouquinho com a história do surgimento de Imbé”, explica Di Oliveira, Relações Públicas da Secretaria da Cultura da cidade, que trabalha no local desde janeiro deste ano. A construção se estendeu até 1975, quando foi finalizado o fechamento da edificação.
O material escolhido conta sua própria história: pedra gris trazida de barco através do rio Tramandaí. “De início, era só esse miolo aqui, as torres foram construídas em momentos diferentes”, detalha Di.

A família Roszanyi usou o castelo como casa de veraneio durante muitos anos. “Se tu parar pra imaginar, hoje a gente vive dentro de um sonho de uma outra pessoa, né?”, reflete Di Oliveira sobre a experiência de trabalhar naquele espaço carregado de história.
Após a morte de Walmyr, o castelo passou por diferentes usos. A família que herdou a propriedade alugou o espaço para diversos estabelecimentos comerciais — funcionou como restaurante, choperia e creperia até 2019. Foi naquele ano que o imóvel foi comprado pela administração municipal de Imbé e ganhou nova vida como Casa de Cultura e Museu Municipal.
“Quando o secretário Lino Moura assumiu a Secretaria da Cultura, o Castelinho foi aberto para inúmeras coisas”, conta Di. “Além da Casa de Cultura, a gente faz apresentações de shows, música, teatro, dança, tudo o que for em relação à cultura, as portas do Castelinho vão estar sempre abertas para isso.” A Secretaria de Cultura em si é bastante jovem — foi desmembrada da Secretaria do Turismo apenas no ano passado, e passou a funcionar integralmente no Castelinho desde então.
A transformação também mudou a relação da população com o espaço. Para muita gente, o Castelinho sempre esteve presente na paisagem da cidade, mas parecia distante. “Sempre passei pela frente do Castelinho. E, mesmo não tendo ‘muros’ medievais, ainda assim tinha uma barreira que impunha um distanciamento”, relata Adriana Herzog, moradora de Imbé. Foi durante um evento cultural, ao final de uma tarde de verão, que ela decidiu entrar pela primeira vez. “Vi que tinha um show musical e uma espécie de biblioteca itinerante. Achei muito legal. Corri em casa, tomei um banho e fui lá para ver o que estava acontecendo.”
Um museu da memória local
Ao percorrer os cômodos do castelo, o visitante faz uma verdadeira viagem no tempo. Os móveis são originais da casa de Walmyr, e as paredes contam histórias através de fotografias antigas de Imbé das décadas de 1940 e 1950, antes dos loteamentos que deram origem à cidade.
As salas temáticas vão da sala dos índios à sala do pescador, passando por uma coleção de antiguidades que inclui uma das peças mais valiosas do acervo: um dos primeiros telefones já fabricados. O cenário é composto por máquinas de escrever, discos de vinil e outros objetos de época, a maioria recebida por doação.

Foto: Caroline Lopes

“Há muitas obras expostas. E um espaço para exposição de grupos étnicos. Achei muito interessante a iniciativa cultural”, traz Adriana. Para ela, o Castelinho cumpre um papel importante ao preservar diferentes narrativas da cidade. “O Castelinho traz a memória a ser (re)visitada por quem não conhece a história do município. Ao mesmo tempo em que retrata como era a vida dos pescadores, também evidencia e enaltece a cultura dos povos originários do Brasil, bem como dos afrodescendentes.”
A arte tem lugar especial nas paredes do Castelinho. Um dos destaques é a série Mulheres Históricas, produzida por Juliana Lavora com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) do ano passado. Os quadros homenageiam personalidades femininas importantes, desde figuras locais como Nilza da Costa Godói, fundadora da ABAMI e que dá nome a uma rua da cidade, até ícones internacionais como Malala.
“Toda a arte que a gente tem de doação, todos estão repetindo a produção de artistas locais”, enfatiza Di, ressaltando o compromisso do espaço com a valorização dos talentos da região. Entre os planos futuros, está a criação de uma sala de música com discos de vinil.
A valorização dos artistas locais também chama a atenção de quem visita o espaço. “Há uma curadoria de artistas contemporâneos locais. Uma riqueza”, diz Adriana Herzog, que acredita que o potencial cultural do Castelinho ainda pode ser mais explorado pelo município. “É importante, pois é um espaço de preservação da cultura.”

Programação cultural durante o ano
O Castelinho está aberto ao público de segunda a sexta-feira, com visitas guiadas que acontecem aos sábados, das 8h30 às 11h15 e das 14h às 16h45. Mas a vida do castelo vai muito além das visitas. A programação inclui oficinas fixas e temporárias. Atualmente acontece a cada 15 dias, às quartas-feiras à noite, um encontro de filosofia com uma psicoterapeuta. “É um grupo que se reúne a cada 15 dias para filosofar, conversar, desconstruir pensamentos e reconstruir pensamentos”, descreve Di.
O calendário anual reserva eventos especiais que já se tornaram tradicionais. O Festival Medieval Van Helden, nos dias 28, 29 e 30 de agosto, é um dos mais esperados. “É todo castelo invadido por reis, rainhas, fadas, duendes. É lindíssimo, vale muito a pena ver”, garante Di. Há também o Festival de Rock e eventos de música eletrônica no lounge externo.
A equipe da Secretaria da Cultura trabalha constantemente na reorganização dos espaços. Há planos de transformar a sala do pescador em um ambiente “instagramável”, onde serão colocados os dois tronos que atualmente estão na sala medieval. O secretário doou coroas, cetros e capas reais para que os visitantes possam fazer fotos temáticas.
Desde que a biblioteca municipal foi extinta, parte significativa do acervo foi transferida para o Castelinho. O restante foi distribuído em outras repartições públicas para garantir o acesso da população aos livros.
Durante o verão, a visitação aumenta consideravelmente com a chegada dos veranistas. “Em tempo como o veraneio, tem gente de fora por aqui”, confirma Di. Ao longo do ano, o público se concentra em escolas e grupos de estudantes interessados em conhecer a história local.
“É incrível ser um local extremamente histórico”, reflete Di Oliveira sobre trabalhar diariamente no Castelinho. A cada visita guiada, a cada evento realizado, o sonho de Walmyr Roszanyi ganha nova vida. O castelo de pedra que ele construiu com tanto cuidado continua de pé, guardando memórias e criando novas histórias.
Para quem passa pela Avenida Garibaldi em Imbé, o Castelinho é impossível de ignorar. Suas torres se destacam na paisagem, convidando a descobrir o que há por trás daquelas paredes de pedra gris. E dentro, encontra-se muito mais que um museu: encontra-se um espaço vivo, pulsante, onde passado e presente se encontram, onde a cultura se reinventa a cada dia.
