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A ressignificação da cena drag no cotidiano de Porto Alegre

A ascensão de espaços de convivência diurna revela a maturidade de uma expressão cultural que une rigor artístico e resistência social na capital gaúcha

Em meio ao cenário de uma cidade onde as tradições gaúchas frequentemente ditam o ritmo da identidade local, uma estética vibrante e multifacetada tem reivindicado novos territórios de visibilidade. A arte drag de Porto Alegre deixou de estar restrita ao contexto das baladas noturnas para ocupar espaços de convivência diurna, transformando a performance em uma ferramenta de diálogo social. Essa transição reflete o fortalecimento de uma luta que defende e celebra a pluralidade em uma região marcada por conservadorismos históricos.

O Brunch & Drag surge como expoente dessa nova configuração ao propor um encontro que subverte a lógica convencional do entretenimento, combinando performances artísticas e um café da manhã tardio reforçado. Cria-se, assim, um ambiente em que o público convive de forma orgânica com as artistas anfitriãs do evento. A proposta busca desmistificar a figura da drag queen, oferecendo um espaço seguro e acolhedor que valoriza o trabalho artístico para além da vida noturna.

Compreender a engrenagem por trás desse movimento exige olhar além da maquiagem, dos saltos e dos figurinos milimetricamente planejados. Por trás de cada montagem existe um processo de construção identitária que é simultaneamente individual e coletivo. A importância dessa ocupação cultural ganha ainda mais dimensão quando observamos que, segundo dados do Sebrae sobre Economia Criativa, o setor cultural representa cerca de 2,6% do PIB brasileiro. A profissionalização da cena drag impulsiona uma cadeia produtiva que envolve figurinistas, maquiadores, atores, costureiras e diversos outros profissionais. Para entender como essa realidade se sustenta, no entanto, é necessário ouvir quem vivencia os bastidores dessa produção e os desafios de manter viva uma expressão artística que também atua como ferramenta de cidadania.

A drag queen apresentadora do evento, Abigail Foster, anima e interage com o público durante o brunch (Foto: Beatriz Schleiniger)

A expressão drag queen costuma ser associada à performance e caracterização extravagante. No entanto, a cultura drag envolve uma construção muito mais ampla, que atravessa teatro, dança, moda, maquiagem, humor, música e interpretação. Ao longo dos anos, a cena drag consolidou-se como uma forma de expressão artística capaz de explorar identidades e gerar pertencimento coletivo. Em Porto Alegre, esse movimento tem encontrado novas maneiras de ampliar o acesso do público a uma manifestação que, durante muito tempo, esteve quase exclusivamente vinculada à noite.

Entre mesas ocupadas por famílias, grupos de amigos e crianças curiosas, estavam Fernanda e Alexandre Goulart, mãe professora (33) e filho (11). Fernanda afirma que o contexto diurno torna a experiência mais acessível para diferentes públicos. Frequentadora da antiga Work Room – conhecido drag bar localizado na Cidade Baixa – ela relembra que os eventos noturnos eram praticamente as únicas referências desse tipo de manifestação cultural na cidade. “É uma arte que, ao ocupar outros espaços, desfaz o estigma de que é algo destinado a uma comunidade específica”, afirma. Para ela, a experiência permite que crianças e famílias enxerguem as drags como artistas completas: “É maquiagem, teatro, dança… Isso sim é cultura”.

Mãe e filho participam do desafio de tirar a peruca em um minuto (Foto: Beatriz Schleiniger)

Um grupo de amigas aposentadas, entre 60 e 70 anos, também percebe o brunch como uma oportunidade de contato com uma expressão artística ainda pouco difundida na capital gaúcha. Algumas já haviam participado de apresentações em São Paulo, outras tiveram experiências anteriores em Porto Alegre, e havia quem estivesse vivenciando aquele universo pela primeira vez. O grupo destacou a importância da realização de encontros como este em espaços tradicionais da cidade, como o Clube do Comércio, que sediou a edição que rapidamente esgotou seus ingressos.

Grupo de amigas aposentadas prestigia o brunch drag em busca de novas experiências culturais
(Foto: Beatriz Schleiniger)

Para os organizadores, essa diversidade de público representa uma das principais características do formato. O gerente de projetos e idealizador do Brunch & Drag, Felipe Schardosim, explica que Porto Alegre possui uma oferta significativa de artistas drag, permitindo variedade de performances e estilos. Segundo ele, o maior desafio está na estrutura necessária para conciliar gastronomia, apresentações e logística em um mesmo espaço. Felipe também afirma que existe a intenção de expandir futuramente a oferta de eventos ligados à cultura queer na cidade.

A ampliação dessas iniciativas também aparece como resposta ao enfraquecimento progressivo da vida noturna porto-alegrense. A drag queen Amy Babydoll – que também atua como atriz, produtora, figurinista e apresentadora – avalia que a ocupação de novos ambientes tornou-se necessária diante do fechamento de bares e das dificuldades enfrentadas por estabelecimentos voltados à cena LGBTQIA+ na capital. Para ela, a arte drag possui potencial para existir em diferentes formatos e linguagens, indo muito além das performances em festas. Amy também destaca a importância de apresentações voltadas para públicos amplos, especialmente crianças e idosos, aproximando a performance drag de uma experiência artística coletiva e acessível. “Desse jeito todo mundo vai rir das mesmas piadas, sem excluir ninguém, cada um a partir da sua vivência”, comenta.

A drag queen e professora de teatro Abigail Foster compartilha percepção semelhante ao afirmar que o principal impacto do brunch está justamente em aproximar a arte drag de pessoas que normalmente não frequentariam a cena noturna porto-alegrense. Segundo ela, a circulação do evento por diferentes espaços da cidade contribuiu para ampliar essa presença cultural e fortalecer ambientes de acolhimento para a comunidade LGBTQIA+. “Mas a gente tem que ocupar, temos que ser resistência. Vamos estar onde nos chamarem”, argumenta Abigail.

Amy Babydoll em sua apresentação musical (Foto: Beatriz Schleiniger)

Já a artista e drag Cassandra Calabouço destaca que a relevância do brunch está na possibilidade de aproximar públicos diversos do fazer drag e proporcionar visibilidade a um trabalho que frequentemente permanece invisível fora das casas noturnas. Além da performance, Cassandra chama atenção para toda a cadeia produtiva movimentada pela cena: confecção de figurinos, produção de perucas, maquiagem, acessórios e outros serviços especializados que sustentam economicamente diversos profissionais.

Performance de Cassandra Calabouço no brunch (Foto: Beatriz Schleiniger)

A trajetória acadêmica de Cassandra também evidencia como a arte drag vem conquistando legitimidade enquanto objeto de pesquisa e produção de conhecimento. Bailarina, performer e mestranda, ela desenvolve um estudo sobre o workshop Pimp My Drag, criado por ela em 2015, no qual participantes exploram os processos de montagem e performance. Para a artista, o fazer drag envolve múltiplas camadas de análise e dialoga com áreas como comunicação, moda, psicologia, antropologia e artes cênicas. “Fazer drag é muito complexo. Talvez seja fascinante justamente porque conversa com muitas teorias e muitos conceitos”, afirma.

Ao ocupar clubes, cafés, teatros e ambientes antes improváveis para esse tipo de performance, artistas e organizadores constroem novas possibilidades de convivência social e ampliam o entendimento coletivo sobre o que significa a arte drag contemporânea. Entre brunches, performances e encontros intergeracionais, a cena drag porto-alegrense parece reivindicar não apenas visibilidade, mas também o direito de existir em plena luz do dia.

Brinde de mimosa ao final do evento (Foto: Beatriz Schleiniger)

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