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César Fernando Silveira: o novo Papai Noel do Natal Luz de Gramado

“A gente não escolhe ser Papai Noel. A vida nos escolhe”. A frase resume bem a história de César Fernando Silveira, 60 anos, com o personagem. Agente aeroportuário aposentado, ele começou a trabalhar como Papai Noel em 2013, quase por acaso, e, 13 anos depois, foi escolhido para assumir o posto no Natal Luz de Gramado.

O primeiro trabalho aconteceu em Bom Princípio, na Serra Gaúcha. Na época, uma amiga de César trabalhava em uma escola e precisava de alguém para fazer o Papai Noel na festa de fim de ano. Ele não tinha experiência e nem roupa para isso. Mesmo assim, foi até o centro de Porto Alegre, comprou uma fantasia e resolveu tentar. Depois daquela noite, passou a participar de ações voluntárias, além de trabalhos em hospitais, asilos e outras instituições. Em 2022, já aposentado da aviação, fez um curso profissionalizante no Rio de Janeiro e passou a trabalhar como Noel profissional.

Agora, o próximo passo é Gramado. A seleção para o novo Papai Noel ocorreu após a morte de Júlio Rodrigues, em maio deste ano. Júlio interpretou o personagem no Natal Luz por 20 edições consecutivas e se tornou uma das figuras mais conhecidas do evento. César foi escolhido para assumir o papel no 41º Natal Luz, apresentado oficialmente como o maior evento de Natal do mundo. Na entrevista, ele relembrou como começou, contou os bastidores da seleção e falou sobre a responsabilidade de dar continuidade a esse legado e sobre histórias que marcaram seus 13 anos como Papai Noel.

Leia os principais trechos da entrevista:

Como era o Natal na sua infância?

Eu tenho lembranças maravilhosas e vou te dizer que não mudou muito até hoje. Na nossa família, antes da ceia, a gente faz preces, conversa, brinca. Nunca foi aquela festança; sempre foi uma confraternização. Tem também uma coincidência na família: meu avô nasceu em 24 de dezembro, se casou com a minha avó nessa data e minha mãe também faz aniversário no dia 24. Às vezes eu penso que essa história de Papai Noel já estava meio que no caminho. Quando eu era criança, quem fazia o Papai Noel era o meu pai. Ele vestia uma roupa vermelha, colocava uma touca e fazia a barba com uma planta que parecia barba crespa. Eu acreditei até os 12 anos, quando meu irmão percebeu que o Papai Noel tinha o mesmo perfume do nosso pai. Fiquei muito bravo quando ele me contou.

Como surgiu a primeira oportunidade de trabalhar como Papai Noel?

Eu não me canso de contar essa história. A gente não escolhe ser Papai Noel. Em nenhum momento pensei: “Um dia eu quero ser Papai Noel”. A vida nos escolhe, nos presenteia, e é um caminho sem volta. Uma amiga, que hoje chamo de madrinha do Papai Noel, trabalhava em uma escola de Bom Princípio e perguntou se eu conhecia alguém que tivesse uma roupa para emprestar. No outro dia, fui ao centro de Porto Alegre, comprei uma fantasia simples, barba e peruca falsas e disse que poderia fazer. Quando vi a reação das crianças e dos adultos, foi maravilhoso. Ali nasceu o César Noel, em 13 de dezembro de 2013. Depois vieram os trabalhos voluntários. Em 2022, já aposentado da aviação, fiz um curso profissionalizante no Rio de Janeiro e me tornei Papai Noel profissional.

O que passou pela sua cabeça quando você foi escolhido para representar o Papai Noel  do Natal Luz?

Passou um cinema da minha vida. Eu estava com outros quatro Noéis muito preparados. A seleção teve dois momentos. Primeiro, entrávamos individualmente em um cenário e líamos a cartinha de uma criança, usando entonação, pausas e respiração. Depois fomos para a Praça São Pedro, e ali eu me senti em casa, porque amo estar em contato com as pessoas. Uma menina pediu uma foto comigo. Eu perguntei se ela lia pensamento, porque eu também queria tirar uma foto com ela. A mãe me contou que ela estava completando 10 anos, então pedi ajuda de todo mundo e a praça inteira cantou parabéns. Ela e a mãe se emocionaram. Depois veio uma menina em cadeira de rodas, e me abaixei para conversar olhando nos olhos dela. Mais tarde, pessoas do júri me disseram que foi ali que perceberam que eu estava agindo com o coração. Na primeira etapa, eu estava interpretando o Papai Noel; na praça, era o César dando vida ao Papai Noel. Quando anunciaram meu nome, veio tudo: a primeira fantasia, os asilos, hospitais, creches e todos esses anos. A primeira coisa que fiz foi agradecer a Deus e ao Seu Júlio. Eu não tenho a pretensão de ocupar o lugar dele. Recebi esse cajado e a responsabilidade de continuar o legado que ele deixou, e quero ser o mais fiel possível. Depois, a filha dele entrou em contato comigo, disse que eu lembrava muito o pai dela e me parabenizou. Isso também mexeu muito comigo.

Como você está se preparando para a estreia no Natal Luz?

Estou cuidando da alimentação, caminhando bastante, tomando muita água, estudando Libras, treinando meu inglês e praticando um pouco de espanhol. Já aluguei uma casa em Gramado, perto da ExpoGramado, e estou preparando os figurinos. Mandei fazer uma roupa nova também. A gratidão faz parte dessa preparação. Tenho recebido muitas mensagens e faço questão de agradecer pelo carinho e pela torcida.

Qual encontro com o público mais marcou a sua trajetória como Papai Noel?

Tem muitas histórias. Uma aconteceu em Volta Redonda. Uma criança de 10 anos pediu um pedaço de pau com um prego na ponta. Perguntei por quê, e ela disse que o pai bebia e batia na mãe, e que queria aquilo para impedir que ele a machucasse. O que tu diz para uma criança numa situação dessas? Falei que, quando ela deitasse, pensasse que o Papai Noel estaria pensando junto com ela e que faríamos uma oração para que o pai se acalmasse. Aquilo mexeu muito comigo e mostra a responsabilidade que existe quando uma criança olha para o Papai Noel como alguém em quem pode confiar. Outra história foi com um senhor de 68 anos, que chegou ao shopping com um andador. Ele me contou que estava com dois tipos de câncer e sentia muitas dores. Pediu que eu conversasse com “o homem lá de cima” por ele. Peguei algumas balas do saquinho do Noel e disse que, quando minhas renas estavam cansadas, aquelas balas davam força. Ele perguntou se ia sair voando. Eu disse que, nos seres humanos, o efeito era diferente: era para colocar uma na boca, fechar os olhos e pensar naquilo em que acreditava. Quatro dias depois, ele voltou e disse: “Papai Noel, as suas balas são milagrosas”. Contou que tinha conseguido dormir quatro noites sem precisar tomar remédio para a dor. Eu respondi: “Seu João, não são as minhas balas. É a sua fé”. Depois não soube mais o que aconteceu com ele, mas saber que teve aqueles dias de tranquilidade já foi muito especial.

Como sua família reagiu ao saber que você seria o Papai Noel de Gramado?

Foi muito emocionante. Meus amigos, irmãos, minha filha e toda a família me incentivaram, mas o pai e a mãe foram diferentes. Eles acreditaram desde o início. Quando saiu o resultado, foi uma festa. E neste ano vou ter a oportunidade de levá-los para Gramado e passar o Natal com eles. Desde a infância, o Natal sempre foi muito ligado à nossa família. A comida pode ser simples; o importante é estarmos juntos, com união, paz e felicidade.

Como é sua rotina fora da temporada de Natal?

Eu continuo dando aula. Formo comissários de voo há 26 anos e também trabalho com cursos de atendimento a passageiros que precisam de assistência especial e formação de agentes de atendimento aeroportuário. Gosto muito de ler, caminhar e ficar em casa. Minha casa é meu templo, meu santuário. Domingo é sagrado para almoçar com meus pais. Nos fins de semana, também interpreto Dom Pedro I em um café temático de Porto Alegre. Então ocupo bem o meu tempo.

Interpretar o Papai Noel mudou sua forma de enxergar o Natal?

O Natal sempre foi muito ligado à fraternidade, à família e à união para mim. Sempre gostei de decorar a casa e sempre amei essa época. Mas, depois que me tornei Papai Noel, ficou ainda mais mágico. Aguçou muito a minha emoção, fiquei mais sensibilizado. Faço ações de Natal durante o ano e tenho um fundo que reservo para ajudar pessoas necessitadas. Como costumo dizer, sou Noel o ano inteiro. E, depois de me tornar o Papai Noel de Gramado, tudo isso ficou ainda mais forte.

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