O ser humano como sociedade criou um conceito que apenas quem envelhece consegue entender, o de saudosismo. “Na minha época era melhor” é uma frase costumeira, e que sem se perceber, reforça a visão das pessoas sobre suas respectivas gerações. Essa frase pode ser aplicada a literalmente tudo, e com a arte não seria diferente. Em alguns casos, as pessoas entram em um quase consenso, como sobre o cinema de antigamente ser melhor produzido.
Há quem diga que o auge do cinema foi nos anos 70. Poderoso Chefão, Taxi Driver, Star Wars… As obras são inúmeras. A verdade é que essa época foi importantíssima para a consolidação do cinema, muito através das salas de cinema e das novas tecnologias da época, como o VHS, que permitiram assistir filmes de casa. O problema é que, por ser tecnologia nova, só a elite poderia ter. Só em 1984, com os videocassetes nacionais, foi que o acesso se tornou popular, gerando uma grande possibilidade de negócio que logo foram incorporadas através das videolocadoras.
Esses não eram locais onde apenas se alugavam e vendiam filmes, mas também se tornaram um hábito do brasileiro. Para quem viveu a época, sabe que era de praxe aos finais de semana ir a uma videolocadora pegar um filme para assistir com a família toda reunida. A década de 90 foi o verdadeiro auge do negócio, muito por conta do surgimento dos DVDs, que possuíam maior capacidade de armazenamento e melhor qualidade. Mas com isso surgiu um problema grave: as cópias ilegais.

Já no começo dos anos 2000 foi que as videolocadoras tiveram seu declínio. O VHS gradativamente foi trocado quase que totalmente pelos DVDs, pois com o crescimento da internet se tornava mais fácil a falsificação, tornando o mercado menos lucrativo, já que na época os aparelhos leitores de DVD eram mais baratos. Porém, a evolução não parou por aí. Logo chegaram as TVs a cabo, com milhares de canais e filmes e no início da década passada surgiram os streamings, onde se havia um catálogo imenso de filmes e séries que não ocupavam espaço físico algum. Ali foi o fim das videolocadoras como negócio. Hoje, segundo pesquisas do IBGE, existem locadoras em menos de 23% das cidades brasileiras, não existindo mais uma grande presença como antigamente.
Mas há locais que ainda se especializam na venda de DVDs, VHS e outras tecnologias da época, como discos de vinil e LaserDiscs. Esse é o caso da Twin Video, atuante no mercado desde 1991 e que resiste ao tempo, ou melhor, que supera o tempo. Há 35 anos, os donos Denise e Francisco Noal, seu namorado na época e marido hoje, decidiram começar uma videolocadora em Porto Alegre, na garagem da mãe dele.

O começo não foi fácil, pois na época seu acervo contava apenas com DVDs e não era muito grande, tendo o número limitado de 167 unidades. Para se diferenciar dentro do mercado, foram pioneiros no ato da compra de várias unidades de um mesmo lançamento, assim os clientes não precisavam esperar a devolução de outro para alugar um filme. Ali, a loja começou a ficar mais conhecida e hoje conta com os mais diversos itens, contabilizando um número que ultrapassa os 300 mil. Apesar de ter começado como videolocadora, foi na pandemia que o local viu a necessidade de trocar seu estilo de negócio. “O perfil do cliente de locadora é um, é o de lançamento. Como não existiam mais lançamentos, decidimos abranger o mercado e adquirir CDs, vinis, livros, mangás. Antes de 2020, só possuíamos filmes”, revela Denise.

Hoje o local opera somente com a venda, troca e compra desses produtos, sem fazer mais locação. Consequentemente, o público que vem à loja é outro: são os famosos colecionadores. Quem busca o local não procura somente um item único ou raro, busca a experiência de relembrar memórias e tempos que não voltam mais. Isso explica a estética do garimpo pensado pela proprietária. A pessoa chega e procura em todos os cantos até achar algo que lhe agrade. Não existe ordem alfabética nem ordem por gêneros. É a experiência da caça em sua essência.

Como destacado por ela, “Nem WhatsApp nós usamos direito, quase sempre é por telefone fixo. Além disso, não vendemos pela internet, e nem planejo; perde a essência do negócio”, mas também ela não nega a importância que a internet teve na divulgação, principalmente com Facebook e atualmente com o Instagram, possibilitando as mais diversas pessoas de conhecerem a loja.
Esse é o caso do técnico em informática Wesley Vieira de Oliveira, de 38 anos. Morador da Paraíba, no nordeste, criou a paixão pelo colecionismo ainda quando era criança, quando frequentava videolocadoras. “Lembro de na infância estar nas locadoras com meu pai, e isso me motivou a colecionar. Quando consegui uma situação financeira melhor, investi em consoles e TV de tubo, e atualmente meu foco é em fitas VHS originais” explica Wesley. Um dos principais fatores, segundo o colecionador, é o da memória afetiva e dos bons momentos vividos nos anos 90, época que influenciou os gostos de uma geração toda. Segundo ele, estabelecimentos como a Twin Vídeo são lugares que precisam existir sempre, para assim promover a cultura das mídias físicas.
Mas se engana quem acha que apenas quem viveu a época se interessa por esse conteúdo. Denise informa que o mais comum é não existir um limitador de idade, e que o público mais jovem também tem uma paixão pelo tema. “Tem muitos casais novos que vêm, trazem um chimarrão e passam o dia olhando, escolhendo. É realmente uma programação pra eles.”
Esse tipo de negócio é o que deixa acesa a paixão de gerações pela simplicidade, por um refúgio de problemas e de momentos que foram passados de pai para filho. E Denise conta exatamente com esse pensamento. “Minha vontade é que meus filhos continuassem com o negócio, para existirem muitos anos pela frente”. Enquanto o futuro do passado se torna incerto, locais como a Twin Video se tornam verdadeiras cápsulas do tempo, provando que certas coisas não desaparecem com o tempo, somente encontram novas formas de existir.
