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Parque da Redenção: um palco democrático em Porto Alegre

Show da banda Fresno reuniu público estimado em 70 mil pessoas no último sábado (16/5); espaço de 37,51 hectares segue como ponto de encontro democrático e cultural de Porto Alegre

O Parque Farroupilha, a Redenção, recebeu no último sábado (16/5) um público estimado pelos organizadores em 70 mil pessoas para o show gratuito da banda Fresno, durante a programação da Semana S. O show teve início por volta das 20h, após abertura da banda Papas da Língua. O evento foi promovido pelo Sistema Fecomércio-RS/Sesc/Senac. Na sexta-feira (15), o local recebeu Turma do Pagode e Xande de Pilares. Enquanto a multidão lotava os gramados, a poucos metros dali músicos de rua, livreiros e artesãos mantinham suas rotinas durante o dia. As mesmas que fazem da Redenção o espaço público mais democrático da capital gaúcha.

Localizado junto ao bairro Bom Fim, o parque possui 37,51 hectares e é tombado como patrimônio histórico, cultural, natural e paisagístico de Porto Alegre desde 1997. Sua história tem início em 1807, quando a área foi doada à cidade pelo governador Paulo José da Silva Gama. O nome “Redenção” veio em 1884, em homenagem à libertação dos escravos do terceiro distrito da Capital. Já a denominação oficial “Parque Farroupilha” foi adotada em 1935, durante a Exposição Comemorativa do Centenário da Revolução Farroupilha, quando o espaço recebeu projeto de ajardinamento do urbanista francês Alfred Agache. Hoje, abriga cerca de 10 mil árvores, recantos como o Jardim Alpino, Europeu e Oriental (implantados em 1941), além do Monumento ao Expedicionário e do Auditório Araújo Viana.

A trilha sonora da rua

Enquanto o rock ecoava no palco principal, a trilha sonora cotidiana da Redenção segue em outros locais do parque, todos os finais de semana. Geraldo de Souza toca teclado há mais de 20 anos no local. “As pessoas me conhecem através da Redenção e me contratam”, conta. Fazendo assim o parque uma espécie de vitrine para talentos.

Maurício Colina toca violão na Redenção há dois anos e enxerga o parque com otimismo. “Tem muita variedade de artistas, tá acontecendo um movimento diverso muito interessante aqui”, afirma. Para ele, o parque é “um ambiente agradável e gratificante onde a música interfere positivamente na vida das pessoas”.

Livros a céu aberto

Na Avenida Oswaldo Aranha, rua que passa em frente ao parque, Gilberto Camargo monta sua livraria informal há mais de 25 anos. Ele seleciona pessoalmente cada título que vende. “Os livros são alimento para o cérebro”, define. Em um apartamento guarda cerca de 100 mil exemplares, um local inteiro dedicado às obras.

Quando começou, via o escritor Moacyr Scliar caminhando pela Redenção, lembra. Apesar das décadas de dedicação, Gilberto enfrenta a falta de apoio do poder público: “A prefeitura não permite instalar banca. Não dão espaço para crescer.” Sua filosofia de venda é simples e revela um propósito que vai além do comércio: “Eu não seguro livro. Vendo fiado e não cobro. Deus me dá mais.”

Brique, um patrimônio cultural

Criado em 19 de março de 1978, o Brique da Redenção surgiu da parceria entre a prefeitura municipal e um grupo de nomes ligados às artes, à cultura e à política, inspirado em feiras como a de Tristán Narvaja em Montevidéu e o Mercado de Pulgas de Saint Ouen em Paris. Começou com 24 expositores de antiguidades. Hoje, são mais de 150 credenciados, divididos em quatro setores, artesanato, artes plásticas, gastronomia e antiguidades, que ocupam todos os domingos a Avenida José Bonifácio, ao lado do parque. Em 2005, o Brique foi declarado Patrimônio Cultural do Estado do Rio Grande do Sul.

Cleverson Costa Silva Luiz está no Brique há em torno de 34 anos. “Eu sempre me especializei na área de brinquedo”, conta. A paixão pelo ofício veio do universo lúdico: “Sempre fui apaixonado por esse lado. E aí fui desenvolvendo tudo aquilo ali”. Seus brinquedos de madeira já cruzaram fronteiras. “Já mandei para a Alemanha, já vendi bastante para a Itália”, relata.

Foi durante a pandemia que sua arte ganhou os holofotes nacionais. Uma produtora entrou em contato e marcaram um encontro no catamarã, no Cais Mauá. “A moça chegou e escolheu um brinquedo lá e acertou comigo tudo.” Ao final da transação, ela revelou o destino da peça: “Esse teu brinquedo vai ser usado para participar da abertura da novela Amor de Mãe“.

Como funciona o Brique

Cleverson integra a comissão do setor de artesanato, onde atuam cerca de 180 artesãos fixos, além de um grupo de convidados. Cada um dos quatro setores tem sua própria comissão, e há ainda uma comissão geral que coordena a feira inteira. A gestão é compartilhada com a prefeitura. “A gente trabalha junto com a prefeitura, ela dá o aporte jurídico, tudo”, explica.

A seleção de novos expositores segue um rito rigoroso: triagem, edital publicado em Diário Oficial e avaliação das peças. “A pessoa tem que ter carteira de artesão.” O regulamento também proíbe a revenda e exige assiduidade. “A pessoa não pode ter mais de 10 faltas no ano e três consecutivas sem justificativa. Pode perder o espaço dela.”

Para Cleverson, o rigor é o que protege a essência da feira. “Em outras feiras do Brasil foi se perdendo a natureza, a proposta, e começou a entrar produtos industrializados e coisas da China que não têm nada a ver com artesanato hoje. (A redenção) É um espaço que é para o produtor, um espaço que ele tem um dia só pra vender a arte dele. Quando é tomada por esses outros segmentos, é a lei de quem paga mais, aí o lugar vira um comércio ilegal.”

“O principal é a exposição”

Apesar da estrutura organizada, Cleverson faz questão de lembrar o espírito que move a feira desde 1978: “O principal do Brique da Redenção é a exposição, a venda é uma consequência.” A frase não é retórica. Resume a filosofia de um espaço que resiste à lógica do mercado de massa e mantém vivo o encontro entre quem cria e quem admira, todo domingo.

Um parque sob pressão

Apesar da vitalidade cultural, a Redenção enfrenta desafios históricos. A prefeitura relata falta de recursos para atender a todas as demandas de manutenção. Há registros frequentes de depredação de monumentos e reclamações sobre segurança. Em 2022, a gestão municipal anunciou a intenção de conceder o parque à iniciativa privada, gerando protestos da população.

A Redenção é do povo

No fim da tarde, quando o sol começa a baixar e as últimas bancas do Brique são desmontadas, a Redenção não se esvazia, apenas muda de tom. Os músicos guardam seus instrumentos, os livros voltam para as caixas, as crianças correm uma última vez ao redor do chafariz. Fica a certeza de que o parque não pertence a uma gestão, a um evento ou a uma época. Ele pertence ao casal que dança, ao senhor que alimenta os pombos, à jovem que lê sentada na grama, ao artesão que atravessou gerações com seus brinquedos de madeira. Enquanto houver gente disposta a ocupar suas alamedas, fazer música em seus caminhos e compartilhar conhecimento em suas calçadas, a Redenção seguirá sendo o que sempre foi: o coração pulsante e democrático de Porto Alegre.

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